Centenas de carros partiram da Cidade Universitária, em Lisboa, em direcção à residência oficial do primeiro-ministro

Utentes em protesto

Marchas lentas, buzinões e mesmo um cordão humano foram algumas das acções das comissões de utentes de todo o País, num protesto contra as portagens e as más acessibilidades.

Uma das manifestações teve início, sexta-feira, na Cidade Universitária, com oito caravanas de carros a dirigirem-se cada uma para o Campo Grande, Entrecampos, Campo Pequeno, Saldanha, Marquês Pombal, Largo do Rato, Rua de São Bento, Assembleia da República, Calçada da Estrela, Basílica da Estrela e Álvares Cabral.

Noutra iniciativa, as caravanas partiram de localidades diferentes: os utentes da CREL saiu de Alverca, Loures e de Odivelas, a Comissão de Utentes do IC-19 saiu de Sintra, a Comissão de Acessibilidades e Transportes da Margem Sul partiu do Seixal e de Palhais, a Comissão de Utentes dos Transportes do Montijo passou pela Ponte Vasco da Gama.

Vários panfletos foram colocados nos vidros dos carros participantes, com slogans como «Discriminação da Margem Sul basta» ou «Melhores acessos, mais qualidade de vida».

Várias caravanas tiveram como destino final a residência oficial do primeiro-ministro, em São Bento, onde foi entregue um caderno reivindicativo e com sugestões.

Durante uma reunião com dois assessores do primeiro-ministro, os representantes das comissões de utentes apresentaram uma série de medidas para melhorar as acessibilidades na região, tal como retirar as portagens na CREL, redefinir a política urbanística e desenvolver as infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias.

A porta-voz da Comissão de Utentes do IC-19, Adelina Machado, explicara, antes do protesto, que «estamos aqui numa acção conjunta com diversas comissões do País, a lutar por melhores acessibilidades no concelho». Mas, depois do encontro com os assessores de Durão Barroso, a representante dos utentes manifestou pouco optimismo, prometendo novas formas de luta.


Em todo o País


Os protestos não se limitaram à região de Lisboa e a contestação às várias medidas governamentais estendeu-se a nível nacional. No IP3, três caravanas percorreram a estrada da Beira Interior, entre a Covilhã e Castelo Branco, entregando posteriormente um caderno reivindicativo ao governador civil. Na A1, um buzinão contra as portagens «Norte» fez-se também sentir. Entretanto, a Comissão de Utentes Contra as Portagens Norte de Nogueira da Regadouro na A1, promotora da iniciativa, lamentou a ausência do presidente da Câmara de Espinho e o líder distrital do PS/Aveiro, José Mota, bem como de 11 presidentes de junta da região.

Além de contestar o pagamento de portagens entre o IC24 e Grijó/Carvalhos, a comissão de utentes pretendeu realçar o «péssimo estado» das estradas que actualmente ligam Espinho ao Porto, nomeadamente a «congestionada» EN109, e a falta de transportes públicos adequados» entre as duas cidades.


«O interior não precisa de portagens»


A Direcção Regional de Santarém do PCP, solidário com várias comissões de utentes do País, particularmente com os utentes da auto-estrada da Beira Interior (IP2-IP6), promoveu uma conferência de imprensa no nó do Entroncamento/Meia Vila.

«O interior não precisa de portagens, o interior precisa é de acessibilidades», afirmou Sérgio Ribeiro, membro do Comité Central do PCP, sublinhando que as acessibilidades são um direito das populações e a sua utilização não pode ser objecto de «engenharias financeiras e de negócios que impliquem um pagamento para os utilizadores».

Segundo Sérgio Ribeiro, «as portagens são a ilustrações de uma filosofia de Governo que se baseia no principio de que "quem usar estradas, paga", "quem quer saúde, paga", "quem quer educação, paga" e os impostos servem para... outras coisas», disse.

«No PCP temos outra filosofia: os trabalhadores e as populações têm direitos a que os serviços públicos devem responder, e podem contar connosco na luta por esses direitos», concluiu o dirigente do PCP.

 

CDU ao lado dos automobilistas


Dias antes, autarcas da CDU dos vários concelhos afectados pelas portagens da CREL distribuíram na Calçada de Carriche, em Lisboa, centenas de panfletos de protesto contra a medida do Governo.

«As pessoas têm reagido bem e com um sorriso nos lábios. Muitas até param de propósito para receber o panfleto. De resto, não podem ser mais expansivas até porque estão na Calçada de Carriche, onde o fluxo de tráfego já aumentou desde a reposição das portagens», afirmou o vereador da Câmara Municipal de Lisboa, António Abreu.

A vereadora da Câmara de Sintra, Guadalupe Gonçalves, justificou a escolha do local por ser «um dos mais emblemáticos da Área Metropolitana de Lisboa em termos de congestionamentos diários, a par do IC-19 e da Segunda Circular, e pela maior facilidade de distribuição dos panfletos».

Para a vereadora da CDU, «o aumento de tráfego nas vias de acesso à cidade de Lisboa é visível e já foi admitido pela BRISA, segundo a qual houve uma quebra de fluxo de trânsito de 25 a 30 por cento desde o início do ano».

Os autarcas da CDU não se conformam com o pagamento da CREL, já que as circulares têm uma função distribuidora de tráfego evitando o congestionamento da cidade e, como tal, «não devem ser pagas».

António Abreu considera uma «parolice» esta atitude do Governo, que, para resolver a questão do déficit orçamental, resolve impor o pagamento da CREL sem ouvir as autarquias locais. «Por exemplo, a Alemanha tem um déficit orçamental muito maior que o nosso e não tomou essas decisões. Isto é uma parolice dos nossos dirigentes políticos que vai reactivar a recessão económica», frisou António Abreu.

O protesto da CDU pretendeu ainda apoiar a iniciativa do Grupo Parlamentar do PCP, que requereu o debate na Assembleia da República sobre a decisão do Governo que considera como «contrária a uma política de gestão de tráfego que vise melhorar as acessibilidades e a mobilidade».

Unidos numa «luta de todos os concelhos», estiveram presentes na iniciativa autarcas de Lisboa, Sintra, Odivelas, Loures, Vila Franca de Xira, Ramada, Póvoa de Santa Iria, Santo António dos Cavaleiros e Vialonga, com um objectivo principal: a anulação das portagens.



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