De Portugal para Cuba: quanta ternura cabe num contentor?

Gustavo Carneiro

Um contentor com 11 toneladas de material recolhido solidariamente em Portugal, no âmbito da campanha “Por Cuba! Fim ao Bloqueio!”, vai neste momento a caminho da ilha das Caraíbas num navio cargueiro que zarpou de Lisboa, no sábado. Dias antes, duas dezenas de membros da Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC) e outros amigos do povo cubano e da sua Revolução carregaram esse contentor, numa viva expressão de solidariedade internacionalista. A campanha continua.

As 11 toneladas que seguiram neste contentor são as primeiras de muitas mais que se seguirão


Ainda não eram 9 horas da manhã chuvosa de quinta-feira, 19, e eram já muitos os que arregaçavam as mangas para encher o contentor solidário. O ponto de encontro foi numa antiga escola primária do concelho de Palmela, onde se concentrou muito do que se foi recolhendo ao longo de um ano. A equipa de trabalho era muito heterogénea, tanto a nível etário como de experiência profissional. Unia-os o amor a Cuba: muitos tiveram já a oportunidade de visitar a ilha, alguns até por mais de uma vez, e iam partilhando episódios enquanto erguiam caixotes e os passavam ao companheiro do lado; outros nunca lá estiveram, mas habituaram-se a admirar a tenacidade e generosidade do povo cubano e a justeza da sua Revolução. Todos estavam visivelmente emocionados pelo que estavam ali a fazer.

Após uma breve reunião para organizar o trabalho, feita ali mesmo junto ao camião porta-contentores, os activistas dividiram-se pelas várias tarefas: uns separavam os materiais para serem transportados, outros carregavam-nos para o contentor, outros arrumavam-nos lá dentro, havendo ainda quem contabilizasse um por um os volumes, os caixotes e sacos por aquilo que continham: roupa de adulto, roupa de criança, roupa de bebé, produtos de higiene pessoal, fraldas, colchões, material escolar e de escritório, equipamentos clínicos, camas hospitalares, cadeiras de rodas, brinquedos, skates e capacetes, sapatos – mais de três mil pares, de todos os tamanhos e feitios, enviados por uma empresa do norte do País. Foram centenas e centenas de volumes, carregados e arrumados com dedicação e alegria. E tudo foi criteriosamente contabilizado.

Mas aquele foi apenas o culminar de um trabalho árduo iniciado há mais de um ano, quando a Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC) e outras organizações portuguesas lançaram a campanha de solidariedade. Isalina Pereira, vice-presidente da AAPC, contou-nos que durante meses «juntámos equipas de cinco, seis ou sete pessoas e vínhamos separar o material: isto é roupa de adulto, aquilo é de criança, material médico para aqui, produtos de higiene para ali, catalogar, etiquetar...» De facto, tudo estava pronto para ser carregado naquela manhã cinzenta que apenas a solidariedade tornou mais luminosa.

Acção com grande significado

Não foi preciso esperar muito para que ao grupo de activistas se juntasse a equipa da Embaixada de Cuba em Portugal, liderada pelo próprio embaixador José Ramón Saborido Loidi. A cadeia de carregamento que ali se criou, e que permitiu despachar 11 toneladas de material em poucas horas, uniu portugueses e cubanos – irmanados também na luta de todos os dias pela construção de um mundo mais justo e solidário, para a qual contribuiu aquela manhã de dedicado trabalho.

Visivelmente feliz, o embaixador realçou ao Avante! o «grande significado que tem para o nosso país o imenso esforço que está a ser feito pela AAPC, pelas outras organizações que participam nesta campanha e, claro, pelo PCP. Têm trabalhado muito, de forma muito intensa e durante muito tempo e é preciso pensar no esforço que isto acarreta: a convocatória da campanha, a recolha do material, o transporte, o armazenamento e o envio do contentor para Cuba». Tudo isto, valorizou, num momento extremamente difícil para o povo cubano, não só pelo carácter agressivo do governo dos EUA, com o incremento do bloqueio e do estrangulamento contra o nosso país, mas também pelos fenómenos naturais que sofremos e que aumentaram as nossas dificuldades».

Para o diplomata, é de grande importância que se conheça que «os povos são solidários com as causas justas, e Cuba é uma dessas causas justas. Somos uma ilha pequena que defende a sua soberania e a sua independência, face a um inimigo tão poderoso localizado a poucas milhas de distância». Referindo-se ao bloqueio e aos obstáculos que coloca ao desenvolvimento do país, afirmou: «Deixem o povo cubano desenvolver-se em paz, deixem-nos aplicar livremente os nossos ideais, o nosso sistema social justo e demonstraremos efectivamente o que significa ter uma sociedade para o povo e com o povo.»

Cuba não está só!

