Antecedentes do processo histórico
Na já referida Introdução à terceira edição alemã de A Guerra Civil em França, texto no qual Karl Marx analisa a Comuna de Paris, Friedrich Engels nota que o «desenvolvimento económico e político da França colocava Paris num contexto que «nenhuma revolução poderia ali rebentar que não tomasse um carácter proletário». O proletariado, «que pagava com o seu sangue a vitória, surgia, depois, com reivindicações próprias».
Ainda que «imprecisas e confusas» dado o grau de amadurecimento do operariado parisiense, estas reivindicações apontavam sempre para «a eliminação do antagonismo de classes», e, mesmo não estando claro como é que isso sucederia, a própria reivindicação apavorava a burguesia, que antevia «um perigo para a ordem social estabelecida» no sentido em que «os operários que a colocavam estavam ainda armados».
Assim, «para os burgueses que se encontravam ao leme do Estado – prossegue Engels –, o desarmamento dos operários era imperativo», razão pela qual «depois de cada revolução conquistada pela luta dos operários, nova luta, que termina com a derrota dos operários».
Tal foi o caso da revolução de 1830, a partir da qual, como expressou o banqueiro Lafitte, passou a reinar o capital financeiro. A mesma superação do proletariado pela burguesia e esmagamento brutal da classe operária ocorreu em 1832 e 1839, em Paris, e em 1834, em Lyon, casos de revoltas que não se tornaram revoluções, por um lado, fruto da incipiente organização dos coveiros do capitalismo, e, por outro, da penetração das ideias blanquistas e prodhunistas, à época dominantes entre os círculos associativos da classe.
Tal foi ainda o que aconteceu na revolução de 1848, quando a classe operária parisiense, então «muito mais autónoma do que suspeitavam os burgueses» e constituindo-se já como «uma força no Estado», é empurrada para a insurreição.
«Seguiu-se – continua Engels – um banho de sangue dos prisioneiros desarmados (...). Era a primeira vez que a burguesia mostrava até que louca crueldade de vingança é levada, logo que o proletariado ousa surgir face a ela como classe à parte, com interesses e reivindicações próprias».
«E, ainda assim, 1848 foi uma brincadeira de crianças perante a sua raiva de 1871», conclui Engels.
Contexto da Comuna
Os processos revolucionários que dobram a segunda metade do século XIX em França e que permitem compreender os acontecimentos precedentes são analisados por Marx no 18 Brumário de Luís Bonaparte e em A Luta de Classes em França. Partindo do curso real dos acontecimentos, Marx constata que a revolução proletária tem de empreender a tarefa de quebrar a «máquina burocrática e militar» que é o poder do Estado, centralizado e aperfeiçoado pelas sucessivas revoluções, mas constituindo, como se lê no Manifesto do Partido Comunista, «apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa».
Com efeito, em 1852, Marx e Engels consideram que a restauração do Império com Luís Bonaparte foi o corolário de um processo que, inevitavelmente, teria de resultar na «única forma de governo possível numa altura em que (...) a classe operária ainda não tinha alcançado essa capacidade [de governar]». Os fundadores do marxismo também não podiam ir mais além na questão de saber por o quê substituir o instrumento transitório de dominação de classe que constitui o Estado após a sua aniquilação pela revolução proletária. A questão só pôde ser desvendada quando a Comuna de Paris a colocou na ordem do dia.
No poder, Luís Bonaparte extremou o favorecimento das fracções da burguesia constituídas pelo capital financeiro e pelos latifundiários. Intensificou a exploração da classe operária e das massas laboriosas, incluindo o campesinato. Empreendeu aventuras militares, a última das quais, contra a Prússia, inaugurou, segundo Marx, «o dobrar de finados do Segundo Império».
A 2 Setembro de 1870, o próprio Bonaparte é feito prisioneiro junto com um numeroso exército. Dois dias depois, é novamente proclamada a República, cujo executivo de salvação nacional reúne toda a grande burguesia francesa. Nas forças armadas, dominavam os generais que preferiram render-se a distribuir armas ao povo. Só na Paris cercada pelos prussianos a classe operária decidiu assumir a defesa da pátria, armando 200 novos batalhões da Guarda Nacional.
Os generais reaccionários ainda procuraram desbaratar o proletariado levando a cabo missões suicidas contra os germânicos, mas o operariado parisiense não depunha as armas.
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Fontes:
Obras Escolhidas de K. Marx e F. Engels em Três Tomos, Editorial «Avante!»
Obras Escolhidas de V. I. Lénine em Seis Tomos, Editorial «Avante!»
ABC do Marxismo-Leninismo – A Comuna de Paris, Editorial «Avante!»
A Comuna de Paris na Actualidade, Aurélio Santos, in O Militante