Águas Turvas
Não fossem as questões da soberania e defesa nacionais – nos termos em que a Constituição as afirma – matéria séria, e o recente anúncio feito pelo primeiro-ministro de aquisição de três fragatas far-nos-ia regressar ao que Eça e Ortigão retrataram nas suas “Farpas” com mordaz ironia: «todavia a nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento».
É difícil mensurar o que é mais criticável: se a opção subjacente a esta aquisição subordinada não aos interesses de defesa da soberania nacional mas, sim, a estratégias de militarização da União Europeia e da Nato; se a pompa do anúncio adornado de auréola de modernidade com que se pretende iludir anos de abandono de investimento nas Forças Armadas por parte de sucessivos governos.
Com as devidas e assinaláveis diferenças – seja de época, material em presença ou circunstâncias políticas – ainda soará com alguma actualidade o que, nas Farpas, os autores afirmavam sobre a intenção dos governantes de «introduzir nas fileiras destes vasos caducos — alguns navios novos, ágeis, robustos» À época daquela escrita, com «o caso da corveta Hawks» então adquirida aos britânicos, agora com as fragatas de Meloni e de Itália. Admite-se que se por esse tempo «o Governo português — morgado de província ingénuo e generoso — travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks», no tempo presente as opções do governo PSD e CDS são bem mais graves nas suas consequências com o atrelar do País a uma maior inserção externa e a compromissos determinados pelos objectivos da União Europeia – como sem rodeios Montenegro fez questão de assumir – postos no comando das decisões que a Portugal caberia determinar.
Confirmada que estará a desadequação de um investimento de 4 mil milhões de euros a uma concreta necessidade que é preciso preencher (designadamente a da fiscalização da sua extensa área marítima exclusiva), sobrará sempre interpretar os entusiasmos do ministro Melo (cujo partido tem um rasto de experiência naval aquisitiva que o negócio dos submarinos ilustra) que verá na compra um passo decisivo para a sua ambicionada tomada de Olivença, ainda que enfrentando esse pequeno contratempo de adequar o meio às características continentais da praça a conquistar.




