Defender o <i>Avante!</i> com a vida
No ano em que se cumprem 60 anos sobre o seu brutal assassinato, na sede da PIDE, o Avante! evoca José Moreira, destacado construtor deste jornal, ao qual consagrou a sua vida. O trabalho que hoje fazemos, semana após semana, para fazer do Avante! um jornal cada vez melhor e mais lido, é também uma homenagem a este revolucionário dedicado e exemplar.
Quando foi assassinado, na tortura, a 23 de Janeiro de 1950, o comunista José Moreira tinha a responsabilidade pela ligação com as tipografias clandestinas do Partido. Ao assaltar a sua casa, em Torres Novas, no seguimento de uma denúncia, a PIDE sabia quem acabara de capturar. Recorrendo às mais atrozes violências, tentou arrancar-lhe a localização das tipografias, um dos alvos preferenciais da repressão.
Mas José Moreira defendeu o seu mais precioso segredo e, com ele, o seu Partido e nada disse. Foi torturado até à morte. Tinha 38 anos.
Tentando encobrir mais este odioso crime, a sinistra polícia tentou encenar um suicídio, atirando o corpo já sem vida de José Moreira de uma janela da sua sede, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Mas os golpes no corpo e o rosto desfigurado deixavam claro as violências que sofrera.
Ao dar a vida para defender o Partido e o seu aparelho clandestino de imprensa, o nome de José Moreira figura na heróica galeria de mártires comunistas, ao lado de Bento Gonçalves, Militão Ribeiro, Alfredo Dinis (Alex), Ferreira Soares, Alfredo Caldeira ou José Dias Coelho.
Um revolucionário exemplar
Nascido em 1912 em Vieira de Leiria, José Moreira mudou-se, mais tarde, para a Marinha Grande para trabalhar como operário vidreiro. É na fábrica que forma a sua consciência política e de classe, moldada pelas duras condições de trabalho e pelo espírito e tradição revolucionários do operariado local – o mesmo que, a 18 de Janeiro de 1934, ousou desafiar a ditadura e tomar o poder na vila, ainda que por algumas horas.
Em 1945, tornou-se funcionário do Partido, passando a trabalhar no aparelho de imprensa. Tratava-se de uma tarefa árdua e complexa a necessitar de uma dedicação ilimitada e da máxima criatividade, fundamental para ultrapassar todos os obstáculos que se colocavam à impressão e distribuição do Avante! e da restante imprensa clandestina.
Em primeiro lugar, havia que arranjar papel e tinta (cuja venda a PIDE chegou a limitar e vigiar) e distribuí-los pelas diversas instalações. Depois, era necessário receber, da direcção do Partido, os textos e entregá-los nas tipografias para serem impressos. O último passo era levar os jornais, boletins e manifestos e fazê-los chegar à organização do Partido e, por seu intermédio, aos trabalhadores e ao povo. A realização destas tarefas exigia muito trabalho: múltiplos encontros, longas deslocações, a máxima discrição e sigilo e um respeito estreito pelas regras conspirativas. A tudo isto José Moreira se dedicou de forma exemplar.
A entrega dos materiais impressos para distribuição era feita, por razões de segurança, em locais distantes quer das tipografias quer das regiões a que se destinavam e as viagens fê-las, tantas vezes, José Moreira de bicicleta. Por mês, chegava a percorrer 2 500 quilómetros na sua bicicleta, carregando grandes cargas.
O sacrifício, empenho e disponibilidade revolucionária que empenhou nesta tarefa fazem de José Moreira, Lino de nome clandestino, um exemplo de militante comunista. Diz quem com ele conviveu que devotava muitas das suas energias ao acompanhamento, apoio e estímulo àqueles que trabalhavam no isolamento das tipografias.
O coração da luta popular
«Uma tipografia clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver.» Era desta forma notável que José Moreira concebia a tarefa que tão ardentemente desempenhou até ao último dia da sua vida.
E tinha razão. Era o Avante! e só ele que levava ao povo português, explorado e oprimido pela ditadura e pelos senhores que esta servia, a denúncia, a explicação e o estímulo; só ele rompia a censura e chegava a muitos milhares de mãos, apesar dos perigos; só ele semeava a revolta e a transformava em luta.
Por esta razão, a PIDE fazia da caça às tipografias uma das suas actividades prioritárias. Por vezes, atingia o seu objectivo. Quando tal sucedia, o fascismo rejubilava. Mas por pouco tempo, pois o Avante!, impresso noutra tipografia que entretanto entrara em funcionamento, saía para as ruas.
