Papiniano Carlos: escritor insubmisso e actuante

José António Gomes

EVOCAÇÃO Raras serão as bibliotecas escolares do País que não possuem exemplares do que, ao longo de várias gerações, se tornaria um dos livros com maior número de leitores da nossa literatura para a infância: A Menina Gotinha de Água, poema narrativo que Papiniano Carlos (1918-2012) publicou em 1963, ilustrado por João da Câmara Leme.

A gravação em disco do texto (deu-lhe voz Carmen Dolores), o filme de Alfredo Tropa (produção RTP) que nele se baseou e os artistas que ilustraram sucessivas reedições (João Machado, Joana Quental, Henrique Cayatte…) viriam a ampliar o merecido sucesso da obra – linguagem simples, poética, plena de sensibilidade. E poucos serão os professores de Português (o que inclui os do 1.º ciclo) que não conhecem os versos iniciais desta recriação poética do ciclo da água: «Era uma vez / uma menina / chamada / Gotinha de Água. / A menina / Gotinha de Água / vivia / no mar sem fim. / E era linda, / tão linda, / vestida de esmeralda / e luar. / Ora no fundo, / ora nas vagas / coberta de espuma, / ela brincava / com suas irmãs.»

Mas o escritor que aqui se homenageia, no centenário do nascimento (9/11/1918), não foi apenas um dos nomes a reter na literatura para os mais novos – pois contribuiu para a sua renovação ideotemática a partir das décadas de 50-60 (com Redol, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Sidónio Muralha, Matilde Rosa Araújo, Sophia e outros), criando obras em que se tornou visível a atracção pelo engenho humano, pela ciência e a técnica, pela questão ambientalista: leia-se Luisinho e as Andorinhas e O Cavalo das Sete Cores e O Navio, ambos de 1977, O Grande Lagarto da Pedra Azul, 1986, A Viagem de Alexandra, 1989, e outras obras. Falamos também de quem é um muito revisitado poeta da resistência ao fascismo e ao colonialismo, e cujos poemas foram cantados por Luís Cília, Carlos Mendes e outros. Destaque merece Canção de Catarina, musicada por Lopes-Graça e centrada no assassinato de Catarina Eufémia.

Poeta da luta e do Porto

Da obra poética de Papiniano, saliente-se A Ave sobre a Cidade (1973) – súmula antológica –, Canto Fraternal (2005) e ainda Sonhar a Terra Livre e Insubmissa (1973), antologia de composições de Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e do próprio Papiniano, editada pela Inova, de Cruz Santos. Porquê estes poetas? Porque, justamente, pertenciam ao núcleo que, entre 1957 e 1962, dirigira no Porto a série de nove «fascículos de poesia» publicados sob uma direcção que incluía ainda Daniel Filipe, Ernâni Melo Viana e Rebordão Navarro. Título dos fascículos: Notícias do Bloqueio, tomado de um emblemático poema de Egito Gonçalves. Ora este grupo correspondia a uma 2.ª geração neo-realista, marcada pelas tensões da «Guerra Fria» e pelo temor do apocalipse nuclear, mas muito envolvida, no plano político-cultural, na resistência à ditadura salazarista-marcelista e na luta pela paz (Papiniano integrará o Conselho Português para a Paz e Cooperação e, como delegado, tomará parte em conferências internacionais em Sófia, Estocolmo, Budapeste, Bruxelas e Moscovo – actividade que lhe valerá a perseguição pela PIDE).

É de acrescentar que à acção político-cultural do poeta e de outros companheiros de geração não são alheios o convívio e colaboração com Óscar Lopes, Virgínia Moura, Lobão Vital, os professores e matemáticos Ruy Luís Gomes e José Morgado, o advogado e futuro universitário Armando Castro, e outras figuras incontornáveis da resistência antifascista na região do Porto.

A lírica de Papiniano, não raro marcada por um tom épico, vai para lá dos temas da resistência e do compromisso sociopolítico com o seu tempo histórico, em inesquecíveis poemas como Infância, Caminhemos serenos, Canto para Guevara, Os ciclistas. É também uma escrita em que ganham expressão a tensão erótica, a exaltação da África natal e dos seus impulsos de emancipação, o quotidiano, a homenagem a companheiros de luta.

Alguns destes mesmos veios percorrem a ficção para adultos, muito atenta quer à realidade rural duriense, sobretudo à miséria e exploração de camponeses e rendeiros de uma região que Papiniano conheceu bem e onde trabalhou, quer a aspectos da resistência antifascista e da revolução libertadora de Abril. Difícil será esquecer os tipos humanos populares dos seus belos e oralizantes contos, em Terra com Sede (1946), ou do romance fragmentário O Rio na Treva (1975).

Evocador do Porto e do Douro, numa bela recolha de crónicas (colaborou na imprensa e contribuiu para aí divulgar poetas africanos), repórter de sevícias infligidas aos presos pela PIDE, em A Memória com Passaporte (1998), Papiniano, em 1942, ano em que casa com Olívia de Oliveira Valente, estreia-se na poesia com Esboço. Publica, em 1946, Estrada Nova, com capa de Júlio Pomar (rapidamente apreendido pela PIDE), e os contos de Terra Com Sede (outra capa de Pomar), uma das suas melhores obras.

Militante da paz e do socialismo

Foi militante do PCP desde 1949. Após a infância em Moçambique, onde nascera, e os estudos secundários na Invicta, frequentara as faculdades de Engenharia e de Ciências da Universidade do Porto. Vive algum tempo em Oliveira de Azeméis, onde a sua residência serve de apoio a clandestinos do Partido, e desenvolve acção clandestina contra o fascismo, usando o pseudónimo Garcia, em homenagem a García Lorca. Regressa ao Porto e, em 1959, fixa morada em Águas Santas, Maia (actual freguesia de Pedrouços), tendo sido preso diversas vezes pela PIDE e visto vários livros apreendidos e proibidos.

Empenhado nas campanhas da oposição democrática antes do 25 de Abril, combatente pelas causas da paz e do socialismo, tendo desempenhado tarefas autárquicas após a Revolução, Papiniano foi sempre um humanista generoso mas combativo. O melhor tributo que hoje lhe podemos prestar será reeditar, ler e dar a ler às novas gerações os seus livros, reflectindo sobre o seu exemplo de intelectual e artista insubmisso, e de denodado resistente ao fascismo.

Até porque esse combate prossegue hoje: no Brasil como na Ucrânia, na Hungria como na Polónia, na Alemanha como em Israel, nos EUA e noutras regiões do mundo. Mas, como escrevia Papiniano, «Um galo canta / na manhã futura. / Seu canto espanta / a noite escura.»




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