Contrastes do capital

Já estamos habituados a que os acontecimentos mais diversos, no País e no mundo, sejam recurso no inesgotável arsenal de instrumentos de ataque ao PCP. Vai das referências mais subtis e, eventualmente inadvertidas, como a de Sandra Felgueiras, no Jornal Nacional da TVI, falando no “regime comunista” russo a (des)propósito da participação de Israel no Festival da Eurovisão, a artigos ostensivamente anticomunistas como o de Henrique Raposo na última edição do Expresso.

Por higiene e economia de espaço, pode ser resumido à velha propaganda que pretende equivaler comunismo e fascismo, no caso concreto, o PCP e o Chega. O jornal não se ficou por dar página inteira ao artigo (e não há memória de um paralelo para um artigo de opinião de alguém do PCP) e acrescentou-lhe uma fotomontagem (obra do próprio Expresso) colocando lado a lado e em espelho Álvaro Cunhal e André Ventura.

Este último episódio encaixa num padrão de tratamento mediático contrastante, um duplo critério que pretende limpar o Chega da mentira e oportunismo em que sustenta a sua intervenção, especialmente visível em torno do pacote laboral. Um partido que (como habitualmente) se entusiasmou com uma declaração de guerra, desta feita aos trabalhadores. Que, anos depois do esplendoroso falhanço em lançar a sua anunciada “federação sindical”, foi mais longe que o próprio Governo no ataque ao movimento sindical, no anúncio da greve geral de 11 de Dezembro. Que, face à inegável expressão massiva que esta teve, escondeu a sua posição para mudar de discurso. Que anda há meses a pedir ao Governo para levar a proposta ao Parlamento rapidamente e em força para que lá terminem o cozinhado e a aprovem. Que de manhã anuncia como condição para a aprovar a descida da idade da reforma (depois de ter chumbado a proposta do PCP nesse sentido), para a tarde voltar a mudar a agulha e explicar que é só uma ideia a discutir. E enquanto tudo isto se passa, os seus deputados continuam a ter lugar cativo nos debates televisivos sobre o tema, enquanto nenhum representante da CGTP-IN é convidado para participar.

Sendo apenas um exemplo, aqui está uma diferença do tamanha do mundo entre o PCP e o Chega: a relação com a verdade – esse valor que devia ser caro ao jornalismo, mas cujo escrutínio se eclipsou da máquina mediática.

Nota final sobre alguns dos que, a pretexto de nota enviada às redacções pelo PCP sobre o falecimento de Carlos Brito, aproveitaram para atacar o Partido: sendo livres de discordar do PCP e até concretamente da nota em causa, exige-se a quem ocupa o espaço mediático (e a quem o proporciona) um mínimo apego à verdade e à história; e já agora, se não for pedir demais, evitar o aproveitamento da morte para ajustar contas antigas ou exercitar o seu anticomunismo estrutural. Esperemos que não seja pedir demais.

 



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