- Nº 2749 (2026/08/6)

Os exames e o exame

Opinião

1. Passados os exames nacionais do 12.º ano, e todo o caos envolvendo correcções e classificações, era útil ir mais longe e lembrar o que eles representam enquanto método de avaliação «injusto, que desvaloriza aprendizagens, promove desigualdades e exclui milhares de jovens do acesso ao Ensino Superior», como bem caracteriza a Juventude Comunista Portuguesa. Não, por mais que alguns insistam, os exames não avaliam todos por igual, desde logo porque são diferentes as condições dos estudantes: quem não consegue pagar explicações ou livros de fichas, frequentou uma escola degradada e sem condições, não teve professor a alguma disciplina ou estuda longe de casa, tendo de fazer duas longas viagens por dia, parte atrás. É ilusório (ou hipócrita) sustentar o contrário.

Longe de serem o “nivelador” de que falam, os exames constituem antes uma autêntica triagem que todos os anos exclui milhares de jovens do prosseguimento dos estudos e do acesso aos mais elevados graus de ensino. Que jovens? Geralmente os das camadas populares, os mesmos que são empurrados para trabalhos precários ou cursos ditos “profissionalizantes” e que, mesmo conseguindo ultrapassar esta barreira, se vêem depois confrontados com a falta de residências universitárias e com as limitações de uma Acção Social Escolar cada vez mais estreita e inacessível… Para além de desprezarem o esforço diário e a avaliação contínua, os exames são instrumento de uma visão elitista da Educação – e é este o seu “pecado original”.

2. O exame nacional de História A, na primeira fase, aventura-se pelo período contemporâneo pós-“Guerra Fria”, a globalização (capitalista, acrescento) e o «modelo político e económico da República Popular da China». Na última questão, precisamente sobre o grande país asiático, dá como verdadeiras várias afirmações, entre as quais a que refere a «disponibilidade de mão de obra abundante, barata e sem direitos laborais». Como frequentemente acontece, quando se vai ao encontro do preconceito esbarra-se de frente com os factos.

Em primeiro lugar, é o próprio Banco Mundial a reconhecer que desde 1978 saíram da situação de pobreza extrema cerca de 800 milhões de chineses, naquele que é porventura o maior movimento de ascensão social da História – e que representou 70% da redução da pobreza verificada no mundo. Mas há mais. Para além dos saltos extraordinários verificados em múltiplos indicadores sociais, da esperança de vida à mortalidade infantil – nos quais a China se encontra hoje nos primeiros lugares (à frente dos EUA, em alguns deles) –, também os salários não têm parado de aumentar: segundo a Organização Internacional do Trabalho, triplicaram entre 2000 e 2010 e continuam a crescer desde então.

3. Se é para isto, já se acabava com os exames.

 

Gustavo Carneiro