- Nº 2759 (2026/10/15)

Uma Janela para os Mecanismos de Extermínio em Massa

Argumentos

7 de Outubro de 2026. O dia noticioso em Portugal começa com os seguintes títulos – Correio da Manhã: «7 de Outubro: os principais factos do massacre e do conflito entre Israel e Hamas»; Observador: «Em direto/ Israel assinala três anos dos ataques de 7 de Outubro do Hamas»; Diário de Notícias: «7 de Outubro: um minuto de silêncio e protestos em Israel na homenagem às vítimas dos ataques do Hamas»; Jornal de Notícias: «Países europeus assinalam 7 de Outubro unidos contra o antissemitismo»; RTP: «Israel assinalou o dia oficial de homenagem às cerca de 1.200 vítimas mortais do ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023.»

No nosso país, de entre os grandes media, apenas o jornal Público não afinou pelo mesmo diapasão afirmando «O 7 de Outubro não mudou Israel, acelerou um caminho», explicitando na notícia que aquele dia significou o início de um projecto de extermínio há muito procurado pelos sionistas.

É neste quadro que nos propomos falar sobre o filme Naza, realizado pelos israelitas Yaval Abraham, jornalista, e Rachel Szor, directora de fotografia. Amplamente premiado internacionalmente em festivais e ovacionado ininterruptamente durante cerca de 25 minutos em Veneza, o filme é uma tentativa de furar o discurso dominante sobre o que se passa hoje na Palestina, demonstrar o genocídio e os mecanismos materiais e humanos empenhados na sua execução. O relato vem de Israel, de dois cineastas que dizem não querer pactuar com o massacre perpetrado pelo seu país contra outro povo e outra nação, e dos criminosos que entrevistam, operacionais do exército israelita já na reserva, que contam que ordens seguiam e como actuavam para matar os palestinianos.

O filme é essencialmente isto, um conjunto de anteriores membros do IDF (Forças de Defesa de Israel) respondem às perguntas de Yaval Abraham, sentados, na penumbra, no topo de um edifício em Israel. Intercaladas com as imagens destas pessoas cujos rostos não conhecemos, vemos panorâmicas verticais e horizontais de edifícios próximos, olhamos para as suas janelas e, através delas, observamos os comportamentos quotidianos de cada um dos seus habitantes e compreendemos como estamos permanentemente a ser olhados e escrutinados. É fácil sermos nós o próximo alvo.

Naza, o título do filme, refere-se aos designados “danos colaterais”, isto é, quantos palestinianos poderão ter de morrer para assassinar um alegado membro do Hamas. Os operacionais do IDF entrevistados contam que a sua missão era essencialmente procurar identificar os activistas do Hamas, através de escutas de conversas nos telemóveis e reconhecimento de códigos semânticos pré-definidos. Segundo testemunhos que aí podemos ouvir, a expressão «O papá já chegou a casa?» proferida por uma criança, era suficiente para identificar esse pai como pertencente ao Hamas. A partir daí havia legitimidade para desencadear um ataque à casa, sendo aceitável para o efeito matar todos os palestinianos ao redor, homens, mulheres, idosos, crianças. Qualquer número de naza pode ser assassinado para atingir um alegado membro do Hamas. Estes danos colaterais, de acordo com os entrevistados, podiam variar entre 5 ou 6, a família mais próxima, ou 500 mortos.

Os assassinatos eram feitos quase sempre à distância, através de drones ou outros mecanismos de lançamento de mísseis. Os soldados responsáveis falam de forma impassível em relação às suas ações, dizem-se técnicos a apertar botões, fazem esquemas visuais no papel para explicar o desempenho das máquinas, falam da adrenalina da tarefa executada e como, em muitos momentos, sentiam que estavam no universo de um videojogo. Não há culpa evidente, o inimigo está distante, foi demonizado, é apenas uns pontinhos e uns sons, convertidos muitas vezes em material scripto (sem voz), num ecrã.

Um dos entrevistados refere a dado momento: «vamos continuar enquanto houver legitimidade internacional.» Daí termos começado com os títulos dos jornais portugueses três anos após o 7 de Outubro de 2023. A autorização do mundo para o genocídio persiste.

Yaval Abraham e Rachel Szor travam uma luta justa e necessária e é importante o seu contributo para a protesto. Mas por que razão continuamos a não ouvir o clamor palestiniano? Não foram estas denúncias feitas antes, inúmeras vezes expostas e documentadas pela Palestina? Não os vemos todos os dias violados, vilipendiados, desumanizados, privados do mais essencial da dignidade humana?

A comunidade internacional continua a ser cúmplice, não trava a ignomínia, porque beneficia do mesmo regime de violência e poder.

Há algo que é importante fixar: o subtítulo de Naza, que é também o título deste artigo. Vemos através de uma janela não apenas o extermínio da Palestina, mas todos os extermínios que estamos a validar para o futuro a partir daqui.

 

Marta Pinho Alves