Pensar a desindustrialização com o lápis de Renata Candeias

Renata Candeias é designer, artista plástica e professora do Ensino Secundário. Depois de uma passagem pela Bienal, em 2025, volta este ano à Festa do Avante! com uma exposição em nome próprio de desenhos sobre o que resta hoje do antigo estaleiro da Lisnave, em Almada.

O papel da arte também é o de observar o mundo e questioná-lo

Os primeiros desenhos que compõem esta exposição não foram feitos com o objectivo de serem expostos, pelo menos perante um público tão amplo e diversificado. «Eu estava a desenvolver um projecto artístico para o meu Mestrado em Desenho, que era supostamente sobre desenho de paisagem, mas eu fiz algo diferente e abracei a paisagem industrial», conta a artista.

Renata Candeias, que vive desde pequena em Almada, onde estudou e interveio política e socialmente, tem marcadas memórias da vida que fervilhava daquele estaleiro e de como marcou – e marca – impressivamente o concelho, cujo crescimento foi a dada altura moldado por esta indústria. Os bairros populares, os horários dos transportes, as deslocações pendulares, o movimento cultural e desportivo – tudo isto teve, e em algumas áreas ainda tem, a marca da Lisnave.

Hoje, salienta, «é um espaço que está ao abandono e que faz parte da memória colectiva das pessoas que vivem no concelho de Almada, que é conhecido também por ser o concelho que tem o pórtico da Lisnave, visto hoje quase como uma peça de arte pública». Além do mais, é um espaço que está «novamente a ser ocupado pela natureza». Quando se observa as ruínas do que antes fora indústria, afirmou, «não nos apercebemos dos conflitos – de classe! – que marcaram aqueles espaços».

Os antigos espaços industriais são, assim, uma espécie de “dois em um”: um interessante objecto artístico e um actual tema político, a desindustrialização, que estará em discussão num espaço de conversas – onde a artista estará acompanhada na reflexão por Jéssica Pereira, investigadora sobre o movimento associativo; Joana Pereira, que estuda as lutas dos trabalhadores no final do século XIX e início do século XX; e provavelmente também por um antigo trabalhador da Lisnave.

Apontar ao futuro

Da escola para a Festa foi um salto. Satisfeita com o resultado, e motivada por todas as reflexões que ressaltavam dos seus desenhos, Renata Candeias resolveu concorrer à Bienal da Festa do Avante!, tendo sido aceite. Meses depois, foi-lhe dirigido um convite para que pudesse alargar o número de trabalhos a expor, numa mostra individual na Festa deste ano.

Disto falou-nos Francisco Palma, da Comissão de Artes Plásticas, valorizando o objectivo sempre presente de dar visibilidade a artistas e projectos emergentes. Sobre a exposição em concreto, e os temas que sugere, salienta a importância de «chamar a atenção para a desindustrialização, que deixou o País mais pobre», e destaca o aproveitamento dos espaços pós-industriais para o lazer e a arte e não para aí instalar projectos imobiliários.

Segundo Renata Candeias, o objectivo da sua exposição não é estimular a nostalgia, que «sem projecto de futuro não faz sentido». É, sim, o de fomentar a discussão sobre o futuro destes espaços e sobre o País que queremos e o papel que nele terá a indústria e o sector produtivo. O papel da arte também é o de observar o mundo e questioná-lo, factores essenciais à sua transformação, destaca a artista, que planeia expor também algumas das fotografias que tirou do antigo estaleiro naval quando por lá andou a desenhar e admite poder intervir directamente nas paredes do espaço da Festa, dando maior projecção aos seus trabalhos.

 

As paredes da Festa aos jovens criadores

No espaço das Artes Plásticas estarão patentes mais duas exposições, ambas de alunos de escolas de arte: “Arte e Vanguarda”, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e “Mundo Cão”, da Escola Artística António Arroio. Associada a esta última estará uma oficina de desenho, em que os estudantes estarão disponíveis para desenhar retratos dos visitantes da Festa.

Na primeira delas, foram seleccionadas 25 obras de 15 artistas, com recurso a diversas técnicas e diferentes materiais: do vidro à madeira, do barro ao ferro, do gesso ao papel de seda e aos tecidos. Os temas abordados são muito actuais e, garante Francisco Palma, «comprovam que, ao contrário do que muitas vezes se diz, os jovens não andam distraídos». A defesa do ambiente, as ameaças à liberdade de expressão, a homenagem a quem lutou e luta pela justiça e a dignidade, as utopias, são alguns dos assuntos abordados.

A segunda exposição parte da exibição dos trabalhos da disciplina de Desenho da Escola Artística António Arroio, em Lisboa. É, como o nome indica, «muito crítica», destaca Francisco Palma, chamando a atenção para visões muito originais sobre a guerra, o ambiente, os direitos humanos. Foram seleccionados perto de 130 desenhos – em vários formatos, de A1 a A4 – organizados em 21 núcleos. Ao todo, estão envolvidos cerca de 160 alunos daquela escola de Lisboa, entre os autores dos desenhos e os que ali estarão a desenhar os visitantes da Festa.

A participação de escolas de arte, salienta Francisco Palma, é uma preocupação de sempre do Espaço das Artes da Festa do Avante!, que sempre teve como um dos seus objectivos mostrar o trabalho de artistas que não se encontram abrangidos pelo “mercado da arte”. Aliás, lembrou, um estudo recente revelou que 92 por cento das exposições de artes plásticas em Portugal ocorrem em espaços sem fins lucrativos – associações, fundações, autarquias –, ficando para o “mercado da arte” apenas oito por cento. Apesar disto, é destes últimos que se fala. Quando, há mais de uma década, a Festa do Avante! organizou uma exposição de arte pública, envolveu muitos artistas que hoje já se encontram envolvidos no “mercado da arte”, com agentes, galerias e patrocínios.

Cada um dos três núcleos expositivos terá o seu catálogo, que poderá ser adquirido na banca do espaço das Artes.