- Nº 2737 (2026/05/14)
Em Setembro de 2025, na convenção autárquica do PS realizada em Coimbra, José Luís Carneiro afirmou que os candidatos do PS «nunca se colocarão do lado daqueles que querem atacar a democracia e o Estado de direito democrático». Dias antes, numa entrevista, sublinhava: «candidatos nossos que estabeleçam acordos com eleitos do Chega perderão a confiança política do PS.»
Nas últimas eleições autárquicas, a CDU venceu as eleições para a freguesia de Ferreira do Alentejo com maioria relativa. CDU e PS elegeram o mesmo número de membros para a Assembleia de Freguesia, quatro, e o Chega um, por escassas dezenas de votos. Na instalação dos órgãos da freguesia, os eleitos da CDU apresentaram a seguinte proposta: para a Junta de Freguesia, para além da presidente (por Lei o candidato da força mais votada), o tesoureiro seria indicado pelo PS e o secretário pela CDU. Para a Mesa da Assembleia de Freguesia, o PS indicaria dois dos três membros da Mesa, incluindo o presidente da Assembleia de Freguesia.
O PS rejeitou a proposta, e apresentou a seguinte: a CDU teria apenas a presidência da Junta, o PS indicaria o secretário e, pasme-se, o Chega seria o tesoureiro! Ou seja, pela mão do PS, o Chega duplicaria o número de eleitos, passaria a ser responsável pelas finanças da Junta de Freguesia e a CDU ficaria amarrada a um executivo cozinhado entre estes dois partidos. Durante seis meses a CDU insistiu no diálogo, tendo como única condição não aceitar integrar um executivo com o Chega. O PS insistiu no bloqueio e na obstinação de levar o Chega ao colo para a Junta.
Recentemente, a CDU fez aquilo que o PS não teve coragem de fazer: devolveu a palavra ao povo. Todos os seus eleitos e candidatos renunciaram, abrindo caminho a eleições intercalares. Até hoje nem a Federação de Beja do PS nem a sua Direcção Nacional emitiram uma única palavra sobre esta situação. Curiosamente, ou não, na mesma semana o PS aplaudiu na Assembleia da República o presidente do Parlamento ucraniano que persegue e mantém ilegalizadas várias forças democráticas e de esquerda, incluindo da “família política” do PS. O questionamento é óbvio: quais são afinal as “linhas vermelhas” do PS? Têm a ver com um real combate à extrema-direita ou são apenas palavras ocas? O que move afinal o PS? Princípios democráticos ou sede de poder, calculismo político e anticomunismo?