- Nº 2754 (2026/09/10)
O Avanteatro, com um espaço renovado, com todas as condições para se assistir a um espectáculo de teatro, apresentou este ano uma programação diversificada, destinada a vários tipos de público, trazendo o melhor que está a ser feito em vários locais do País, de Vila Real a Évora, cruzando práticas tradicionais e modernas, com diferentes abordagens estéticas, visando proporcionar a descoberta e o encontro com as várias práticas de fazer teatro em Portugal.
O teatro para a infância voltou a ter uma presença importante, a que se juntaram algumas companhias que fazem parte da história do Avanteatro nestes 50 anos de Festa do Avante!. O teatro de rua e a sala de espectáculos, as formas de expressão, da dança às marionetas e as peças com textos clássicos e contemporâneos, concretizaram o encontro entre teatro, dança e ilustração, esta arte e a sua importância no presente e no futuro.
A tarde amena de sexta-feira, na rua e mesmo junto a uma das entradas da Festa, com uma grande presença de público que ocupou todas as cadeiras disponíveis e um anfiteatro natural, acolheu a primeira peça 1001 Noites – Irmã Santomense, pelo grupo de teatro O Bando. Integra-se na tetralogia que o grupo tem desenvolvido desde 2023, a partir d’ As Mil e Uma Noites e que teve uma relação intensa e permanente com o público. Reinventa a abordagem clássica cruzando diferentes culturas, tendo como foco a resistência, a identidade e a partilha de histórias, fundindo o português com a língua forro.
O teatro para a infância deu início à programação de sábado com a peça infantil Volta ao Mundo em 80 Caixas, pelo Grupo de Teatro Extremo, em coprodução com Markeliñe, do País Basco, peça que se repetiu no domingo. Sala cheia com público de todas as idades que viveu a comunicação simbólica e com sentido de humor, onde a fala quase não existia e as palavras Bratislava e Bora Bora inúmeras vezes repetidas, eram sinais para partir para mais uma viagem. Trabalho construído a partir da obra Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne, cheia de aventuras e de criatividade com adereços vários criou a ilusão de viajar por todo um mundo, onde tudo pode acontecer, num desafio à imaginação partilhada por todos os que assistiram a este espectáculo onde a surpresa desafiou a imaginação.
Sábado à tarde realizou-se, junto à sala do Avanteatro, o debate “Teatro Popular, Origem do Teatro Contemporâneo Português”, com a participação de Jorge Louraço, dramaturgo, e José Russo, do Centro Dramático de Évora (CENDREV), com a moderação de Filipa Malva, membro da Comissão Nacional do PCP para as Questões da Cultura. Um debate que se centrou na abordagem entre tradição, passado, presente e futuro na sua relação com a actividade criadora recorrente e as práticas tradicionais, o teatro popular e a sua importância até no contexto do pós 25 de Abril para a construção e profissionalização do teatro em Portugal.
À noite tivemos a peça A Mãe, pelo Urze Teatro. Uma dramaturgia de Bertolt Brecht baseada no romance homónimo de Máximo Gorki. Peça intensa com mensagens fortes e uma dinâmica no palco que suscitava silêncio, medo, resistência, acção e compromisso político com a transformação social, reflexo da essência de um processo que leva a que se tome consciência das injustiças sociais. Questionou sobre qual o papel de cada um e de todos na transformação social. Aplauso prolongado confirmou a ligação do público com as mensagens acutilantes da peça.
A sala encheu no calor da tarde de domingo para assistir aos Bonecos de Santo Aleixo com a peça Auto da Criação do Mundo, um espectáculo de marionetas, da tradição popular. O Cendrev – Centro Dramático de Évora trouxe de novo à Festa do Avante esta maravilhosa criação do imaginário popular alentejano. O público pôde assistir a este momento mágico em que um retábulo de madeira, um pequeno palco tradicional é o espaço onde os Bonecos, que medem entre 20 e 40 centímetros, com um cenário e um guarda-roupa que permite, como no teatro naturalista, identificar as personagens da fábula contada e de onde, com intervenções dos personagens carismáticos Mestre Salas e Padre Chancas estabelecem uma intensa e desafiadora comunicação com o público à luz de uma candeia de azeite. Um grande aplauso neste regresso à Festa.
Nos 50 anos da Festa do Avante!, o Avanteatro terminou com Sexta-feira: O Fim do Mundo... Ou então não, pela Companhia de Dança do Seixal. Uma peça que com as opções estéticas e cenográficas criou um ambiente onde a questão do trabalho e de todo o processo social, político de sociedade e da sua evolução histórica vão denunciando as atrocidades que o capitalismo, assente na exploração, faz em relação aos direitos das pessoas, ao ambiente, ao propagar o fim da história, com a ameaça de paralisar a acção e o pensamento. Uma reacção de grande aplauso do público a quem é colocada a questão do que estamos a viver agora para parecer ser o fim, mas que pode ser o início de uma sociedade diferente, justa e solidária.