- Nº 2754 (2026/09/10)
Luta. Identidade. Proximidade. Diversidade. Solidariedade. A música no Auditório 1.º de Maio reflectiu estes valores, que estiveram sempre presentes nas várias actuações no palco com nome sinónimo de Luta e Conquistas dos Trabalhadores. “25 de Abril sempre!” no 1.º de Maio.
O som rouco de trouxas de pano (tchabetas) percutidas por mãos de mulheres foi o primeiro com que o Auditório se somou à sonoridade da Festa. As vozes das Batuqueiras da Quinta da Princesa despontariam a seguir, relatando vidas, anunciando desejos, despertando bailares de quem faz da música ferramenta de festa, resistência e luta. No cantar de Irma cruzam-se mil corpos sonoros – da herança africana, da vivência quotidiana, do catálogo das muitas músicas que se cruzam nos caminhos do nosso tempo. A seguir, os The Black Mamba mostraram que continuam a mobilizar muito público fiel ao soul, funk e blues. O ritmo enérgico e carismático da banda não desiludiu. O fecho do dia foi com ritmos africanos. O músico angolano Yuri da Cunha arrastou também uma legião de fãs para este espaço que ficou a transbordar. «O público do Avante! é o melhor que existe em Portugal.»
Foi com Música Popular Brasileira e ritmos latinos que Chico Romelo abriu o dia de sábado, aproveitando o palco para denunciar problemas na Palestina, África e toda a América Latina: a cantiga continua a ser uma arma, aliás bem utilizada no concerto do artista santomense-português Ja YI' Son, que subiu ao palco para, num estilo mais reggae, apontar o dedo aos ataques à Saúde, à Educação, à Habitação...«Eles vêm por tudo.» Mensagem bem acolhida. Estava no sítio certo.
Dando um salto aos EUA, Erica Brown & The Bluegrass Connection mudaram o estilo, mas não o entusiasmo, mesmo para quem suportava altas temperaturas. A voz de Erica Brown e o virtuosismo instrumental ajudou. E muito. O que está bom, pode continuar bom. Foi assim com a actuação de Gabriel Gomes, que trouxe como convidado Rodrigo Leão. A versão escutada da Carvalhesa terá sido o ponto alto para o «público mais maravilhoso» para quem Gabriel Gomes tocou.
Janita Salomé trouxe à Festa a celebração do vinho e o perfume das rosas. Logo à entrada, sob um fundo musical de inspiração árabe, denunciou Netanyahu e Trump. E a seguir, de braço dado com Ana Bacalhau e Maria João, levou-nos música adentro num cantar poderoso que a Festa há muito conhece e quer. António Zambujo é um contador de histórias. Daquelas que, repartidas, soaram naturais nos milhares de vozes que ali se juntaram. «Estou feliz por ter estado tantas vezes na Festa que, como esta, não há» – disse –, e prosseguiu a viagem pelo seu repertório. Cara de Espelho é “música de intervenção”. E assim sendo, apresentou à Festa anomalias várias do universo neoliberal. A bela voz de Antónia Mendes era acompanhada pelas sonoridades instrumentais que excelentes músicos iam tirando de um recheado baú de timbres e idiomas musicais.
«Que nunca se apague la luz de Cuba!», desejou Arnaldo Rodriguez no concerto em que luta e alegria tomaram o território do Auditório. Cuba, presente em cada canto da Atalaia, encontrou nas vozes e no instrumental de Talismán a sua materialização sonora.
A noite terminou com a Rave Avante. No palco vazio, ressoou a voz de Ary dos Santos, homenageado e presente, dando entrada a DJ Nigga Fox e a Violet – três artistas no palco do Auditório sobrepondo texturas sonoras, cores, evocando o trabalho, aqui em palavras, ali em batidas lembrando bigornas.
O domingo abriu com o Coro Lopes-Graça, fazendo regressar as Canções Heróicas, património maior da música de resistência. “Acordai” a abrir, a inevitável Grândola, Vila Morena a terminar e uma homenagem ao maestro José Luís Borges Coelho foram pontos altos. Logo a seguir, não foram 5 minutos de Jazz, até porque Laurent Filipe mereceu mais. O trompetista recordou Miles Davis, assinalando o centenário do músico norte-americano. O 1.º de Maio assistiu depois a mais uma homenagem, desta vez a José Mário Branco, pela voz de JP Simões. Um concerto que quis e conseguiu manter o legado de luta. E até teve a companhia de Maio, Maduro Maio, de José Afonso.
Diana Vilarinho trouxe à Festa um cantar a rasgar caminho, acompanhado de palavras de mexer no mundo, o aplauso do público. E um aviso tomado em coro pelos (muitos) presentes: «quando vos calam a voz, daqui respondemos nós.» Hélder e Pedro Moutinho evocaram poetas do Fado (populares e eruditos – poetas por igual, diria Helder). Um concerto que, no tempo breve de pisar o palco, foi capaz de condensar o tempo largo dos Fados e dos poemas que dizem.
Ficámos a querer mais. E foi então que a voz de Aldina Duarte cantou a primeira palavra do último concerto da Festa: “araucária”, a que Neruda também cantou. «Estou tão feliz por estar aqui», disse a fadista – as palavras, afinal, que havemos de renovar em Setembro de 2027: a felicidade é o lugar da Festa do Avante!.