Este foi apenas o primeiro envio no âmbito da campanha de solidariedade “Por Cuba! Fim ao bloqueio!”. Há ainda muito material por centralizar e enviar, como nos conta a presidente da AAPC, Sandra Pereira: «há muitos materiais espalhados pelo País e que importa recolher o mais rapidamente possível. Como a campanha se prolongará, acreditamos que a solidariedade do povo português não vai abrandar, mais ainda num momento em que o povo cubano é alvo desta política desumana por parte dos EUA. É o momento de retribuirmos ao povo cubano a solidariedade que sempre teve com todos os povos do mundo. É o momento de agradecermos ao povo cubano a sua dignidade, resistência e grandeza perante as atrocidades que os EUA lhe dirigem».

Lançada no início de 2025, a campanha foi subscrita por dezenas de organizações e personalidades. Para além da angariação de fundos, através de donativos ou da venda dos materiais da Campanha, «apelámos à doação de bens materiais concretos como brinquedos, material escolar, medicamentos, material hospital e geriátrico», relata a dirigente, que se confessa surpreendida com a ampla adesão: «desde o comércio local (farmácias, oculistas, mercearias), empresas, sindicatos, figuras públicas e cidadãos anónimos, enfim, muitos amigos de Cuba e do povo cubano quiseram envolver-se.»

Para lá do evidente contributo material, tão importante num período de cerco, com a campanha pretende-se «que o povo cubano saiba que não está só, que o povo português está com ele na defesa da sua soberania, livre de ingerências, e na promoção de relações de amizade e de cooperação».

 

A desumanidade do bloqueio e a força de um povo e da solidariedade

Chegou há dias a Cuba a comitiva europeia da Flotilha “Nuestra America” (Nossa América), na qual participa Raquel Ribeiro, em representação da Associação de Amizade Portugal-Cuba. Esta comitiva, composta por cerca de 120 delegados, de 19 países da Europa e do Mediterrâneo, em representação de associações de solidariedade, sindicatos, partidos políticos, partiu de Milão na terça-feira, 17, com cinco toneladas de medicamentos que, à chegada a Havana, foram distribuídos por hospitais em Cuba.

Ao todo, em Cuba, estão mais de 650 delegados de 33 países, juntando-se aos europeus as comitivas da América Latina e dos próprios EUA. Todos foram recebidos no dia 19, no Palácio das Convenções em Havana, pelo Presidente da República de Cuba, Miguel Diaz-Canel, e outros responsáveis do governo cubano. Miguel Diaz-Canel afirmou que «perante o pior cenário possível, Cuba tem uma certeza: qualquer agressor externo encontrará uma resistência inexpugnável».

Em declarações ao Avante!, prestadas a partir da capital de Cuba, a representante da AAPC contou como a delegação europeia teve a oportunidade de entregar presencialmente algumas das caixas com medicamentos a vários hospitais em Havana, nomeadamente ao Hospital Central Hermanos Ameijeiras, a um hospital oncológico, a um centro materno-infantil e a um hospital pediátrico. «Mas temos estado igualmente em contacto com outros sectores, nomeadamente com visitas a escolas, às empresas de biotecnologia e farmacêutica do grupo Biocubafarma. Pudemos assistir em primeira mão aos esforços dos cientistas cubanos em continuar a desenvolver ciência de topo, e o seu trabalho em vacinas e outros tratamentos para doenças com Alzheimer ou para doenças renais crónicas, e as dificuldades que enfrentam para continuar a trabalhar».

Sobre a situação que se vive no país, confrontado com um bloqueio petrolífero por parte dos EUA, Raquel Ribeiro reconhece que a situação «está muito complicada no terreno. A comitiva não saiu de Havana porque um dos esforços era precisamente não sermos uma carga extra num país que passa por dificuldades tão grandes de aceder a combustível». A representante da AAPC partilhou o relato que lhe foi transmitido por uma médica de Havana, para quem «essencialmente o que estamos a fazer neste momento é medicina de guerra». Quando o Sistema Energético Nacional cai, contou outro médico, fica suspenso o contacto com a protecção civil e os veículos de emergência, o que testemunha o carácter desumano do bloqueio e de como é hipócrita a suposta preocupação dos EUA com a “liberdade” e os “direitos” dos cubanos.

Para lá das dificuldades, a caravana solidária deparou-se com a realidade da firmeza e tenacidade do povo cubano, disposto a defender a sua liberdade e a sua soberania face à agressão do imperialismo. Num encontro com os membros da caravana, o presidente do Instituto Cubanos de Amizade com os Povos (ICAP), Fernando González, um dos Cinco heróis que esteve muitos anos injustamente preso nos EUA, realçou que «vocês são a humanidade feita de solidariedade, que não aceita o bloqueio como destino, que se organiza, se mobiliza», acrescentando que «representam a certeza de que nenhum cerco imperial jamais será capaz de aprisionar a dignidade do povo».