Violência recrudesce na Síria

Chacina de Houla exige investigação

116 sírios, entre os quais 49 crianças e 39 mulheres, foram barbaramente assassinados sexta-feira, 25, em Houla, perto de Homs, na Síria. O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas.

Para Robert Mood não é claro quem são os responsáveis

O enviado das Nações Unidas e da Liga Árabe, Kofi Anan encontrou-se anteontem com o presidente sírio. Annan adjectivou o acto como «repugnante», concordou com a investigação cabal dos acontecimentos – o que foi igualmente exigido pela Rússia e China –, qualificou a conversa como «franca» e elogiou a cooperação mantida entre o governo de Damasco e a equipa de 300 observadores das Nações Unidas que, conjuntamente, procuram fazer cumprir o cessar-fogo no terreno.

Na reunião, Assad insistiu que os grupos terroristas incrementaram os ataques nos últimos dias no país e sublinhou que é preciso que os países que os financiam, armam e acolhem contribuam para o cumprimento do plano de seis pontos para a pacificação do país (Telesur 29.05.2012).

No dia seguinte à chacina, sábado, o responsável pelos observadores da ONU, Robert Mood, qualificou o sucedido em Houla como «indiscritível e inesquecível», mas escusou-se a acusar directamente o regime sírio pela matança (Russia Today 26.05.2012).

Não obstante, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS), reunido de emergência no domingo, 27, aprovou uma resolução condenando fortemente os acontecimentos e acusando directamente as autoridades sírias de terem bombardeado áreas residenciais na cidade durante os confrontos com grupos de sublevados.

 

Campanha aberta

 

Após a reunião do CS, o representante da síria junto da ONU, Bashar Al Jaafari, qualificou as intervenções dos embaixadores das nações imperialistas de «tsunami de mentiras» e considerou que as declarações de Robert Mood foram deturpadas e manipuladas, lembrando novamente que para o general norueguês ao serviço das Nações Unidas «não era claro quem eram os responsáveis» pelas terríveis matanças.

Al Jaafari relatou ainda a versão dos factos segundo as autoridades de Damasco, sublinhando que na sexta-feira, pelas 14h00, um total de 200 a 300 homens fortemente armados com mísseis anti-tanque, morteiros, metralhadoras, juntaram-se em Houla, atacaram as forças da ordem locais e partiram para uma localidade a cerca de um quilómetro onde incendiaram um hospital central, quintas agrícolas e casas.

Noutras vilas próximas de Houla - Shomaria, Al Rastan, Talbise e Al Kser -, continuou Al Jaafari, mataram várias famílias, após o que começaram os confrontos com o exército sírio em Houla, que durou até às 23h00 de sexta-feira (ver declaração completa e perguntas e respostas aos jornalistas em www.globalresearch.ca).

Jaafari prosseguiu a tentativa do regime sírio de contrariar a campanha que acusa Damasco de ter levado a cabo o crime em Houla. Neste campo, parece não haver limites e só para citar um exemplo, registe-se que pouco depois de terem começado a circular informações sobre o horror de Houla, a BBC fez acompanhar uma notícia sobre o sucedido com uma foto de um massacre de crianças cometido no… Iraque ocupado pelos EUA, em Março de 2003.

Não fora a intervenção do autor, Marco di Lauro, e a BBC teria mantido a imagem com a higiénica expressão de «impossível de confirmar». Di Lauro insurgiu-se contra o uso da foto para «motivos de propaganda» (Russia Today 28.05.2012) e esta acabou retirada.

Antes da conferência de imprensa do seu embaixador na ONU, o governo de Assad já havia afastado responsabilidades dizendo que «desde que aprovámos o plano Annan aumentou o terrorismo por parte dos que não desejam a paz», estranhando que o sucedido em Houla tenha precedido o regresso de Kofi Annan ao território e enviou mesmo cartas a todos os organismos das Nações Unidas a explicar os factos apurados e a salientar que o banho de sangue teve como propósito criar ambiente para uma intervenção estrangeira (Prensa Latina 29.05.2012).

Supostamente ao lado da verdade, o embaixador da Rússia enfatizou durante a reunião do CS da ONU que a maior parte das vítimas haviam sido «assassinadas à queima roupa e alguns cadáveres estavam degolados e apresentavam ataques com objectos cortantes» (AFP e Reuters 28.05.2012).

Já na terça-feira, 29, e após a Itália, Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Austrália e Canadá terem expulso os diplomatas sírios dos respectivos países, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, disse que várias potências estrangeiras apoiam os chamados rebeldes sírios, usam os atentados terroristas para justificar uma intervenção no país e actuam como se o CS não tivesse ordenado uma investigação (Telesur).

Mais tarde, e depois de falar com Annan ao telefone, Lavrov insistiu que «preocupa-nos as tentativas de terminar com a missão do ex-secretário-geral da ONU e o uso dos acontecimentos de Houla para justificar os apelos ao CS para que este determine uma intervenção militar na Síria (PL 29.05.2012).

O responsável da diplomacia russa referia-se ao presidente do denominado Conselho Nacional Sírio, Burhan Ghalioun, que reagiu imediatamente com apelos à «luta armada até que o CS dê luz verde para uma intervenção estrangeira»; aludiu ao chamado Exército Sírio Livre, que declarou que depois de Houla é preciso que o «plano Annan vá para o inferno» e «exige que o CS tome medidas para proteger os civis» (AFP 26.05.2012); e as declarações cirúrgicas de chefes de Estado como François Holland e Benjamin Netanyahu. O primeiro não exclui uma intervenção militar na Síria e em conversa com o seu homólogo britânico, David Cameron, acordou um encontro dos auto-intitulados «amigos da Síria» em Paris. O segundo foi mesmo mais claro e apelou a uma guerra contra o país vizinho «ao estilo da Líbia».



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