Águas Turvas

Jorge Cordeiro

Não fossem as questões da soberania e defesa nacionais – nos termos em que a Constituição as afirma – matéria séria, e o recente anúncio feito pelo primeiro-ministro de aquisição de três fragatas far-nos-ia regressar ao que Eça e Ortigão retrataram nas suas “Farpas” com mordaz ironia: «todavia a nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento».

É difícil mensurar o que é mais criticável: se a opção subjacente a esta aquisição subordinada não aos interesses de defesa da soberania nacional mas, sim, a estratégias de militarização da União Europeia e da Nato; se a pompa do anúncio adornado de auréola de modernidade com que se pretende iludir anos de abandono de investimento nas Forças Armadas por parte de sucessivos governos.

Com as devidas e assinaláveis diferenças – seja de época, material em presença ou circunstâncias políticas – ainda soará com alguma actualidade o que, nas Farpas, os autores afirmavam sobre a intenção dos governantes de «introduzir nas fileiras destes vasos caducos — alguns navios novos, ágeis, robustos» À época daquela escrita, com «o caso da corveta Hawks» então adquirida aos britânicos, agora com as fragatas de Meloni e de Itália. Admite-se que se por esse tempo «o Governo português — morgado de província ingénuo e generoso — travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks», no tempo presente as opções do governo PSD e CDS são bem mais graves nas suas consequências com o atrelar do País a uma maior inserção externa e a compromissos determinados pelos objectivos da União Europeia – como sem rodeios Montenegro fez questão de assumir – postos no comando das decisões que a Portugal caberia determinar.

Confirmada que estará a desadequação de um investimento de 4 mil milhões de euros a uma concreta necessidade que é preciso preencher (designadamente a da fiscalização da sua extensa área marítima exclusiva), sobrará sempre interpretar os entusiasmos do ministro Melo (cujo partido tem um rasto de experiência naval aquisitiva que o negócio dos submarinos ilustra) que verá na compra um passo decisivo para a sua ambicionada tomada de Olivença, ainda que enfrentando esse pequeno contratempo de adequar o meio às características continentais da praça a conquistar.

 



Mais artigos de: Opinião

É urgente uma política ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País

A acção do Governo PSD/CDS-PP, apoiada pela IL e pelo Chega e a conivência “envergonhada” do PS, desenvolve uma aceleração preocupante. A dimensão que a situação dos exames escolares assumiu, com a gravidade e consequências inerentes que lhes estão associadas de instabilidade na vida dos...

Vampiros

Assinala-se hoje 81 anos da bomba atómica sobre Hiroshima, seguida três dias mais tarde pela de Nagasáqui. A ‘democracia’ norte-americana, farol dos ‘valores ocidentais’, marcou o fim da II Guerra Mundial com dois monstruosos crimes que lembram os crimes do nazi-fascismo. Raras vezes terão sido mortos tantos seres...

Os exames e o exame

1. Passados os exames nacionais do 12.º ano, e todo o caos envolvendo correcções e classificações, era útil ir mais longe e lembrar o que eles representam enquanto método de avaliação «injusto, que desvaloriza aprendizagens, promove desigualdades e exclui milhares de jovens do acesso ao Ensino Superior», como bem...

Tapar a especulação com a peneira

Ocultar o escândalo que constituem os lucros que as empresas petrolíferas estão a alcançar à boleia da agressão imperialista ao Irão é como tapar o sol com a peneira. Mas é mesmo isso que o Governo PSD/CDS pretende fazer com o anúncio da criação de uma «Contribuição de Solidariedade Temporária sobre o Sector Petrolífero...

Corjas e tretas do imperialismo

As quadrilhas, mentiras e manipulações do imperialismo são expressão da natureza e perversidade do sistema capitalista face à situação e ao mundo de hoje, são relevantes para intervir e lutar pela mudança necessária, mas não podem ocultar o essencial. E o mais fundamental é uma situação marcada pela crise estrutural do...