- Nº 2749 (2026/08/6)

Haitianos, os novos judeus dos anos 30

Internacional

De um dia para o outro, cerca de 350 mil haitianos com o Estatuto de Protecção Temporária perderam o direito de viver, trabalhar e estudar nos EUA. A revogação do estatuto, já definitivamente confirmada pelos tribunais, desatou um autêntico pogrom racial que exercita e aquece os músculos do fascismo.

De costa a costa, centenas de milhares de trabalhadores imigrantes haitianos perfeitamente integrados, a maioria das quais nos EUA desde 2010, quando um terremoto devastou um país já devastado pelo imperialismo, começaram a receber convocatórias do Departamento de Segurança Interna. Os que se apresentam, recebem uma pulseira electrónica no tornozelo, como os criminosos, e são convidados a saírem do país «voluntariamente». Proibidos de trabalhar, estudar ou exercer quaisquer direitos, a grande maioria destes imigrantes não pode, obviamente, voltar ao Haiti, onde os níveis de violência são tão elevados que não há, sequer, voos para a capital, Port-au-Prince. O objectivo da ameaça de deportação em massa não é, portanto, a deportação em massa, mas a aterrorização em massa: a criação de uma camada de trabalhadores sem direitos, quase-escravizados, legalmente sub-humanos, condenados a vender o seu trabalho a preço de saldo, como um favor de patrões generosos a trabalhadores sem qualquer poder reivindicativo, rebaixando assim os salários de toda a classe trabalhadora.

Das grandes comunidades haitianas, como as dos Estados do Ohio e da Florida, emergem relatos, milhares deles, de famílias inteiras escondidas em caves, de crianças desmatriculadas pelas escolas, de caçadas da polícia migratória a trabalhadores que saem das fábricas, dos campos agrícolas e dos hospitais. Pode soar tudo isto ao desenrolar de um capricho cruel e imbecil de Trump, que há anos se dedica a difamar a comunidade haitiana com os mais absurdos insultos, de que é exemplo a acusação de que os haitianos comem os gatos dos estado-unidenses, mas o ódio ao Haiti tem séculos. Desde a revolução haitiana que o imperialismo, europeu e estado-unidense, faz uma guerra sem quartel contra a nação carinbenha que continua, em 2026, a pagar o preço da rebeldia de 1791. Esse preço tem sido literalmente extraído do Haiti, por militares estrangeiros ou fantoches, na forma dos seus recursos, da dívida externa, mas também da sua classe trabalhadora, ela própria extraída para engrossar a reserva de trabalhadores de um capital sedento de baixos salários.

À semelhaça das experiências fascistas europeias, ao designar um grupo nacional como bode-expiatório a que não se aplicam as regras normais da sociedade, Trump está a criar um perigoso precedente que a seguir se virará contra outros alvos. A sociedade estado-unidense está a ser habituada, ensaiada e exercitada para receber o fascismo.

 

António Santos