- Nº 2737 (2026/05/14)Num jantar com intelectuais, em Lisboa, Paulo Raimundo apelou à participação desta camada social na greve geral contra o pacote laboral, que visa agravar a já brutal precariedade e incerteza que marca a vida destes trabalhadores.
Os trabalhadores intelectuais conhecem todas e cada uma das formas de precariedade que existem, afirmou no dia 8 o Secretário-Geral do PCP, referindo-se aos contratos a termo, aos estágios, às intermitências, aos falsos recibos verdes, às bolsas, ao trabalho à hora, à peça e não declarado, mas também aos horários desregulados e à negação dos direitos de maternidade e paternidade e de outras garantias sociais… As últimas décadas, acrescentou, foram marcadas pela acentuada proletarização desta camada social, crescentemente submetida à exploração capitalista: a mais horas de trabalho por menos salário, a toda a espécie de precariedade e desregulação. «É esta a roda da exploração a arrastar a vida de todos, mesmo dos que pensam que podem passar entre os pingos da chuva.»
Mas se este caminho não serve os trabalhadores e o povo nem o desenvolvimento da Ciência, da Técnica, da Arte e da Cultura, serve a quem? À questão lançada pelo Secretário-Geral do PCP respondeu o próprio, logo em seguida: serve muito e cada vez mais a muito poucos, aos grupos económicos que dominam a vida nacional. O desafio lançado aos trabalhadores intelectuais é que, tal como têm vindo a fazer nos anos mais recentes (e com particular expressão na última greve geral), reforcem a luta dos trabalhadores por salários e direitos, contra a precariedade e o pacote laboral. A greve geral do próximo dia 3 é uma importante jornada de luta, que se constrói desde já e todos os dias nas empresas e locais de trabalho, junto dos companheiros de trabalho, afirmou Paulo Raimundo.
Dirigindo-se aos presentes, e através deles aos investigadores, professores, psicólogos, arquitectos, tradutores, artistas plásticos, designers, engenheiros, músicos, técnicos de som e luz, actores, fotógrafos, juristas, advogados, escritores, jornalistas e outros, o dirigente comunista valorizou o trabalho de todos quantos criam conhecimento, a arte, o saber e também a riqueza, lembrando as condições cada vez mais precárias em que o fazem. A opção que têm perante si é simples: reforçar a unidade e levar a luta mais longe.
Reafirmando que os trabalhadores intelectuais, como todos os demais, têm direito «a uma vida melhor, a uma vida justa», Paulo Raimundo garantiu que esse direito é incompatível com o rumo que tem sido seguido por sucessivos governos, e em particular por este, do PSD/CDS, apoiado nas questões essenciais por Chega e IL e contando com a cumplicidade do PS.
Intensa actividade
Coube a Cristina Cruzeiro, do executivo do Sector Intelectual de Lisboa do PCP, sublinhar a forte participação dos trabalhadores intelectuais na última greve geral, de 11 de Dezembro. Só na região de Lisboa, recordou, traduziu-se «no cancelamento de estreias e espectáculos no Teatro Villaret, no Teatro Nacional D. Maria II, no Teatro Extremo, no Teatro Experimental de Cascais, na Companhia Nacional de Bailado e na Orquestra Sinfónica Portuguesa, na Cinemateca Portuguesa, no Centro Cultural de Belém, no Teatro S. Luiz»; na não transmissão de diversos blocos noticiosos na Antena 1 e em perturbações significativas nas emissões, além da paralisação da Lusa; no encerramento da Escola Superior de Teatro e Cinema e na paralisação parcial de várias instituições de ensino superior; no encerramento da Ordem dos Psicólogos, da Editora Tinta da China, da Companhia Olga Roriz, da Tasca das Artes, do Teatro da Terra, da Casa do Comum, do Museu de Arte Contemporânea do CCB, da BOTA, da Karnart, das empresas de arquitectura Norigem, entre muitos outros espaços ligados ao trabalho intelectual.
Nesta luta, esclareceu a dirigente, o PCP assume um importante papel – na Assembleia da República como junto dos trabalhadores e na rua. Foi o PCP que «recentemente esteve com os bolseiros de investigação e a ABIC, na entrega ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação de um abaixo-assinado com mais de 4000 assinaturas pela revogação do estatuto do bolseiro e a contratação ao abrigo do Estatuto da Carreira de Investigação Científica», mas também com os trabalhadores da Lusa e da RTP, pelas suas justas reivindicações, e do Teatro Nacional D. Maria II, «que por via do sindicato da Função Pública e do CENA-STE, conseguiram que o acordo de empresa fosse retomado após vários anos de intermitência».
Cristina Cruzeiro lembrou as reuniões regulares do PCP com trabalhadores do cinema, da música, da dança e do teatro, dos encontros de tradutores, professores, investigadores, designers, artistas plásticos e outros trabalhadores intelectuais, para com eles discutir e afirmar a sua proposta de Serviço Público de Cultura.