Novas descobertas sobre a arte e os artistas na sociedade paleolítica do Vale do Côa
A investigação arqueológica no Vale do Côa comprova que arte e sociedade são indissociáveis
«A obra de arte (vive para além da intervenção do artista) torna-se, intencionalmente ou não, um meio de comunicação entre os seres humanos, um valor inseparável da sociedade e do qual a sociedade é inseparável.»
Álvaro Cunhal, A arte, o artista e a sociedade, p. 202
Trabalhos arqueológicos recentes, realizados durante o final de Junho junto à rocha 9 do Fariseu, localizada na margem esquerda do rio Côa, vieram colocar à vista um conjunto de novas gravuras paleolíticas onde se incluem, entre outros, um auroque macho e uma fêmea deste antepassado selvagem do boi doméstico, acompanhada pelo seu bezerro.
O Vale do Côa é o maior conjunto de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo. A arte do Paleolítico Superior (entre 36 mil e 12 mil anos antes do presente) é a primeira arte da Humanidade, que, até à descoberta do Côa nos inícios da década de 1990, se restringia ao interior de grutas, sobretudo na zona franco-cantábrica, mas também em Portugal, na Gruta do Escoural.
Os trabalhos de investigação científica realizados na região têm permitido conhecer este notável conjunto artístico, mas também o contexto social de produção desta arte, nomeadamente os sítios onde estes artistas se aqueceram, desmancharam os animais caçados, produziram ferramentas e pernoitaram, mas também as relações que mantinham com outros grupos de caçadores-recolectores do Litoral e Centro na Península Ibérica.
Antes dos trabalhos iniciados em 2022, a rocha 9 do Fariseu mostrava apenas uma linha gravada. As escavações arqueológicas vieram demonstrar que essa linha correspondia ao dorso de um auroque macho, que se encontrava soterrado, com cerca de 3,5 metros de comprimento, o que constitui a maior gravura paleolítica conhecida. Para além dele, o painel descoberto apresenta cerca de quatro dezenas de figuras, sobretudo fêmeas de auroques, algumas delas acompanhadas por bezerros, um tema raro na arte paleolítica. No final dos trabalhos deixou-se um testemunho arqueológico por escavar, que estabelecia a relação entre as camadas estratigráficas e o painel gravado.
Este testemunho, de importância científica e pedagógica, foi, contudo, sendo destruído pelas cheias do rio Côa, causadas pela manutenção da ensecadeira da barragem abandonada em 1996. Esta estrutura obsoleta corta o curso do rio, estrangulando o seu caudal e provocando frequentes cheias artificiais, que ameaçam a conservação da arte.
Em risco de ser destruído, este importante documento arqueológico foi agora escavado e documentado, tendo permitido completar o conhecimento das representações gravadas no painel há cerca de 23 mil anos.
Já depois destas escavações, a investigação tem vindo a prosseguir com o registo dos inúmeros painéis gravados no núcleo da Ribeira de Piscos, imediatamente a sul do Fariseu. Através de decalque directo, fotografia e fotogrametria, tem-se vindo a documentar a arte, não só do Paleolítico Superior, mas também da Idade do Ferro (c. 500 antes da nossa Era, até à chegada das tropas romanas), já no contexto de uma sociedade fortemente hierarquizada dominada por elites guerreiras e de momentos ainda mais recentes, com as gravuras de pastores e moleiros. A continuidade destes trabalhos contribuirá para uma melhor compreensão da evolução da arte do rupestre do Côa ao longo dos tempos, integrando-a nos respectivos contextos sociais em que foi produzida.
A investigação arqueológica no Vale do Côa que decorre há mais de 30 anos vem comprovar a indissociabilidade entre arte e sociedade: a arte não pode ser separada da sociedade em que é produzida e sobre a qual intervém necessariamente. Como arqueólogos, valorizamos esta perspectiva, pois ela abre-nos uma das únicas vias de acesso ao conhecimento da estrutura ideológica de sociedades sem escrita, que nos deixaram vestígios exclusivamente materiais.
Como comunistas, ela afirma que a arte intervém também sobre a sociedade, sendo assim uma das vias para a sua transformação. Também como comunistas, continuamos a lutar por condições dignas para o trabalho de investigação científica, pela garantia da preservação da arte, nomeadamente através da remoção da ensecadeira do Côa, e pela concretização do adiado “Programa Especial do Parque Arqueológico do Vale do Côa”, que garanta a preservação patrimonial e o desenvolvimento da região onde se insere.




