Saúde, febre e temperatura

Francisco Silva

Saída de casa, pela manhãzinha, com o cão. Um dia em pleno mês de Janeiro, após uma temporada de rigores (Está bem, relativos foram os rigores!). É. Primeiro os rigores tinham sido os do frio. E depois a consistir em chuvadas imensas (Mas, na minha vizinhança, por onde ando, sem consequências minimamente graves). E o dia, ia a dizer, estava mesmo radioso - lindo de sol - e quase cálido. Isto, pelo menos quanto à sensação de amenidade que usufrui. Voltado a casa, perguntado, informei que não fazia frio e que estava mesmo melhor que na véspera, mais ou menos pela mesma hora. Pelo menos daquela vez pude responder com clareza.

Convencido desta minha verdade, voltei a sair. Ou antes, saímos, eu e quem de mim tinha recebido a informação sobre a tepidez matinal. Motor do automóvel a trabalhar, visor do computador de bordo a iluminar-se e valor da temperatura exterior a ser mostrado: +8ºC. Brr, na véspera tinha estado frio - achava eu - e a temperatura indicada tinha sido +10ºC! (É certo, aqui em Lisboa, nem precisaria de escrever o «+» do positivo, porque já nem nos lembramos de temperaturas negativas!). Afinal, está frio! E eu já a ter uma certa sensação de frio e a pensar que, desta vez, ao sair de casa já o tinha sentido, e que… O poder da sugestão a funcionar.

De facto, a temperatura é um conceito científico relativo a uma variável que tem a ver, penso eu, com o grau de agitação molecular de uma substância. E, como todos o sabemos, o seu valor pode ser correntemente determinado através da sua leitura em termómetros. Altura a que sobe a coluna de mercúrio e pronto. Se o termómetro foi colocado num sítio de referência do nosso corpo, fixado numa axila com a ajuda do braço correspondente, e assinalar 37ºC ou mais diremos que o sujeito está com febre, e geralmente considera-se ser esta medida mais fiável do que uma avaliação pelo contacto de uma mão na testa - mesmo que se trate de uma mão experiente.

É que a Ciência ajuda-nos mesmo - é o que este exemplo claramente mostra. O caso da medição da temperatura com o objectivo de avaliar a nossa saúde é uma situação tão corriqueira quanto à sua aceitação, que ninguém contesta a sua objectividade e validade. E podem existir - e de facto existem - outros meios de diagnóstico mais específicos deste ou daquele «mal de saúde», e muitos outros virão a ser disponibilizados. Mas o certo é que o medir da temperatura, uma variável bem individualizada - abstraída redutoramente de um conjunto complexo de sintomas que são os próprios do organismo -, possui uma comprovada eficácia.

Pois, redutoramente - dir-se-á, frequentemente com razão -, e em consequência de uma muito presente ideia simplificadora que tende a ignorar importantes relações constitutivas das entidades, que são sempre complexas. Mas, por muito que a luta por representações de totalidades (p.ex. a representação de um ser vivo) - ditadas quantas vezes, também, por aspirações orientadas para o Absoluto - possa conter de racionais princípios de integração dos diversos mecanismos, a «simplicidade», desde que assumida em consciência, sempre nos trouxe grandes vantagens cognitivas e de aplicação na resolução dos problemas concretos da nossa Vida.

Além disso, tais visões - as holísticas -, as quais os seus campeões procuram que sejam baseadas em modelos tão completos - por definição tão totais - que praticamente não deveriam abstrair de nada, tais modelos, porque são sempre forçosamente incompletos em algo - quem é que pode tudo saber, tudo incluir? -, também não representam «exactamente» a realidade e podem, portanto, iludir e conduzir a falsas expectativas. Isto é assim, ao contrário do que acontece com modelos «redutores» - p.ex. a representação através da temperatura que vimos referindo -, relativamente aos quais é inerente a explicitação das suas abstracções e aproximações.

Por isso, a temperatura dos corpos (olvidando outros factores), como, por exemplo, num outro registo e nível de aproximação, a aceleração da gravidade na queda dos graves (descontando o atrito que sempre influencia em sentido contrário), ou ainda a consideração de velocidades de transmissão digital (desprezando o efeito dos erros causados pelo ruído inerente a qualquer processo concreto de comunicação), constituem-se, pelo menos e ainda bem, como insubstituíveis portas de entrada tanto para o julgamento e avaliação de situações concretas de aplicação, como para a compreensão teórica da natureza dos fenómenos em causa.

Entretanto, pois ainda estávamos no pino do Inverno, a amenidade primaveril, que, para gáudio de muitos, havia acabado por romper, foi-se embora e o frio voltou aí, outra vez. Mas é o tempo dele.



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