- Nº 2737 (2026/05/14)
A submissão de Portugal aos EUA (talvez “lambebotismo” seja termo mais apropriado) é conhecida em todo o mundo e foi reconhecida há dias pelo Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, ele próprio um serviçal do imperialismo norte-americano. Foi Rutte que há tempos chamou “papá” a Donald Trump e confessou que as ameaças de abandonar a NATO então feitas pelo presidente norte-americano não passaram de uma dramatização para conseguir dos restantes Estados-Membros o aumento substancial das despesas militares: «Não foi fácil, mas conseguimos convencê-los», afirmou então, satisfeito, dirigindo-se ao patrão Trump...
Talvez por identificar no Governo português uma mesma natureza invertebrada, Rutte reconheceu a “decepção” da administração norte-americana face à falta de apoio na agressão ao Irão e exaltou as excepções a esta generalizada ingratidão, entre as quais identifica Portugal. Não foi afinal Paulo Rangel que garantiu confiar nos EUA e no cumprimento do “acordo” que, segundo ele, lhes permitiria utilizar a Base das Lajes para agredir um Estado soberano, no caso o Irão? E que repudiou a retaliação iraniana, mas não os ataques norte-americanos e israelitas? O mesmo que em Janeiro vislumbrou “intenções benignas” por detrás da agressão militar à Venezuela e do sequestro do Presidente Nicolas Maduro, quando o próprio Trump falava apenas em petróleo e em «ganhar muito dinheiro»? Foi, não foi? É que podia ter sido Mark Rutte, a sabujice é tanta que uma pessoa até se baralha…
Mas, pensando bem, também podia ter sido Luís Montenegro, o mesmo que não achou importante condenar o assassinato de milhares de iranianos, entre os quais centenas de crianças, sob as bombas dos EUA e de Israel, mas arranjou sempre tempo para criticar a resposta do Irão dirigida contra bases militares norte-americanas no Médio Oriente, de onde partiram muitos dos ataques. Tão preocupado com a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz (excepto se esta for posta em causa pela pirataria norte-americana), o primeiro-ministro nada diz sobre o bloqueio naval imposto pelos EUA a Cuba, que pretende asfixiar todo um povo, nem sobre o cerco genocida à Faixa de Gaza, onde à morte de centenas de milhares de seres humanos e à destruição de quase tudo o que é essencial à vida se somam as severas restrições israelitas à entrada da necessária ajuda humanitária…
Entretanto, foi já anunciada a edição deste ano da Conferência de Lisboa, que reunirá personalidades conhecidas pelo seu servilismo aos EUA – e outros, talvez para enfeitar. A curadoria é de ninguém menos do que José Manuel Durão Barroso, o mordomo das Lajes (na cimeira em que o patrão do momento, George W. Bush, se decidiu a invadir e destruir o Iraque) e seguramente referência maior de Rangel e Montenegro. Une-os um mesmo desrespeito pelos princípios constitucionais – e a mesma ausência de dignidade.