- Nº 2754 (2026/09/10)
O Espaço Internacional é sempre uma festa dentro da Festa. E este ano não foi excepção: sob o lema “Solidariedade e Paz! Não ao imperialismo e à guerra!”, ali expressou-se a solidariedade com Cuba, pelo fim do criminoso bloqueio norte-americano; com a Palestina, pelo fim ao genocídio e à ocupação por Israel; com o Sara Ocidental, pelo fim da ocupação marroquina; pelos povos do Médio Oriente, da América Latina e de África, contra a ingerência, a guerra e o imperialismo.
Ali, partidos comunistas e outras forças progressistas, de muitas partes do mundo, debatem e traçam os caminhos que respondam às aspirações dos povos da Europa, da América, de África, da Ásia, expressam a sua solidariedade, o passado que os une, as lutas comuns que têm pela frente.
Este ano estiveram presentes no Espaço Internacional 36 organizações, das quase 50 delegações que nos visitaram, a que se juntavam os pavilhões da Associação de Amizade Portugal-Cuba, da Associação Iuri Gagárin e o Espaço da Paz.
Entre um debate e uma conversa, o Espaço Internacional é um fervilhar de lutas e línguas, pelo caminho celebra-se Ho Chi Minh, vemos murais ao Sara Ocidental onde uma mulher sarauí segura a arma da resistência, ou de denúncia ao bloqueio a Cuba em que a ilha resiste aos tentáculos de um polvo azul. Ali se encontram camaradas e se fazem novos amigos, escutamos sobre as eleições na América Latina e as ingerências do imperialismo (da Colômbia e do Chile que entretanto ocorreram, à do Brasil, que será em Outubro); sobre a resistência no Médio Oriente (do Irão à Turquia, da Palestina ao Líbano); os desafios da Europa na luta contra a NATO e a militarização da UE (na França, na Bélgica, na Catalunha, na Galiza, na Itália, no Reino Unido, na Alemanha, na Jugoslávia, ou em Espanha); as lutas pela soberania e independência em África (Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe ou Cabo Verde); ou os caminhos de desenvolvimento do socialismo na Ásia (na China, no Laos, no Vietname). Aqui não há “fronteiras”, apenas encontros desenhados pela solidariedade internacionalista.
Na fila para o kebab da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), mãe e filha aproveitam a espera para conhecer os artigos da banca solidária. Sofia, 18 anos, já leva um keffiyeh recém-comprado na mão, enquanto a mãe, Maria João, 52 anos, hesita sobre os guarda-chuvas “bordados” com as linhas de pesca, simbolizando a ligação histórica dos pescadores palestinianos ao Mar Mediterrâneo. «Fui eu que a arrastei para a Festa», diz a filha, que já veio noutros anos com amigos. «É a primeira vez que venho e estou bastante impressionada», diz Maria João. «Não fazia ideia que era assim. Acho muito interessante a mistura de bancas com informação, documentação, panfletos, mais sérios, digamos, e outras que vendem comida, artesanato ou merchandising. E ao mesmo tempo ficamos a saber o que se passa noutras partes do mundo, sem filtros, contactando directamente com movimentos políticos de lá», diz.
Entre a cachupa de Cabo Verde e o caril moçambicano, o macarrão de arroz fino vietnamita, as empanadas chilenas, o esparguete italiano, mas também os mojitos cubanos, as caipirinhas brasileiras, os pisco sour peruanos, a queimada galega e as latas de refrigerante da Palestina, não há paladar que resista à diversidade cultural e gastronómica do Espaço Internacional.
Mas nem só de “barriga cheia” se percorre este Espaço Internacional. Também é preciso “alimentar o pensamento”. O debate “15.º Plano Quinquenal e o Desenvolvimento da China”, no sábado, no espaço do Partido Comunista da China, estava mesmo prestes a começar quando Madalena Neves, 39 anos, engenheira, que “abandonou” as amigas no almoço em Santarém, chegou. Vem à Festa «com regularidade» e este é um «tema que há muito» a interessa, mas sobre o qual, reconhece, «pouco se sabe para além do viés habitual». «Em Portugal, e no mundo ocidental, em geral, a informação que nos chega sobre a China é sempre muito filtrada, quase sempre tem uma carga negativa. Sabemos que estão a acontecer lá muitas coisas a nível tecnológico, científico e humano. Temos muito que aprender», diz. É por isso que está aqui: «Na Festa do Avante!, temos a possibilidade de discutir estes assuntos sem preconceitos, num espaço de partilha, e isso para mim é importante.»
O Espaço Internacional cumpre assim a sua missão maior: provar que a solidariedade não tem nacionalidade nem se curva a bloqueios, ingerências e ameaças do imperialismo. Aqui se constroem as pontes entre os povos, se desmontam as narrativas únicas e, apesar das distâncias ou das diferenças, se urdem as lutas comuns e a esperança partilhada.