- Nº 2747 (2026/07/23)

IA na encruzilhada mundial

Opinião

«Os EUA devem agir rapidamente para conter o crescente progresso tecnológico da China». A citação provém de um painel do Congresso dedicado à inteligência artificial (IA) e competição EUA/China, realizado a semana passada. Na ocasião voltou a soar o alerta que Washington tornou um axioma da confrontação com Pequim: a China é uma «ameaça existencial» e «rival sistémico». Este novo assomo de ansiedade teve como destinatário concreto a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC) que teve lugar estes dias em Xangai.

Intervindo na sessão de abertura, Xi Jinping comparou o significado da IA à invenção da máquina a vapor e da electricidade e advertiu contra a emergência de «novas injustiças históricas», fruto da segregação tecnológica. Face à cortina de ferro e ao muro de sanções, proibições e medidas coercivas em torno da IA e novas tecnologias que o imperialismo procura erguer, a China reafirmou o modelo de IA de código aberto e a importância da partilha e cooperação tecnológicas, em especial com os países do Sul Global. Pequim propõe, nesta via, definir os parâmetros internacionais de governação tecnológica e regulação da IA. Do conclave de Xangai saiu a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), com 29 países fundadores, e a rejeição das barreiras e discriminação tecnológicas. A lista inclui a África do Sul, Brasil, Rússia, Indonésia e Paquistão. Cuba, Venezuela, Bielorrússia e Laos integram também o grupo.

A iniciativa chinesa contrasta com a Pax Silica, constituída pelos EUA no final de 2025 – englobando toda a UE, Japão, Reino Unido e Índia, entre outros. Organização criada para servir os objectivos de domínio monopolista dos EUA nas cadeias globais de semicondutores, minerais críticos e infra-estrutura de IA e centralizar a mobilização fulcral do capital privado, da grande finança e gigantescos fundos especulativos (aliás, a lógica capitalista já criou em torno da IA uma colossal bolha, pronta a rebentar). A extraordinária capacidade demonstrada pela China Popular no desenvolvimento tecnológico de fronteira e da IA assustam as “Big Tech” e o imperialismo. Um “salto quântico” assente numa capacidade industrial sem paralelo. A China é o único país com uma cadeia industrial completa e a sua produção industrial bruta equivale a cerca de 35% do total mundial, superando o total combinado dos nove países que vêm a seguir.

Não é apenas uma disputa pela supremacia tecnológica que está em causa, com todas as suas profundas implicações. Mas um choque de lógicas incompatíveis. O imperialismo decadente encara a IA como um activo das grandes corporações privadas, ao serviço do lucro e da reprodução hegemónica do grande capital, e vector do neocolonialismo e fascização. Xi alertou para a necessidade do controlo humano sobre a IA. De facto, o domínio do capital na era da IA abre um novo limiar da alienação em massa e desumanização. Os lucros privados movem os novos monstros da guerra. Como a Palantir, a principal empresa do Pentágono na integração de software e IA. Desempenhou um papel directo e central no genocídio perpetrado por Israel em Gaza e é uma peça incontornável nas guerras na Ucrânia e Médio Oriente, visando a Rússia e Irão.

Impedir que a estratégia e escalada militaristas do imperialismo levem a um “erro fatal”, é hoje vital para o destino da Humanidade.

 

Luís Carapinha