- Nº 2750 (2026/08/13)
Cara de Espelho regressam à Festa com novo disco

«A tradição, para nós, será sempre um ponto de partida para algo novo»

Festa do Avante!

Difíceis de definir do ponto de vista musical, os Cara de Espelho voltam à Festa com um novo disco e com a mesma fusão entre tradição e modernidade e um olhar permanente para o mundo que os (e nos) rodeia. «Vai ser uma bela festa», garantem.

No álbum “B”, voltam a cruzar tradição portuguesa com letras frontalmente críticas. Como trabalham o equilíbrio entre invenção formal e intervenção?

O equilíbrio é feito de uma forma muito natural. Tentamos ao máximo preservar e respeitar a mensagem, mas, ao mesmo tempo, preservar a linguagem da banda. A intervenção é algo que nos é intrínseco, faz parte da nossa “genética” musical e não só. A reinvenção da tradição também é algo que nos motiva a continuar, pois é assim que temos encontrado os nossos caminhos e acreditamos que ainda há muitos outros caminhos na tradição para evoluirmos.

Títulos como “D de Denúncia”, “Cara Podre”, “Elefante no Hemiciclo” ou “O Que Esta Gente Quer” mostram uma observação política directa, às vezes brutal. O que é que sentem que vos pede franqueza neste momento do País?

O discurso político está tão básico, que, por vezes, a resposta mais óbvia parece ser a mais directa, mais crua também. Sentimos que a resposta ao que nos rodeia passa também por esse discurso mais directo, sem grandes rodeios. Em Cara de Espelho tentamos reagir ao que se passa à nossa volta, sem muitos filtros. No momento em que as canções foram feitas, era esse o discurso que sentíamos que era o mais óbvio. O discurso vai-se adaptando ao momento. É a nossa forma de fazer a “digestão” do que se passa à nossa volta.

A reinterpretação de algumas componentes de tradição pode ser também uma forma de disputar a cultura a leituras conservadoras ou folclorizantes?

É uma boa pergunta, pois ao longo do tempo, em algumas ocasiões foi isso que sucedeu. Mas nós, mais do que tudo, vemos as expressões da tradição como expressões de liberdade. A tradição, para nós, será sempre um ponto de partida e de liberdade para algo novo, uma espécie de “plasticina” maleável para a reinvenção da música portuguesa. A tradição é apenas um dos ingredientes da nossa música, mas há muitos mais.

Depois da digressão longa, dos prémios e do acolhimento ao disco de estreia, de que modo o novo álbum vos permitiu arriscar mais?

Nunca tivemos balizas para a nossa música. Temos feito o que queremos e sempre fizemos o que queríamos com as nossas outras bandas. Cara de Espelho é a nossa proposta de liberdade. E como qualquer proposta artística e musical, nos dias que correm, é uma proposta arriscada, mas temos muito gosto em assumir e lutar por esse risco.

Na Atalaia, que importância terá o material de “B” e que lugar reservarão às canções do primeiro disco?

O “B” traz um novo conjunto de canções que ajuda a caracterizar o que é Cara de Espelho. Na Atalaia, apresentamos uma mistura destes dois álbuns. É um concerto que tem vindo a crescer ao longo do tempo. Será um prazer voltar à Atalaia com estas novas canções. Vai ser uma bela festa!