Extorsão concertada de Frankfurt a Lisboa
É tempo de pôr fim à especulação e ao banquete do cartel da banca
Apesar do que muitos fazedores de opinião da nossa comunicação social tentam fazer-nos crer, as recentes demonstrações de resultados financeiros da banca não constituem um indicador de eficiência ou saúde económica do País. Antes representam o reflexo de uma brutal e deliberada transferência de riqueza com a cobertura de sucessivos governos: o saque aos rendimentos do trabalho para alimentar o capital financeiro.
Enquanto a maior parte das famílias enfrenta escolhas dramáticas para manter o tecto sobre a cabeça e as micro, pequenas e médias empresas correm o risco de fechar ou fecham mesmo as portas, sufocadas pelos crescentes custos do crédito, os grupos bancários acumulam milhares de milhões de euros em lucros líquidos.
Em 2025, os maiores bancos apresentaram 6,3 mil milhões de euros de lucros e em 2026, apenas no primeiro trimestre, a banca já apresentou 2,52 mil milhões de euros de lucros. Estes lucros significam objectivamente que o mesmo valor foi subtraído à economia nacional e são o resultado de uma opção política consciente, desenhada nos gabinetes de Frankfurt (Banco Central Europeu) e executada com a cumplicidade dos sucessivos governos em Lisboa, opção não desligada da opção pela contenção salarial que, a pretexto da inflação e com recurso à moeda única, aplica um garrote aos rendimentos do trabalho, tanto mais apertado, quanto mais periférico é o País.
Assim, o BCE impõe um sobrecusto sobre a moeda que age como um verdadeiro imposto regressivo sobre quem vive do seu trabalho. Qualquer análise rigorosa ao sistema financeiro desmascara a narrativa oficial: a subida de preços a que assistimos nunca foi impulsionada por um “excesso de procura” ou por uma espiral salarial, mas sim pelas perturbações na oferta – decorrentes da guerra, sanções, etc. – e pelo aproveitamento que os grandes grupos económicos fazem, a partir do domínio monopolista. Utilizando a inflação como pretexto e mantendo os salários e o consumo como alvos a abater, o BCE decide aumentar novamente as taxas de juro em 0,25pp, colocando a taxa directora de depósito nos 2,5 por cento e fazendo repercutir sobre os trabalhadores, suas famílias e sobre as MPME.
Em Portugal, a especificidade do mercado de crédito à habitação – onde a taxa variável ainda prevalece significativamente – torna o País num terreno fértil para o cartel bancário que, aproveitando-se das subidas das taxas de referência, aumenta de forma imediata as prestações cobradas. Isso já seria, por si só um elemento grave e bem demonstrativo da natureza predatória da banca privada, mas o facto de a mesma banca manter a remuneração dos depósitos bancários (média de 1,59 por cento após grande protesto dos utentes da banca) sensivelmente abaixo da média da zona euro (1,96 por cento) também demonstra o grau de “liberdade” e a voragem com que a banca aqui actua.
A discrepância entre os baixos salários e o valor destinado a juros é o motor de uma profunda injustiça social. Famílias que viram a prestação da sua casa subir centenas de euros por mês. Paralelamente, o sector produtivo nacional, desprovido de apoios públicos efectivos, vê o investimento ser bloqueado pela asfixia do crédito.
O controlo público da banca, através dos mecanismos que se demonstrem necessários e adequados é uma questão de soberania nacional, um garante de intervenção democrática nos volumes e direcções do fluxo de crédito e, simultaneamente, um imperativo social. Exige-se uma ruptura com a política do BCE e a aplicação imediata de medidas que ponham os lucros da banca a suportar os custos da crise que ela própria alimentou:
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a fixação de limites à variação das prestações do crédito à habitação, canalizando os lucros extraordinários dos bancos para amortizar o impacto do aumento dos juros;
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a obrigatoriedade de remuneração digna dos depósitos;
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a tributação efectiva e ajustada sobre os lucros do sector bancário;
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o controlo público do sector financeiro, recuperando a gestão de instrumentos estratégicos como a CGD para actuar como verdadeiro padrão.
É tempo de pôr fim à especulação e ao banquete do cartel da banca e impor uma política que defenda quem trabalha, quem produz a riqueza e que garanta a soberania económica, financeira, monetária e política de Portugal.




