Fim à “Nakba”!

Jorge Cadima

As promessas de criação dum Estado palestiniano foram sempre violadas

No dia 15 de Maio assinala-se a “Nakba”, a Catástrofe do povo palestiniano. A data prende-se com a criação do Estado de Israel, a 14 de Maio de 1948. Desde o início, o Estado de Israel ficou marcado por dois traços indeléveis do sionismo: o desrespeito pelo direito internacional e a violência mais feroz. Se é certo que a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU (29 de Novembro de 1947) previa a partilha da Palestina histórica em dois Estados (um judaico e outro árabe), a verdade é que a proclamação da criação de Israel foi feita de forma unilateral pelos dirigentes israelitas, à revelia da ONU. E foi acompanhada por uma orgia de violência para expulsar os habitantes originários das terras ocupadas pelo novo Estado sionista.

O historiador israelita Ilan Pappe escreve que ao longo de poucos meses «mais de metade da população nativa da Palestina, cerca de 800 000 pessoas, foram expulsas das suas casas». Pappe documenta que esta violência foi propositada e planeada (Plano Dalet), e que «as ordens dadas incluíam uma descrição pormenorizada dos métodos a serem empregues para expulsar a população pela força: intimidação em larga escala; sitiar e bombardear aldeias e centros populacionais; atear fogo a casas, propriedades e bens; expulsões; demolições; e finalmente, colocar explosivos por entre os destroços para impedir o regresso dos habitantes». Houve «dezenas de massacres» e até «o envenenamento das fontes de água de Acre com tifo».

Os 78 anos decorridos desde Maio de 1948 têm sido uma permanente Nakba. A ocupação de territórios internacionalmente reconhecidos como palestinianos, e a violência sistemática e brutal, deram já lugar a um autêntico genocídio. Genocídio que não terminou, apesar dos anunciados “cessar-fogo” e “plano de paz” de Trump. As promessas de criação dum Estado palestiniano foram sempre violadas, apesar de dezenas de resoluções da ONU e acordos internacionais, e não obstante as muitas concessões que o movimento de libertação nacional palestiniano se mostrou disposto a fazer para alcançar um seu Estado independente.

Hoje, os dirigentes israelitas proclamam abertamente o objectivo de expandir o Estado sionista, e não apenas com a ocupação de todo o território histórico da Palestina (do rio até ao mar...). Netanyahu sonha com o ‘Grande Israel’ (Guardian, 13.4.26), que é muitas vezes descrito como do rio (Nilo) até ao rio (Eufrates). No terreno prossegue a ocupação israelita da Palestina; de vastas zonas da Síria; a tentativa de reocupar o sul do Líbano (como Israel já fez, até à sua expulsão pela Resistência libanesa em 2006); e as repetidas guerras contra o Irão, em conjunto com os EUA. Israel confirma-se como agente-mor de guerra, caos e destruição em todo o Médio Oriente e é uma ameaça real para a paz mundial. Mas por toda a parte enfrenta uma resistência que, apesar dos horrores sionistas, continua a fazer-lhe frente.

Israel não é apenas um projecto do movimento sionista. O genocídio e as guerras de Israel só são possíveis graças ao permanente apoio (militar, financeiro, económico e político) do imperialismo norte-americano e, embora de forma mais envergonhada, à conivência das potências imperialistas europeias. A UE, tão pródiga em pacotes de sanções contra a Rússia, recusa-se a sequer suspender o Acordo de Associação que dá a Israel acesso preferencial aos mercados europeus (politico.com, 21.4.26). A História confirma que, quando já era incontornável a descolonização do Médio Oriente, as potências imperialistas projectaram o Estado sionista a fim de manter a sua presença na mais rica região em recursos energéticos do planeta. A ofensiva em curso para perpetuar a hegemonia mundial dos EUA torna ainda mais evidente o papel de Israel como “porta-aviões terrestre” para a recolonização imperialista de todo o Médio Oriente.

É imperioso prosseguir a solidariedade com os povos da Palestina e de todo o Médio Oriente (dias 14 e 15, no Porto e em Lisboa). “Nakba” nunca mais!

 



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