- Nº 2745 (2026/07/9)Os 250 anos da fundação dos Estados Unidos da América (EUA), assinalados no sábado, 4 de Julho, suscitaram como era de esperar uma imensa atenção mediática: falou-se em “democracia”, “liberdade” e até de uma dita “excepcionalidade americana”, mas o essencial ficou por dizer acerca da principal potência imperialista na actualidade, da sua natureza, das suas contradições e dos riscos que desde há muito representa para a soberania e os direitos dos povos, para a paz e a segurança internacionais.
Por si só, as declarações do Presidente Donald Trump nas comemorações do 4 de Julho – e os desfiles da Frente Patriótica, neonazi, pelas ruas de Washington – constituíam motivo de sobra para concluir acerca do rumo do país que há dias cumpriu dois séculos e meio: falou do “Império da liberdade”, prometeu que a “América” voltaria a ser grande, declarou novamente “guerra ao comunismo”. Na verdade, a administração Trump não representa um qualquer desvio da “democracia norte-americana”, mas uma expressão particularmente violenta e fascizante do imperialismo, num momento histórico em que os EUA se debatem com graves contradições internas e com o seu acelerado declínio relativo a nível internacional.
Pese embora a participação activa das camadas populares, a revolução anticolonial norte-americana e o país que dela emanou, os EUA, têm impressos desde a sua origem vincadas marcas de classe e raciais: a “liberdade” consagrada nos documentos fundadores dos EUA acabou por visar, particularmente, a dos grandes proprietários de terra, industriais e banqueiros. O voto, então censitário, continua hoje fortemente condicionado pelo financiamento privado de campanhas, o poderoso aparelho mediático ou o redesenhar constante dos círculos eleitorais. O mesmo para a “igualdade”, num país marcado pela escravatura, a segregação racial (que permaneceu legal até meados da década de 1960) e desigualdades sociais profundas – das maiores do mundo. O país que alberga fortunas inimagináveis não garante à sua população emprego com direitos ou serviços públicos universais.
O acesso à educação e à saúde, desde logo, tem uma forte marca de classe. Mais de 100 milhões de norte-americanos têm dívidas (algumas bastante elevadas) resultantes de cirurgias e tratamentos, muitos dos quais se vêem por isso forçados a viver na rua. O furacão Katrina em Nova Orleães, em 2005, e a pandemia de COVID19, em 2020-21, revelaram de forma flagrante a fragilidade das estruturas públicas do país mais poderoso do mundo – que continua a aumentar, ano após ano, as suas despesas militares e com elas os lucros e o poderio do complexo militar-industrial.
Se tudo isto se agravou com a administração Trump, que reforçou abertamente a política de favorecimento dos mais ricos, nada começou com ela.
Expansão e agressão
Em 250 anos de história, os EUA viveram apenas cerca de 20 sem se envolverem numa guerra. Exceptuando escaramuças com a Inglaterra já depois da independência e o ataque japonês a Pearl Harbour, que precipitou a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, as restantes guerras em que estiveram envolvidos ocorreram fora do seu território. Recorde-se que logo após a sua proclamação, os EUA não cessaram de alargar o seu território: para Oeste, à custa do genocídio dos nativos norte-americanos (endeusado por Hollywood e enquadrado por doutrinas supremacistas e messiânicas como o “Destino Manifesto”); para Sul, anexando territórios pertencentes ao México; para as Caraíbas e o Indo-Pacífico, ocupando Havai, Porto Rico, Filipinas, Guam e outras ilhas, e participando na imposição à China dos famigerados “tratados desiguais”, impondo pela força o controlo de portos e outros interesses económicos neste país asiático.
Depois de, nos primeiros anos, a independência norte-americana ter inspirado movimentos emancipadores no sul do continente, não durou muito até que os EUA assumissem a sua face imperialista relativamente a esta região. A “Doutrina Monroe”, anunciada em 1823, prometia “apoio” aos novos países libertados do domínio colonial europeu, mas rapidamente se tornou evidente o real significado da sua consigna “A América para os americanos”, ou seja, a América (central e do Sul) para os americanos (do Norte).
Na viragem do século XIX para o século XX, a política do “Big Stick” (“grande bastão” em inglês) impôs pela força o domínio económico e político a todo o continente americano, tratado desde então como um mero “pátio traseiro” da grande potência regional: a intervenção no Panamá para controlo do Canal, a tutela política e militar imposta a Cuba em 1902 e a ocupação da Nicarágua uma década mais tarde exemplificam esta realidade, multiplicada em inúmeras intervenções militares, golpes de Estado e ditaduras sanguinárias.
EUA e as guerras mundiais
Da Primeira Guerra Mundial, na qual entrou em 1917, os EUA saíram como uma das maiores economias do mundo – e com evidentes pretensões imperialistas no plano mundial. O Tratado de Versalhes e os Acordos de Washington (que consubstanciaram a «paz ditada por bandidos» denunciada por Lénine), ditaram o reforço da presença militar norte-americana no Pacífico, ao mesmo tempo que alastrava a sua predominância económica na Europa destruída pelo conflito. Os EUA participaram também na “Cruzada anti-soviética”, tendo sido um dos 14 Estados que invadiu a Rússia após a Revolução de Outubro, procurando derrotar à nascença o primeiro Estado do mundo que apontava à construção do socialismo.
