Roteiro para lembrar a solidariedade transmontana

O PCP promoveu no sábado, 23, um roteiro histórico assinalando os 90 anos da Guerra Civil de Espanha, organizado pelas Direcções das Organizações Regionais de Vila Real e de Bragança, que passou pelos concelhos de Vinhais e Chaves.

Sem o apoio do nazi-fascismo e a conivência das “democracias liberais”, o fascismo espanhol não teria triunfado

A iniciativa, que contou com a presença dos resistentes antifascistas Domingos Abrantes e Conceição Matos, teve como objectivo lembrar a solidariedade do povo transmontano para com o povo espanhol na sua resistência. A viagem principiou na aldeia de Sernande, em Vinhais, antes de seguir para Vilarelho e Cambedo da Raia, em Chaves.

São quase dez da manhã, para chegar a Sernande o caminho é sempre demorado, seja qual for o ponto de partida. O isolamento desta pequena aldeia não pode (ou não deveria) implicar o apagamento do contributo histórico da sua população para a resistência do povo galego. Em 1941, as forças fascistas assassinaram Manuel Pires, natural de Sernande, devido ao auxílio por este prestado aos guerrilheiros galegos. Seis anos depois, as polícias fascistas dos dois países cercaram a aldeia e mataram Alfredo Domínguez, guerrilheiro galego. Aqui, os comunistas afixaram uma placa provisória em homenagem a Manuel, lado a lado com a placa com o nome de Alfredo. Tal como Domingos Abrantes referiu, a luta pela memória destes corajosos fazedores da História é uma batalha pelos “anónimos da História”, lembrando que «sem o povo, os heróis não existiam».

Em 2021, Sernande foi notícia devido ao facto de apenas contabilizar um morador permanente nos Censos. Hoje são três e, quis a poesia da História, que uma dessas pessoas fosse exactamente a filha de Manuel Pires, que estava a meses de nascer no dia do assassinato do pai. Também por ela se faz este indispensável exercício de memória.

Memórias vivas

Ruma-se a Vilarelho da Raia, uma hora de viagem, parte dela feita por Espanha. Aqui, onde se vão montando os preparativos para o almoço no Centro Social da aldeia, também as raízes internacionalistas do PCP têm expressões históricas bem límpidas. Nesta aldeia, onde o fascismo matou outro jovem português, existe ainda a casa onde Álvaro Cunhal se refugiou e iniciou a viagem à URSS, com o objectivo de reatar o contacto com o Movimento Comunista Internacional no pós-Segunda Guerra. Esta viagem foi retratada num curto vídeo mostrado no final do almoço. Numa autêntica aula de História, carinhosamente preparada por alguém que a conhece e forjou, Domingos Abrantes destacou a «inovação criativa das massas», expressa nos movimentos que permitiam aos resistentes antifascistas espanhóis esconderem-se em território português, e vice versa, nomeadamente nas aldeias raianas.

Lembrou ainda o “serviço de fronteiras” desenvolvido pelo Partido, assim como o crucial apoio dado aos camaradas do PCE para que pudessem retomar a vida clandestina após o fim da guerra. «As nossas terras estão empapadas com o sangue dos dois povos» e talvez seja por isso que é natural que não se queira falar da Guerra de Espanha. Como o destacado militante comunista referiu, «este não é um problema do passado, mas sim do presente», é «falar dos crimes do fascismo» e da inevitabilidade que é o confronto entre classes na determinação dos acontecimentos na História.

Houve ainda tempo para um desfile pelas ruas da aldeia. A emoção dos camaradas mais velhos e a surpresa dos locais com o impacto de dezenas de bandeiras rubras erguidas perante a chuva que se intensificava dificilmente se traduziriam em palavras. Portanto, deixa-se apenas o reparo para o momento da passagem da fronteira – ali, naquele momento, não foram só meia dúzia de passos, foi uma história interligada, dois povos irmãos numa luta partilhada.

Lágrimas e sorrisos

Por fim, outra emotiva paragem, Cambedo da Raia. Na rua central desta aldeia de Chaves, lembrou-se os 56 presos em Dezembro de 1946. Nesta aldeia, é impossível passar ao lado daquela que foi a mais violenta acção contra os antifascistas – um cerco feito por mais de 1000 militares dos dois lados da fronteira, com metralhadoras e canhões a destruírem casas que durante décadas não se pôde reerguer, para servir de exemplo. Uma das presas viu o seu bebé de 18 meses morrer no seu colo, viveu sem saber onde este fora enterrado: é a barbárie no seu estado mais puro.

Volvidas nove décadas, hoje compreendemos que sem o apoio e conivência do fascismo português e italiano, do nazismo alemão e das chamadas “democracias liberais”, muito dificilmente o fascismo espanhol teria triunfado. Esta guerra foi, tal como Salazar apontou, uma guerra internacional disputada em território nacional. As forças do retrocesso tiveram uma importante vitória, mas que não apaga (aliás, engrandece) o esforço e dedicação de todos os que a ela se opuseram.

Num momento onde se aclararam lados e disputou o futuro, o PCP desempenhou um papel de imensurável peso. Lembrar os mártires e enaltecer a bravura de um povo são condições indispensáveis numa eterna disputa pelo futuro da Humanidade.

Antes do momento musical que encerrou um dia temperado com lágrimas e sorrisos, Domingos Abrantes exclamou: «a conquista da liberdade passou por aqui!» Passou, e passará, resta continuar a fazer por isso.

 



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