- Nº 2740 (2026/06/5)
O Governo usou as vésperas da greve geral para anunciar a criação da chamada Prestação Social Única, esperando desta forma matar dois coelhos com uma só cajadada. Para além de desviar as atenções do pacote laboral e, com isso, ajudar a silenciar a greve, a decisão do Governo transporta consigo todo um programa político de liquidação de direitos e ataque reaccionário às camadas mais desfavorecidas e vulneráveis da população.
Elimina-se de uma vez só 13 prestações sociais, entre elas prestações dirigidas a proteger cidadãos em situação de desemprego, gravidez, viuvez, orfandade, entre outras. O pretexto para esta decisão foi dado pela União Europeia. Aparentemente, há cerca de 500 milhões de euros do PRR que só serão disponibilizados se o País abanar a cauda, ou seja, se reduzir o leque de prestações sociais. Tudo isto é absolutamente repugnante e revelador da natureza de classe da UE. Para os iludidos com a “Europa”, aqui fica mais um exemplo daquilo que verdadeiramente representa esta doentia submissão.
Por incrível que pareça, o pior nem são as medidas em si. É claro que se a Prestação Social Única for por diante, muita gente irá sofrer. Acrescentar-se-á pobreza à já dura vida de milhares de pessoas, sobretudo crianças, tudo isto para desviar umas centenas de milhões de euros da Segurança Social para as isenções de TSU e layoffs que se multiplicam por aí e de que o patronato tanto gosta. O pior foi o embrulho reaccionário que Luís Montenegro usou. Criando a ideia de que cada beneficiário é um potencial criminoso que quer enganar o Estado, para a seguir anunciar a obrigatoriedade de impor trabalho de borla – chamam-lhe trabalho social – para quem beneficiar destas prestações, tal como a criação de um balcão de delação, para que os pobres vigiem e denunciem os remediados.
Perante isto houve quem viesse dizer que é o Governo a tomar as bandeiras do Chega, o que é falso. Ambos defendem e são instrumento dos mesmos interesses de classe. Ambos precisam de dividir para reinar, ou para explorar, se quisermos ser mais claros. Ambos procuram inculcar a ideia de que a raiz das dificuldades e das injustiças, não está na exploração capitalista, mas nos moradores do “bairro social”. E se dúvidas existissem sobre esta profunda sintonia, elas ficam desfeitas quando ouvimos semana sim, semana sim, Passos Coelho a falar!