- Nº 2736 (2026/05/7)
Na actualidade das artes o que provoca maiores êxtases, o que é sublinhado nos noticiários, tanto na comunicação social tradicional como nas redes sociais, são os valores que as obras de arte atingem nos leilões, superando recordes anteriores. A última notícia, a grande última notícia do ano de 2025, era uma obra de Gustav Klimt ter sido vendida num leilão da Sotheby’s em Nova Iorque por 236, 4 milhões de dólares, o que a tornava na obra de arte dos séculos XX e XXI mais cara de sempre, unicamente superada pelo Salvator Mundi de Leonardo da Vinci, vendido em 2017 por 450,3 milhões de dólares.
A tónica é o dinheiro aplicado nas obras de arte, que é uma forma muito eficaz de não falar da arte. São valores formidáveis, que atingem proporções colossais em tempos de capitalismo neoliberal desenfreado, anos depois da burguesia começar a investir em obras de arte como valores de refúgio às flutuações dos mercados, depois de descobrir «que o que é maravilhoso nas obras de arte é que são mercadorias que não se consomem. Cuja utilização as não faz desaparecer (...) A arte é uma moeda que tem uma certa procura de uma oferta limitada, cujo valor aumenta muitas vezes de forma desproporcionada em compração com outros bens e moedas, o que lhe dá uma vantagem suplementar, que aumenta o seu valor»1.
As obras de arte dissociaram-se da vida, das suas condições reais de produção, estão integradas e deixaram-se contaminar pelo mercado que lhes retirou autonomia e função crítica, sujeitando os artistas aos cálculos dos comissários e curadores que são os mediadores dos grandes empresários que se assumem como coleccionadores, a título individual ou motores de fundações, que no estado actual se vão apropriando de quase tudo, tendencialmente de tudo o que antes era responsabilidade social do Estado e que fica sujeito ao único valor reconhecido – o lucro –, seja nas artes, na saúde, na educação, no desporto.
Neste estado de sítio a crítica de arte foi substituída, foi contaminada pelas bulas dos departamentos de comunicação das empresas, dos coleccionadores-empresários, das fundações que garantem uma sólida relação entre o dinheiro e a arte que são a regra do sistema da arte contemporânea, que manipulam os valores de mercado com uma opacidade extraordinária, fabricando narrativas e veículos publicitários que sustentam as especulações das variações de valor que nunca se desvalorizam, em que o kitsch e a moda são dominantes. Promove-se uma transferência simbólica da perdida aura da arte, como Walter Benjamin radiografou2 para a aura fática dos objectos de luxo, do nicho de mercado em que passaram a se inscrever...
Tudo se acelerou quando o segredo bancário foi levantado na Suíça, alguns paraísos fiscais foram escrutinados, o que torna não impossível, mas mais difícil, fazer circular o dinheiro livremente fugindo aos impostos. A aquisição de obras de arte, colocando-as em paraísos fiscais, fechando-as em cofre-fortes no Luxemburgo e Singapura, onde ficam a levedar, a utilização do mecenato para ocultar negócios tornou-se prática corrente.
É o cinismo, a hipocrisia de uma sociedade sem dignidade que infecta as artes e a cultura atirando-as para os pântanos das estéticas-mercadorias, a mais acabada alienação estética, o que torna mais urgente uma frente de luta em que as artes, a cultura e a política, sejam um bem comum, não só interpretem o mundo mas lutem para o transformar tendo por horizonte que «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas.
«O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez», como assertivamente afirmou Manuel Gusmão3.
1Richard Shiff citado em Argent, Katy Siegel e Paul Mattick, Éditions Thames & Hudson, Paris 2004, p. 182.