- Nº 2737 (2026/05/14)

Luta é construção: ponte e muralha

Opinião

Eles dizem que a legislação laboral é antiga e que precisa de ser “flexibilizada”, que é a pensar nos jovens deste país. Eles dizem que não vale a pena lutar, que os sindicatos representam poucos, que tens é de tratar de ti e da tua vidinha. Eles aumentam os preços; eles desregulam horários e dizem que o banco de horas é dar a liberdade de escolher quando descansas; eles nem querem ouvir falar em aumentar salários e pensões; eles não param de ganhar com a guerra e com o teu trabalho.

Eles são os grupos económicos e têm mais lucros num dia do que poderás aspirar receber numa vida inteira de trabalho. Eles têm partidos que os defendem e que reproduzem este discurso, o mesmo que ouves na televisão e que domina o algoritmo que te organiza o feed no telemóvel. Com música e batida: isto é entretenimento.

Perante o vento que nos fustiga o rosto, há os que querem encetar o enésimo debate sobre o futuro da “esquerda” que tem de “se reinventar”, desorientados ou à espera de mais uns 15 minutos de fama.

Quando eles avançaram, em Julho passado, com o pacote laboral, julgavam que eram favas contadas, apanhando-nos distraídos no Verão, talvez tivessem condições para o aprovar até ao final de 2025. Julgavam-se omnipotentes, mas não contavam com o “pormenor arreliador” da luta dos trabalhadores. Passaram largos meses e eles ainda não conseguiram levar o seu projecto por diante. E isso é já uma vitória.

O quadro institucional é desfavorável e o ambiente geral, no País e no mundo, não está de feição ao Trabalho e ao progresso. Ter perspectiva e confiança no futuro é já uma expressão de resistência.

E é exactamente, neste Maio de 2026, que vivemos um acentuar do confronto de classe, com uma resposta poderosa da parte dos trabalhadores e das suas organizações de classe. Foi precisamente neste momento histórico, que o Trabalho emergiu com motor central de resistência e por isso de aprofundamento de consciências, mobilização de vontades, construção colectiva, solidária e corajosa. Todo um combate concreto, na base, às ideias e ofensiva dominantes, quando tudo parecia convidar à resignação.

Nós, que vivemos do nosso trabalho, demonstrámos que a nossa história não está escrita. Que a relação de forças num dado momento não é sentença nem revela todas as forças em presença e potenciais. Que essas páginas vindouras, lutas por travar, direitos por conquistar, são também parte do que somos – individual e colectivamente.

Este processo de luta não tem sido um conjunto de momentos de luta a espaços, mas uma fita contínua, que emerge de locais de trabalho, onde avançam cadernos reivindicativos, conquistas salariais, acções contra propostas patronais que não impedem que o poder de compra se esboroe na próxima botija de gás; manifestações em Novembro, Janeiro e Abril, a greve geral de dia 11 de Dezembro.

Nessa fita do tempo, despertaram-se muitas consciências sobre o que estava em causa, nesse dia 11 de Dezembro expressou-se organização em locais de trabalho como não havia memória, com piquetes pela primeira vez, em muitos locais, com gente nova que sabíamos disponível.

Num fluxo de força que juntou assistentes administrativos, metalúrgicos, médicos, investigadores, operários têxteis, electricistas, assistentes de sala, cantoneiros, operadores de call center e de caixa, numa comunhão de dignidade, emancipação e direitos – na luta laboral, na luta de classes: essa que diziam já não existir. Mas é também na vitalidade deste confronto que se afere da actualidade e reconhecimento da esquerda e dos seus valores, com o Trabalho no centro. A esquerda não é uma abstracção.

Vivemos um momento que demonstrou uma elevada capacidade de organização, resistência e resposta dos trabalhadores no confronto com o capital. Neste confronto, desaguaram trabalhadores com opções eleitorais muito diversas, contraditórias até, com quem vamos contar, com quem vamos lutar, lado a lado.

Ainda não sabemos, como vai acabar o pacote laboral, mas sabemos de forma mais nítida que qualquer desfecho será também determinado por nós, e que está mesmo ao alcance dos trabalhadores deste país derrotarem este pacote: como um todo, e cada uma das medidas que contém. Sempre que nos disserem que é inútil lutar, organizarmo-nos, resistirmos e erguer coragem, saberemos que nos mentem.

A luta é construção das mãos e inteligência dos trabalhadores e do povo, é muralha de resistência aos ataques de que somos alvo, é perspectiva porque é ponte para o futuro desejado a que temos direito. À greve geral!

 

Carina Castro