- Nº 2743 (2026/06/25)
A derrota do pacote laboral marcou a última semana mediática. Mas vale a pena puxar a fita atrás e olhar com atenção à forma como o processo decorreu ao longo dos 330 dias que separaram o seu chumbo da apresentação pelo Governo, em Julho do ano passado. Este foi um tema que esteve ausente dos debates televisivos, dos artigos de opinião e que praticamente não teve lugar nos espaços noticiosos nos primeiros 100 dias deste processo. Não que o PCP, o movimento sindical e os trabalhadores tenham recebido com acordo ou resignação a declaração de guerra que este constituiu, a construção da resistência estava em marcha, mas não tinha lugar na comunicação social.
Recorde-se a forma como a cobertura, por exemplo, da Festa do Avante! ignorou o que ali foi dito sobre a proposta do Governo, nomeadamente na intervenção do Secretário-Geral no comício de domingo; ou como a candidatura de António Filipe foi indispensável para não permitir que o tema passasse ao lado dos primeiros meses da batalha eleitoral das presidenciais.
O pacote laboral entrou no espaço mediático pela força da luta dos trabalhadores e pela incansável persistência de quem a animou, dos que não perderam oportunidade para denunciar o conteúdo das propostas que até então ia sendo ocultado. Foram as grandes manifestações, marchas e concentrações, e foram as greves gerais de 11 de Dezembro e 3 de Junho – que nem o esforço militante de comentadores e do ministro da propaganda (com a rábula da greve «inexpressiva» que só teria sido feita por funcionários públicos) conseguiram esconder –, que viraram o tabuleiro mediático. Não que tenha desaparecido o silenciamento dos trabalhadores e das suas lutas, da CGTP-IN ou do PCP, mas quando a realidade se impõe com a força como se impôs ao longo destes meses, o manto de silêncio acaba por sofrer rasgões aqui ou ali.
Esta é uma das lições que se pode retirar do caminho que levou à rejeição do pacote laboral no plano da luta ideológica: não há máquina de propaganda, por mais sofisticada que seja, por mais vídeos virais que produza, por mais entrevistas televisivas que garanta aos que a servem, por mais profissionais do fabrico de consensos que disponha nas televisões, rádios ou jornais que consiga esmagar a força da luta organizada – como não houve maioria de direita, por mais terços de que disponha na Assembleia da República, capaz de impor uma proposta já rejeitada.
Mas o esforço para distorcer tudo isto e pintar a realidade já começou, da ausência de escrutínio jornalístico sobre as propostas do Chega quem iam mais longe do que o Governo no ataque aos trabalhadores, à procura de factos alternativos que expliquem a contradição entre a opinião daquele partido e o seu sentido de voto no Parlamento. Agora não aparecem os “fact check” a verificar o que o Chega propunha para os despedimentos ou o “outsourcing”, mas diz-se que determinou a sua votação pelas sondagens ou pelas redes sociais.
Tudo para esconder que a força institucional pode muito, mas não conseguiu vergar a força da luta organizada dos trabalhadores.