• Correia da Fonseca

Hoje

É um conjunto de barracas sem as mínimas condições que lhe justificariam a existência em qualquer lugar, muito menos onde foram toscamente implantadas, ali, à beirinha do aeroporto que serve Lisboa, capital europeia. Nelas vive gente. Repete-se: gente. Nas frias noites de Inverno, crianças e adultos defendem-se como podem, e podem pouco: entrelaçam corpos na busca de algum calor, acendem lumes perigosos. Quando e quanto podem, quotizam-se para pagarem o custo de energia eléctrica que lhes permita calor e combustível. Alguns dos habitantes, nem todos, têm trabalho escassamente remunerado; algumas das crianças ainda conseguem ter vida escolar. Uns e outros podem olhar quase de perto os grandes aviões que vão e vêm para o mundo e do mundo. Olhando-os, talvez os garotos ainda sonhem. É duvidoso que os adultos ainda mantenham a capacidade de sonhar. E tudo aquilo ganhou um nome quase pomposo: é chamado o Bairro da Torre. A reportagem da RTP não explicou porquê, nem era importante que o explicasse: bem se pode dizer que haveria outras explicações que seria prioritário dar. Talvez antes de qualquer outra, a de quantos bairros semelhantes haverá neste país que vai celebrar não apenas quarenta e três anos de liberdade mas também quarenta e três anos de esperança.

À entrada da Europa

O bairro está ali, digamos que à vista de toda a gente, mas parece certo que a generalidade dos residentes na capital ou, mais amplamente, na chamada Grande Lisboa, lhe desconhece a existência. A reportagem contou-nos que quem aparentemente terá «descoberto» o Bairro da Torre, ou pelo menos quem ali serviu de cicerone à RTP, foi um missionário comboniano que, desembarcado na Portela e tendo provavelmente olhado em redor um pouco mais longe do que é habitual, ficou chocado com aquele espectáculo de miséria e abandono. Talvez não seja inútil lembrar que os missionários combonianos são um pouco diferentes do que é costume, estão como que especializados em contactar regiões onde a desgraça abunda. Este vinha da Colômbia, vira por lá muitas razões para indignação e tristeza, mas não esperava reencontrá-las ali, mesmo à entrada da Europa prestigiada e em muitos aspectos mítica: olhou o Bairro da Torre, visitou-o de perto, digamos que por dentro, e afirmou à reportagem que nunca encontrara tanta miséria nos bairros pobres das cinturas suburbanas da América do Sul que conhecera, e conhecera muitas. Contudo, no mínimo ele decerto ouvira falar de uma Revolução chamada dos Cravos que tivera por um dos seus objectivos principais acabar com a pobreza extrema que a ditadura então derrubada impusera ao povo. Ele decerto ouvira falar dela, sim, mas agora ali estava, amargamente surpreso, chocado perante as barracas frágeis, as crianças sujas, a sobrepenúria evidente, a adivinhável indiferença que explicava tudo aquilo e mais o que, não sendo obviamente visível, facilmente se adivinhava. Demorou-se um pouco a reportagem e depois, naturalmente, partiu. Ao lado, vinte e quatro horas por dia, grandes aviões aterram ou partem. O Bairro da Torre lá ficou. Tanto quanto se sabe, na mesma.




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