Deposição de cinzas de José Saramago em Lisboa

Homenagem a um vulto da nossa Cultura

Foi uma cerimónia simples e plena de afectos, ainda que solene, a deposição das cinzas de José Saramago em Lisboa, sob uma oliveira centenária transplantada da Azinhaga, sua aldeia natal.

Saramago é uma figura ímpar da nossa Cultura

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Exactamente um ano após a sua morte, no sábado, 18, junto à Casa dos Bicos - que acolherá a fundação com o seu nome -, o Nobel da Literatura português voltou a ser lembrado como uma figura ímpar da nossa cultura. Alguém que continuará presente nas nossas vidas, sempre que abrirmos os seus livros e nos deixarmos envolver pelas suas histórias e personagens.

Esse foi o sentido mais forte da homenagem que lhe foi prestada pelas mais de três centenas de pessoas presentes no Campo das Cebolas, conhecidos e multidão anónima, gente que acompanhou e viveu intensamente aquele momento, sob o sol escaldante da manhã, com recolhido silêncio e profunda emoção.

Tudo começou às 11h30, ao som da percussão dos Tocá Rufar, a que se seguiu a leitura de um texto de Saramago sobre Lisboa - «Palavras para uma Cidade» -, pelo professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho. Texto onde o autor de «Memorial do Convento» deixa expresso de forma clara o seu desejo – que deveria ser uma ambição colectiva - de ver Lisboa, onde viveu e trabalhou, como uma cidade «culta, moderna, limpa, organizada, sem perder nada da sua alma».

Lida foi depois pela escritora Lídia Jorge uma mensagem intitulada «Palavras para Ti», na qual sublinha que Saramago será «levantado chão» sempre que os seus leitores reencontrarem a escrita que inventou.

«Tu não serás as cinzas que Pilar vai depositar sob a oliveira (…), serás os milhares de páginas que escreveste», salientou, concluindo: «Quanto a nós, enquanto formos vivos, recordar-te-emos sempre. Não temos outra eternidade para te dar.»

Prestando homenagem em nome da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, por seu lado, em breves palavras, recordou o envolvimento dos muitos milhares de pessoas que há um ano se despediram do escritor e militante comunista, agitando livros e cravos, «vermelhos como ele era».

Emocionante, por fim, foi o momento em que Pilar del Río, viúva do escritor e presidente da Fundação José Saramago, depositou as cinzas junto às raízes da oliveira, acompanhadas de um livro, que foram depois cobertos por terra de Lanzarote colocada pelo edil da capital.

 

Legado histórico

 

 

Foram muitas as figuras públicas ligadas ao mundo das artes e letras, bem como da política, que marcaram presença na homenagem a Saramago, a par do muito povo anónimo. Além da filha, Violante, e da neta, Ana Saramago, estiveram nomes como o do seu editor, Zeferino Coelho, o director da Biblioteca Nacional ou a ministra da Cultura cessante.

Presente na homenagem esteve também uma delegação do PCP constituída pelo seu Secretário-geral, Jerónimo de Sousa, pelo líder parlamentar, Bernardino Soares, e pelo director do Avante! e membro do CC, José Casanova.

«A minha presença significa uma homenagem ao escritor, ao comunista, ao homem que deu uma contribuição valiosa no plano da literatura para o prestígio internacional do nosso País», esclareceu Jerónimo de Sousa, adiantando simultaneamente que José Saramago «deixou um legado histórico que deve ser sempre lembrado como o fizemos hoje aqui nesta celebração».

 

Acto poético

 

«Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia». É esta a frase do «Memorial do Convento», gravada a preto numa das placas de pedra incrustadas no pavimento, que se encontra junto ao local onde repousam as cinzas do nosso Nobel da Literatura. Na outra, à esquerda de quem lê, «José Saramago 1922 – 2010».

Estes são elementos adjacentes à centenária oliveira proveniente da Azinhaga do Ribatejo, que uma sábia poda agora revitalizou, representando simbolicamente aquela outra a que o escritor alude no livro «As Pequenas Memórias» (2006).

A completar o quadro, e de forma não menos simbólica, um banco em pedra, pronto a receber o visitante e a partilhar a generosa sombra da oliveira.

É este conjunto que integra o espaço fronteiro à Casa dos Bicos, futura sede da Fundação José Saramago, bem no coração do Campo das Cebolas.

Com o Tejo ali bem perto, este é um cenário tranquilo e sereno, que convida ao repouso e à leitura. Afinal é na leitura dos seus livros que reside a melhor homenagem que se pode prestar a Saramago. Garantindo a perenidade da sua obra. Por isso, bem se pode dizer, aqueles são elementos que na perfeição se constituem num acto poético carregado de simbolismo e beleza.

 



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