Fruto da reorganização e das medidas de organização e defesa entretanto tomadas, o Avante! sairia ininterruptamente entre Agosto de 1941 e Abril de 1974, sempre composto e impresso no interior do País. Na década de 40, durante as grandes lutas operárias que então se travavam, a tiragem atingiria uns impressionantes 10 mil exemplares, apesar de nunca durante a luta clandestina os efectivos do Partido terem superado metade desse número.
Um herói do Partido
Não há edição ou brochura do Partido dedicada à sua história que não considere José Moreira um dos seus heróis. O seu nome figura na brochura clandestina editada por ocasião do cinquentenário do PCP em 1971, intitulada Heróis da Luta. No próprio Avante!, ao qual consagrou o melhor das suas energias e capacidades e em defesa do qual acabou por morrer, surgem ao longo dos tempos várias referências à sua vida e também à sua morte. Em Agosto de 1950, considerava-se nas páginas do órgão central do Partido que «a melhor homenagem que lhe podemos prestar é levar o Avante!, o seu Avante!, a todos os recantos do País».
Poucos meses depois, em Janeiro de 1951, assinalava-se o primeiro aniversário do seu assassinato – num artigo dedicado também a Militão Ribeiro, morto, também ele, dias antes. Nesse texto, realçava-se que José Moreira morrera «para que o Partido viva». Nos anos seguintes, na edição de Janeiro, não se deixou cair no esquecimento esta vida dedicada ao Partido que a brutalidade fascista levou antes de tempo.
Também em Agosto de 1961, na edição que assinalava o 30.º aniversário do Avante!, se evocou José Moreira. Pela primeira vez, o rosto daquele heróico militante comunista foi conhecido, graças a uma gravura publicada nessa edição, saída das mãos habilidosas de José Dias Coelho.
A 31 de Janeiro de 1950, poucos dias depois do assassinato de José Moreira, o Comité Provincial do Oeste do PCP emitia um comunicado intitulado Os bandoleiros da PIDE assassinaram o operário José Moreira! Protestemos energicamente contra mais este crime cometido na pessoa dum dos melhores filhos da classe operária. Nesse comunicado, apelava-se à paralisação do trabalho nas fábricas da Marinha Grande e ao encerramento do comércio como forma de protesto por mais este crime do fascismo e de exigência de castigo dos assassinos. A realização de inscrições «por toda a parte» e o envio de cartas e telegramas às autoridades eram as outras formas de protesto sugeridas.
Bibliografia: 60 Anos de Luta; A Resistência em Portugal; O Militante n.º 174, de Novembro de 1989; vários números do Avante! clandestino; diversos documentos e brochuras do arquivo do PCP.
Mas José Moreira defendeu o seu mais precioso segredo e, com ele, o seu Partido e nada disse. Foi torturado até à morte. Tinha 38 anos.
Tentando encobrir mais este odioso crime, a sinistra polícia tentou encenar um suicídio, atirando o corpo já sem vida de José Moreira de uma janela da sua sede, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Mas os golpes no corpo e o rosto desfigurado deixavam claro as violências que sofrera.
Ao dar a vida para defender o Partido e o seu aparelho clandestino de imprensa, o nome de José Moreira figura na heróica galeria de mártires comunistas, ao lado de Bento Gonçalves, Militão Ribeiro, Alfredo Dinis (Alex), Ferreira Soares, Alfredo Caldeira ou José Dias Coelho.
Um revolucionário exemplar
Nascido em 1912 em Vieira de Leiria, José Moreira mudou-se, mais tarde, para a Marinha Grande para trabalhar como operário vidreiro. É na fábrica que forma a sua consciência política e de classe, moldada pelas duras condições de trabalho e pelo espírito e tradição revolucionários do operariado local – o mesmo que, a 18 de Janeiro de 1934, ousou desafiar a ditadura e tomar o poder na vila, ainda que por algumas horas.
Em 1945, tornou-se funcionário do Partido, passando a trabalhar no aparelho de imprensa. Tratava-se de uma tarefa árdua e complexa a necessitar de uma dedicação ilimitada e da máxima criatividade, fundamental para ultrapassar todos os obstáculos que se colocavam à impressão e distribuição do Avante! e da restante imprensa clandestina.
