Comentário

Detroit, cidade assassinada

António Santos

No pas­sado dia 18 de Julho, o chefe do go­verno da ci­dade de De­troit, no Es­tado do Mi­chigan, de­clarou que a ci­dade tinha en­trado em ban­car­rota, na­quilo que seria a maior fa­lência mu­ni­cipal da His­tória. Um «gestor de emer­gência», es­co­lhido a dedo entre os qua­dros de Wall Street, galgou de um pulo a de­mo­cracia e sentou-se ao leme da ci­dade. Uma es­pécie de versão ame­ri­cana da troika con­den­sada num só homem, Kevyn Orr dis­pensa apre­sen­ta­ções como dis­pensa elei­ções. Anun­ciou, pe­remp­tório, que a dí­vida pú­blica da au­tar­quia as­cendia aos 20 mil mi­lhões de dó­lares e que se De­troit pre­ten­desse pagá-la não podia con­ti­nuar a pagar re­formas nem pen­sões nem se­guros de saúde. Mas como chegou De­troit a esta si­tu­ação?

Nos anos que se se­guiram à Se­gunda Guerra Mun­dial, a ci­dade de De­troit era o cartão postal do ca­pi­ta­lismo norte-ame­ri­cano. Com quase dois mi­lhões de ha­bi­tantes, chegou a ser a quarta maior ci­dade de um país que fer­ven­tava cres­ci­mento em con­tra­di­ções de classe. Ape­li­dada de «ci­dade motor dos EUA» por al­bergar uma das mai­ores in­dús­trias au­to­mó­veis do mundo, De­troit trans­bor­dava de fá­bricas e vida, mas também de ex­plo­ração e ra­cismo.

Com um re­vólver ou com uma ca­neta

Mas na ci­dade ma­quete do ca­pi­ta­lismo, al­guma coisa correu ter­ri­vel­mente mal. Hoje, 60% das suas cri­anças vivem abaixo do li­miar da po­breza e a taxa de de­sem­prego, em 16%, é a mais ele­vada do país. A «ci­dade motor» parou de rugir: Numa de­cisão cons­ci­ente de classe, os pa­trões le­varam as fá­bricas para os su­búr­bios, ou­tros es­tados ou qual­quer outro lugar onde não hou­vesse sin­di­catos e se pu­desse pagar menos. Em meio sé­culo, De­troit perdeu me­tade da po­pu­lação.

De­pois, os bancos caíram fe­roz­mente sobre as casas dos de­sem­pre­gados: mais de 78 mil edi­fí­cios foram en­tre­gues ao aban­dono e bairros in­teiros fi­caram de­vo­lutos. Nas ruas acu­mula-se o lixo e 40% da ilu­mi­nação pú­blica não fun­ciona. Para en­som­brecer ainda mais a fo­to­grafia, De­troit foi eleita a ci­dade mais pe­ri­gosa e vi­o­lenta dos EUA, um lugar onde a única in­dús­tria que pa­rece pros­perar é a da cons­trução de pri­sões. Mas, na taxa de crimes vi­o­lentos, não constam os que re­al­mente as­sas­si­naram De­troit. É que, como can­tava Wo­odie Guthrie, nem sempre te apontam um re­vólver quando te querem as­saltar: por vezes é com ca­neta de tinta per­ma­nente que o roubo se con­suma.

Quem quer tanto a ban­car­rota?

Esta De­troit fa­lida é também a sede de doze das em­presas mais ricas do mundo, da Ge­neral Mo­tors à Ford. Em 2012, a GM atingiu lu­cros no valor de 150 mil mi­lhões de dó­lares e a Ford no valor de 136 mil mi­lhões. Em 2009, ambas foram res­ga­tadas da fa­lência com os im­postos dos tra­ba­lha­dores de De­troit, mas agora apa­dri­nham pu­bli­ca­mente a ban­car­rota da sua pró­pria ci­dade. «O truque da ban­car­rota», como lhe chamam os tra­ba­lha­dores es­tado-uni­denses, já tinha sido usado em dé­cadas an­te­ri­ores para re­tirar di­reitos aos tra­ba­lha­dores aé­reos, aos mi­neiros e aos ope­rá­rios me­ta­lúr­gicos. Agora, o mesmo ar­ti­fício serve para jus­ti­ficar o pa­ga­mento da dí­vida aos bancos com o di­nheiro das re­formas e pen­sões, a par de um pro­grama de aus­te­ri­dade que in­clui a pri­va­ti­zação da água, da re­colha do lixo, do jardim zo­o­ló­gico e dos mu­seus da ci­dade.

Mas a 19 de Julho um tri­bunal do Mi­chigan vetou a «ban­car­rota» por con­si­derar que o não pa­ga­mento de pen­sões e re­formas viola a cons­ti­tuição da­quele Es­tado. No pas­sado dia 24, de­mo­cratas e re­pu­bli­canos (ze­lotes dos di­reitos dos es­tados na hora de so­correr o ra­cismo) pu­seram em marcha uma ar­ti­manha ju­rí­dica que po­derá per­mitir que a lei fe­deral se so­bre­ponha à es­ta­dual para impor a ban­car­rota.

Os dias de Cronos

78% dos fun­ci­o­ná­rios pú­blicos dos EUA têm di­reito a pen­sões pagas pelo pa­trão, ao con­trário de apenas 18% no pri­vado. Se a ban­car­rota de De­troit se ma­te­ri­a­lizar, ser­virá de mo­delo a um ataque se­me­lhante contra as pen­sões e re­formas de 20 mi­lhões de fun­ci­o­ná­rios pú­blicos por todo o país. A des­truição da ci­dade de De­troit é o preço que o ca­pital aceitou pagar para des­truir esses di­reitos, al­cançar lucro rá­pido e ajo­e­lhar um povo lu­tador.

As ruas de De­troit são a ver­da­deira face do ca­pi­ta­lismo. Re­velam a sua na­tu­reza de­pre­da­tória, a sua ten­dência pa­to­ló­gica para crescer e se des­truir. Como Cronos, que comeu os seus pró­prios fi­lhos, também o ca­pi­ta­lismo ar­ruína as suas pró­prias fá­bricas e en­gole as ci­dades que mandou er­guer. E como Cronos, também o ca­pi­ta­lismo de­vora a sua prole. Porque no seu âmago sabe, que um dia e mais cedo que tarde, serão os seus fi­lhos a pôr fim aos dias do seu im­pério.



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