- Nº 2755 (2026/09/17)
48 anos de ditadura fascista significaram ausência de liberdades, repressão, tortura, morte, pobreza generalizada para a maioria da população a favor de um pequeno grupo de capitalistas e agrários.
Significaram, também, resistência! Resistência de um povo que nunca se conformou com a situação. Resistência de vários sectores mas que contou com uma cada vez maior predominância da classe operária. Resistência que não pode ser escrita sem relevar o papel do seu principal organizador, o Partido Comunista Português. Resistência que, sendo constante, conheceu momentos particularmente relevantes que influenciaram as lutas que se lhe seguiram, através dos preciosos ensinamentos que forneceram.
Um destes episódios foi a denominada Revolta dos Marinheiros, que ocorreu há precisamente 90 anos. Não cabendo nestas linhas um relato detalhado dos acontecimentos, note-se que a coragem e capacidade de organização e demonstradas pelos marinheiros que se sublevaram merecem ser conhecidas e estudadas por todos aqueles que continuam, décadas depois, a resistir, mesmo que em condições muito diferentes.
Em 1936, as forças fascistas avançavam em diversos pontos da Europa: desde a Itália, a Alemanha e Portugal, onde o seu poder estava já institucionalizado, até ao golpe em Espanha, em Julho, que provocou a guerra que decorreria até 1939. Nas democracias burguesas, apesar das suas contradições, o nazi-fascismo era visto como uma via para derrotar a União Soviética. Perante o perigo do avanço fascista, haviam sido os comunistas, no VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935, a proclamar a necessidade de unidade das forças democráticas e populares.
Consciência e coragem
Foi neste contexto complexo e adverso que os marinheiros agiram: a consciência política era elevada, assente na Organização Revolucionária da Armada (dirigida por Manuel Guedes, que veio a integrar o Secretariado do Partido, e por Alberto Araújo), organização partidária que, com o seu jornal “O Marinheiro Vermelho”, tinha vasta influência; recentes medidas repressivas sobre marinheiros que se haviam recusado a cumprir ordens quando aportaram em portos espanhóis denominados pelos fascistas e que se recusaram a reprimir a luta do povo da Madeira conhecida como a “Revolta do Leite” provocaram o alargamento do sentimento de revolta e da necessidade de fazer algo e, nas palavras de um dos dirigentes da ORA, Faria Borda, o início da guerra em Espanha foi o rastilho que tornou irreversível a revolta.
Na noite de 7 para 8 de Setembro, os marinheiros do navios “Bartolomeu Dias”, “Dão” e “Afonso de Albuquerque” rebelaram-se e tomaram o comando dos mesmos com o objectivo de iniciar uma série de acções com vista à libertação dos camaradas presos, mas que – esperavam – pudesse conduzir à desagregação das forças que suportavam o regime e levasse à sua queda.
A análise que haviam feito da situação não estava, contudo, ao nível da coragem dos marinheiros: estavam isolados face a outras unidades militares (sabiam que em mais nenhum navio haveria adesão à revolta) e à acção das massas populares. Uma série de peripécias atrasaram em mais de sete horas a saída dos navios. Quando finalmente estes zarparam, as forças governamentais, que haviam sido apanhadas de surpresa, tinham tido já bastante tempo para preparar a repressão. No bombardeamento que se seguiu, perderam a vida 12 marinheiros e os navios ficaram inutilizados ainda antes mesmo de saírem do Tejo.
Apesar da forte componente de apoio popular (vários marinheiros foram acolhidos por populares em barcos que passavam ou protegidos ao nadarem até às margens do Tejo) sobre a maioria abateu-se a mais feroz repressão: mais de 200 foram expulsos da Armada e 82 condenados a penas de prisão. Destes, 34 integraram a primeira leva de presos que inauguraram o campo de concentração do Tarrafal, onde cinco deles vieram a falecer. A organização partidária ficou desfeita, com consequências para os anos seguintes.
Memória essencial
Mas a luta antifascista continuou e os ensinamentos desta grande acção foram valiosos, como já haviam sido os do 18 de Janeiro de 1934. A partir da reorganização do Partido de 1940/41 e – particularmente – do III Congresso do Partido em 1943, foi definida a linha do levantamento nacional para o derrubamento do fascismo, caindo as teses golpistas.
Álvaro Cunhal afirmou, numa iniciativa que assinalou os 60 anos da revolta: «Lembrança e gratidão para aqueles que na sua acção heróica foram presos, torturados, mortos na acção e no Tarrafal. Lembrança e gratidão para aqueles que não chegaram a viver o 25 de Abril pelo qual lutaram.»
90 anos depois, nas actuais condições de luta e de intervenção dos comunistas, lembrar e homenagear os marinheiros revoltosos é imperativo.