Conversa da treta

Gustavo Carneiro

A conversa repete-se. Perante a convocação, pela CGTP-IN, de uma greve geral para o próximo dia 3 de Junho, voltou a falar-se de tudo menos das justas razões que a motivam.

Uns, que se julgam munidos de argumentos infalíveis, e sempre muito modernos, procuram atacar a greve contrapondo com preocupações sobre a “produtividade”, a “competitividade” e a “conjuntura desfavorável” (como se alguma vez tivesse havido, para esta gente, um bom momento para uma greve geral…). São precisamente os mesmos que nunca se lembraram da “economia”, das “empresas” e do “crescimento” quando milhares de milhões de euros saem do País todos os anos sob a forma de lucros ou dividendos, quando se reduziu as taxas de IRC para o grande capital e se impediu aumentos salariais capazes de fazer face ao aumento dos preços e dinamizar o mercado interno de que depende a esmagadora maioria das tais empresas.

Há ainda quem se confesse “desiludido” pelo facto de não se ter insistido na via negocial, aparentemente tratando cinicamente como pormenor sem importância o facto de a CGTP-IN ter sido reiteradamente afastada das reuniões com o Governo sobre as alterações à legislação laboral. Além disso, é preciso algum descaramento para chamar “negociação” a um processo em que apenas a um dos lados, ainda por cima o mais frágil, se exige que ceda... e continue a ceder.

Outros há que insistem na estafada tese dos sindicatos “antiquados”, “desfasados” da realidade do mundo do trabalho e “pouco representativos”, que para além de carecer de originalidade revela igualmente graves problemas de memória. É que ainda nem há meio ano, a 11 de Dezembro, esses mesmos sindicatos e essa mesma central sindical construíram uma imensa greve geral, que envolveu três milhões de trabalhadores de todos os sectores e com as mais variadas situações contratuais, parando linhas de montagem, serviços públicos e transportes ferroviários, rodoviários, fluviais e aéreos. O impacto da paralisação foi tal que dela se falou em órgãos de comunicação social das mais variadas latitudes.

E lá veio, como sempre, a treta da “prova de vida” da CGTP-IN (e até do PCP), como se tal fosse necessário e como se os trabalhadores se deixassem instrumentalizar e aderissem em massa a uma greve para servir agendas alheias. Talvez os mais distraídos ou menos versados nestas lides desconheçam, mas o mais fácil numa greve é convocá-la: o seu êxito real dependerá sempre da apreensão por parte dos trabalhadores das razões para aderir, da unidade que forem capazes de forjar nos seus locais de trabalho, da coragem que demonstrarem para, juntos, enfrentarem ameaças, pressões, receios e hesitações. Tudo isto exige muita preparação, milhares de contactos, centenas de plenários.

E uma imensa confiança.



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