Os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial foram reveladores das profundas contradições que marcaram a sociedade norte-americana: ao mesmo tempo que muitos se alistaram para combater na guerra civil de Espanha, formando o “Batalhão Lincoln” das célebres Brigadas Internacionais, sectores do capital financeiro não escondiam o seu apoio ao nazismo alemão e ao seu programa imperialista, antidemocrático e anticomunista. À semelhança do que, na Europa, faziam as outras potências capitalistas – Inglaterra e França –, a atitude face à Alemanha nazi foi de passividade cúmplice face ao esmagamento da República espanhola, à anexação da Áustria e da Checoslováquia ou à invasão da Polónia. O mesmo que tinham feito, todas essas potências, relativamente à ocupação japonesa da Manchúria e de outros territórios chineses, que vinha ocorrendo desde o início da década de 1930.
Aliás, foi precisamente contra o seu grande concorrente no Pacífico, o Japão, que os EUA entraram na guerra, em finais de 1941, na sequência do ataque à base norte-americana de Pearl Harbour, no Havai. A entrada norte-americana na guerra que se travava na Europa, porém, ocorreria muito mais tarde, já depois de na Frente Leste se terem travado as batalhas decisivas, como Stalinegrado e Kursk, que retiraram definitivamente a iniciativa da guerra aos nazi-fascistas, abrindo caminho à sua derrota – consumada em Maio de 1945, em Berlim, às mãos do Exército Vermelho da União Soviética.
O criminoso lançamento das bombas atómicas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki, a 6 e 9 de Agosto desse ano, inaugurou o terror nuclear como uma afirmação do poder militar dos EUA perante o resto do mundo: para o Japão ficaram as centenas de milhares de mortos e feridos e outras consequências que ainda hoje (80 anos passados!) provoca doenças e morte.
“Guerra Fria” contra a emancipação
Os EUA saíram da Segunda Guerra Mundial como a principal potência imperialista: para além dos derrotados Japão e a Alemanha, também a Inglaterra e a França se encontravam profundamente exauridas pela guerra, e não constituíam já qualquer obstáculo ao predomínio norte-americano.
O Plano Marshall e a NATO foram instrumentos essenciais para assegurar a prevalência dos EUA também sobre os seus aliados (subordinados talvez seja um termo mais apropriado): a reconstrução das economias europeias ocidentais beneficiou os EUA e a NATO – nas palavras do seu primeiro Secretário-Geral, o lorde britânico Hastings Ismay – tinha como propósito garantir a manutenção da presença militar norte-americana no Continente europeu para lá do fim da guerra, e que se mantém até hoje. A inclusão da ditadura fascista portuguesa entre os membros fundadores daquele bloco político-militar mostra quão hipócritas eram (e continuam a ser) os propósitos anunciados para a sua criação e permanente reforço.
Substituindo-se e impondo-se aos velhos e fragilizados impérios coloniais europeus, os EUA lideraram o combate contra o impetuoso movimento emancipador social e nacional que marcou o pós-Segunda Guerra Mundial, combate a que chamaram “Guerra Fria” e que teve expressão interna na denominada “Caça às Bruxas” protagonizada pelo senador McCarthy. Contra a União Soviética, o movimento comunista e revolucionário, os novos países socialistas e os movimentos de libertação nacional, o imperialismo norte-americano usou todas as armas: a guerra, a ingerência, a desestabilização e o bloqueio económico, a propaganda, a tutela militar, a corrida aos armamentos, a chantagem nuclear ou o neocolonialismo.
São deste tempo as agressões contra os povos da Coreia, do Vietname, do Laos e do Camboja (com recurso a bombardeamentos massivos e ao uso intensivo de armas químicas e bacteriológicas); a imensa presença militar no Japão e na Coreia do Sul; os golpes de Estado no Irão, no Congo, no Brasil ou no Chile; os massacres na Indonésia; a “Rede Gládio” na Europa e a “Operação Condor” na América Latina; o apoio ao apartheid na África do Sul e à ocupação sionista da Palestina; a permanente agressão contra Cuba, a invasão de Granada e Panamá, a ingerência na Nicarágua, entre muitos outros exemplos…
Hegemonia a todo o custo
O fim da URSS e do campo socialista europeu desequilibrou as forças em favor do imperialismo: enquadrado pelas teses do “Fim da História” ou do “Século Americano”, o predomínio norte-americano estendeu-se a todo o planeta: a NATO expandiu-se e aproximou-se das fronteiras da Rússia, mais de 700 bases militares colocam tropas dos EUA em praticamente todo o mundo e a guerra generalizou-se (no Líbano, na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, na Somália, na Líbia, na Síria…); a “globalização”, os “tratados de livre comércio” e as instituições económicas internacionais dominadas pelos EUA promoveram o saque das economias nacionais favorecendo o enriquecimento da classe dominante norte-americana.
A resistência dos trabalhadores e dos povos, a afirmação de países – nomeadamente da China – e de organizações multilaterais e as próprias contradições inerentes ao desenvolvimento do capitalismo colocam hoje em causa a hegemonia planetária norte-americana. A “missão” de Trump, como dos seus antecessores, é a de travar e reverter esta tendência de declínio. Seja a que custo for.
Como a História mostra, e os nossos dias confirmam, o imperialismo irá tão longe quanto conseguir e só a resistência dos povos, incluindo a do povo norte-americano, o poderá contrariar e derrotar!