Apontamento sobre o RASI 2025
75% do aumento da criminalidade está relacionado com a condução sem carta ou sob efeito de álcool
1. Criminalidade geral
Desde 2021 até 2023 a tendência foi de subida gradual da criminalidade, tendo descido em 2024 (-4.6%) e aumentado em 2025 (3.1% ou seja, +10.924 participações). Tendencialmente, tudo aponta para a consolidação dos valores da criminalidade participada à volta das 360 mil participações, com flutuações ligeiras nos últimos anos, que parecem estar ligadas a crimes de “menor” gravidade, por um lado, mas também ao aumento da proactividade policial.
Quanto à tipologia dos crimes, o aumento reside sobretudo nos “crimes contra a vida em sociedade” e nos “crimes previstos em legislação avulsa”, estes últimos tendencialmente com menor gravidade. Só a condução sob efeito de álcool ou sem carta de condução perfaz quase 75% do aumento, aparecendo a burla com peso também relevante.
O furto e roubo apresentam valores tendencialmente estagnados, com maior concentração nas áreas metropolitanas e em Faro e maior incidência no período do Verão e em Dezembro.
Depois ter descido abruptamente a proactividade policial em 2024 (houve quem a associasse a eventuais greves de zelo no início do ano, na sequência de protestos, embora não se comprovasse a relação), há agora uma subida substancial (+ de 10 mil), que a aproxima dos valores de 2023. Os aumentos maiores estão ligados aos crimes rodoviários (20 a 28%) e de desobediência (40%). Tem um aumento relativo muito elevado o auxílio à imigração ilegal (+138%, mas um total de 262 casos) e outros crimes relacionados com imigração ilegal (+353%, 838 casos).
2. Criminalidade violenta e grave
Depois de uma tendência de subida residual, há uma descida igualmente residual (-1.6%). O roubo na via pública continua a ser a modalidade mais participada dentro do espectro do crime grave, ainda que desça (-6.8%), seguido do roubo por esticão (-7.3%). As modalidades com maiores aumentos têm números mais reduzidos, pelo que um aumento relativo dispara mais facilmente (resistência e coacção sobre funcionário tem +247 casos, significando +16%; outras extorsões +88 casos, +13%). A violação aumentou 6% (+35 casos) e a extorsão sexual 6,8% (+ 68 casos).
A criminalidade grave e violenta desce em Lisboa (-3.4%), Faro (-8.5%) e Porto (-8.4%) e sobe mais em Braga, Beja, Vila Real e Leiria (18 a 59 casos, 11 a 18%).
Também a criminalidade grupal e delinquência juvenil apresentam descida residual, à volta dos 1.3%. Sinaliza-se o facto de a delinquência juvenil ocorrer essencialmente durante o período de funcionamento das escolas, de ter grande expressão a partir de plataformas encriptadas e onde é possível o anonimato e de estar tendencialmente associada a contextos familiares desestruturados. Na criminalidade grupal parece ganhar peso o cibercrime, burla e extorsão, bem como o recurso a criminalidade grave. Apresenta-se esta como uma tendência mais global, com expressão em Portugal.
3. Violência doméstica
A violência doméstica desce (-2.2%), subindo a violência doméstica contra menores (+8.6%). As detenções de suspeitos aumentaram 11%. Os indicadores deste crime por região acompanham a tendência geográfica da criminalidade geral.
São referidos 895 elementos da GNR e 428 da PSP direccionados para o trabalho junto de vítimas de violência doméstica, dos quais 178 e 255 em equipas de maior proximidade e investigação.
4. Imigração ilegal, tráfico de pessoas e crimes conexos
O aumento substancial dos crimes associados à imigração ilegal (+251%, +862 casos) parece estar associado ao aumento da investigação nesta área, apontando-se ainda para o aumento da cooperação interinstitucional, com o aumento exponencial de pedidos de informação em acções preventivas e proactivas.
O RASI passa a incorporar mais informação sobre as vítimas destes crimes, referindo que a maioria, de acordo com o que os dados permitem apurar, se destinava a tráfico laboral, sendo predominantemente adultos do sexo masculino, oriundos do Brasil, Índia e Timor-Leste.
5. Crimes Informáticos e outros
Os crimes informáticos continuam em tendência ascendente (+13,4%, +334 casos), com a burla, fraude e acesso ilegítimo a predominar. Regista-se o recurso à IA para o efeito e a ferramentas cada vez mais sofisticadas. Refere-se ainda a ameaça representada pelos ciberataques e a ciberespionagem. Regista-se a tendência global do recurso a meios informáticos para a prossecução de crimes, particularmente o económico-financeiro.
6. Terrorismo e fenómenos radicais
Aponta-se para a monitorização de fenómenos internacionais de potencial risco para segurança interna, nomeadamente extremismo de inspiração religiosa. Referem-se várias tendências dentro do quadro geral do extremismo de direita a nível nacional, havendo uma maior capacidade de atracção junto dos jovens de novos movimentos de extrema-direita com forte presença online e líderes carismáticos que actuam como influencers.
A popularidade destes movimentos traduz-se no aumento e normalização do discurso de ódio e da violência online e fora dos ecrãs, com aproveitamento político de narrativas defensoras da “remigração”.
Refere-se ainda que a extrema-esquerda e o movimento anarquista continuam a ter pouca relevância em termos de criminalidade.
7. Controlo de fronteiras
No controlo de permanência em território nacional, há um aumento muito substancial de actos de fiscalização (quase +10 mil) e de pessoas fiscalizadas (quase +60 mil), identificando-se mais quase 900 pessoas em situação ilegal (praticamente decuplicou o número). Houve mais cerca de 500 interdições de entrada.
As recusas de entrada, geralmente em fronteira aérea, ocorrem geralmente por falta de documentação válida. As notificações para abandono aumentaram brutalmente, sendo a maioria de abandono voluntário (de 444 para 23.134). No entanto, só houve mais 100 processos instaurados (quase o dobro), há menos decisões proferidas e as decisões de arquivamento passam de 36 para 418. Foram afastadas 252 pessoas do território nacional. 1007 cidadãos estrangeiros beneficiaram dos programas de retorno voluntário.
8. População Prisional
Há 13.136 reclusos, mais 776. Destes, 3179 estão em prisão preventiva, 18,1% são estrangeiros e 81,9% portugueses. Mantém-se o padrão nos reclusos estrangeiros da maior predominância de países de língua portuguesa. Surgem depois Roménia e Espanha. Contrariamente a algumas ideias que possam circular, há 39 cidadãos da Índia reclusos em Portugal, 10 do Nepal, 9 do Bangladesh.
9. Forças de segurança
Sobre os efectivos, a GNR consegue ter mais 65 entradas que saídas, ao contrário da PSP que, mesmo com o incumprimento do estatuto e retenção de polícias além dos 55 anos na efectividade de funções, tem apenas 458 entradas face a 895 saídas. Há tendencialmente menos processos instaurados pela IGAI e aparentemente poucos concluídos em 2025.