Em primeiro lugar, havia que arranjar papel e tinta (cuja venda a PIDE chegou a limitar e vigiar) e distribuí-los pelas diversas instalações. Depois, era necessário receber, da direcção do Partido, os textos e entregá-los nas tipografias para serem impressos. O último passo era levar os jornais, boletins e manifestos e fazê-los chegar à organização do Partido e, por seu intermédio, aos trabalhadores e ao povo. A realização destas tarefas exigia muito trabalho: múltiplos encontros, longas deslocações, a máxima discrição e sigilo e um respeito estreito pelas regras conspirativas. A tudo isto José Moreira se dedicou de forma exemplar.
A entrega dos materiais impressos para distribuição era feita, por razões de segurança, em locais distantes quer das tipografias quer das regiões a que se destinavam e as viagens fê-las, tantas vezes, José Moreira de bicicleta. Por mês, chegava a percorrer 2 500 quilómetros na sua bicicleta, carregando grandes cargas.
O sacrifício, empenho e disponibilidade revolucionária que empenhou nesta tarefa fazem de José Moreira, Lino de nome clandestino, um exemplo de militante comunista. Diz quem com ele conviveu que devotava muitas das suas energias ao acompanhamento, apoio e estímulo àqueles que trabalhavam no isolamento das tipografias.
O coração da luta popular
«Uma tipografia clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver.» Era desta forma notável que José Moreira concebia a tarefa que tão ardentemente desempenhou até ao último dia da sua vida.
E tinha razão. Era o Avante! e só ele que levava ao povo português, explorado e oprimido pela ditadura e pelos senhores que esta servia, a denúncia, a explicação e o estímulo; só ele rompia a censura e chegava a muitos milhares de mãos, apesar dos perigos; só ele semeava a revolta e a transformava em luta.
Por esta razão, a PIDE fazia da caça às tipografias uma das suas actividades prioritárias. Por vezes, atingia o seu objectivo. Quando tal sucedia, o fascismo rejubilava. Mas por pouco tempo, pois o Avante!, impresso noutra tipografia que entretanto entrara em funcionamento, saía para as ruas.
Fruto da reorganização e das medidas de organização e defesa entretanto tomadas, o Avante! sairia ininterruptamente entre Agosto de 1941 e Abril de 1974, sempre composto e impresso no interior do País. Na década de 40, durante as grandes lutas operárias que então se travavam, a tiragem atingiria uns impressionantes 10 mil exemplares, apesar de nunca durante a luta clandestina os efectivos do Partido terem superado metade desse número.
Um herói do Partido
Não há edição ou brochura do Partido dedicada à sua história que não considere José Moreira um dos seus heróis. O seu nome figura na brochura clandestina editada por ocasião do cinquentenário do PCP em 1971, intitulada Heróis da Luta. No próprio Avante!, ao qual consagrou o melhor das suas energias e capacidades e em defesa do qual acabou por morrer, surgem ao longo dos tempos várias referências à sua vida e também à sua morte. Em Agosto de 1950, considerava-se nas páginas do órgão central do Partido que «a melhor homenagem que lhe podemos prestar é levar o Avante!, o seu Avante!, a todos os recantos do País».
Poucos meses depois, em Janeiro de 1951, assinalava-se o primeiro aniversário do seu assassinato – num artigo dedicado também a Militão Ribeiro, morto, também ele, dias antes. Nesse texto, realçava-se que José Moreira morrera «para que o Partido viva». Nos anos seguintes, na edição de Janeiro, não se deixou cair no esquecimento esta vida dedicada ao Partido que a brutalidade fascista levou antes de tempo.
Também em Agosto de 1961, na edição que assinalava o 30.º aniversário do Avante!, se evocou José Moreira. Pela primeira vez, o rosto daquele heróico militante comunista foi conhecido, graças a uma gravura publicada nessa edição, saída das mãos habilidosas de José Dias Coelho.
A 31 de Janeiro de 1950, poucos dias depois do assassinato de José Moreira, o Comité Provincial do Oeste do PCP emitia um comunicado intitulado Os bandoleiros da PIDE assassinaram o operário José Moreira! Protestemos energicamente contra mais este crime cometido na pessoa dum dos melhores filhos da classe operária. Nesse comunicado, apelava-se à paralisação do trabalho nas fábricas da Marinha Grande e ao encerramento do comércio como forma de protesto por mais este crime do fascismo e de exigência de castigo dos assassinos. A realização de inscrições «por toda a parte» e o envio de cartas e telegramas às autoridades eram as outras formas de protesto sugeridas.
Bibliografia: 60 Anos de Luta; A Resistência em Portugal; O Militante n.º 174, de Novembro de 1989; vários números do Avante! clandestino; diversos documentos e brochuras do arquivo do PCP.