- Nº 2754 (2026/09/10)
Concerto sinfónico

“À Alegria”!

Festa do Avante!

A “Festa dos 50” abriu de novo com o concerto da orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida por Vasco Pearce de Azevedo, maestro titular do agrupamento, com o concurso do coro Lisboa Cantat, dirigido por Jorge C. Alves, parceiro no repertório coral-sinfónico. Tema do concerto, “Música da Paz e da Fraternidade”, mester subversivo nos inquietantes dias e monstros que desafiamos.

Para chegarmos a ambas haverá que lutar perenemente, segundo clarividentes palavras legadas por Cândido Mota, lidas na dádiva vocal de Maria João Luís, órfã e herdeira do homenageado na arte da mediação palco-público. Foram muitas as lutas que passaram pelo concerto. A mais importante, a Nona, exemplo de materialismo histórico: no final do que seria a sua mais perfeita sinfonia – mergulhando e tocando como nunca as profundezas do Homem e do seu dorido rasto de progresso, pela depuração das oito pérolas a montante – Beethoven inova o que já estava “completo” e convida todos a “mudarem de som, de música”, pelo inesperado barítono (o excelente Armando Possante) e do restante quarteto vocal (Isabel Alcobia, Cátia Moreso e João Rodrigues, todos inoculando no colectivo em palco a pulsação e o nervo artístico das boas intervenções) e coro. Articularam os versos de Schiller, seleccionados e reordenados pelo compositor, homem político progressista do seu tempo. O “novo som” exorta os povos à unidade, à fraternidade, ao diálogo, à Paz.

Mais lutas houve neste palco. A luta cultural do PCP, na viagem já longa de oferta da Grande Música aos milhares que se apinhavam em redor do palco, generosos nos aplausos de adesão. Sempre com Lopes-Graça vociferando que para trazer à Música os que menos a cotejam é necessário a melhor música e os melhores intérpretes, desiderato temperado pelos meios possíveis para o fazer. A reactivação da tradução legendada e a não desistência de oferta da fruição incomparável do silêncio como elo de ligação entre andamentos e moldura das obras serão os obstáculos mais acessíveis. Mas o mais exigente e desafiante no dia-a-dia do PCP é a afirmação infatigável do caminho para “o novo som, a nova música”.

Houve vontade de evocar Luís Represas em dois arranjos de Feiticeira e Timor com magníficos solos de trompa.

Em 2026 o PCP substituiu a contralto Carolina Unger que em 1824, no final da estreia da “Nona”, virou Beethoven para o público para que o Mestre visse o seu triunfo. Em 2026, Beethoven agradeceu idêntico gesto ao PCP: viu a obra resgatada para o povo, das mãos de quem a quer amordaçar.