- Nº 2730 (2026/03/26)

«Casa Para Viver» levou milhares às ruas contra crise da habitação

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Milhares de pessoas saíram à rua, no sábado, 21 de Março, em várias cidades do País, numa jornada de luta promovida pela plataforma Casa Para Viver, que reuniu cerca de 90 organizações, para exigir medidas urgentes face à crise da habitação.


As acções decorreram em 16 cidades e localidades, incluindo Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Faro, Aveiro, Viseu, Leiria, Covilhã, Portalegre, Barreiro, Lagos, Funchal, Ponta Delgada, Benavente e Vila Nova de Santo André, com manifestações, concentrações e iniciativas públicas.

A mobilização ocorreu num contexto em que, apesar de o Banco Central Europeu não ter aumentado a taxa de juro de referência, pelo menos até ao Verão, a Euribor continua a subir, agravando o valor das prestações do crédito à habitação. Ao mesmo tempo, aumentam os despejos e agravam-se as dificuldades no acesso a casa.

Entre as principais reivindicações esteve o congelamento das prestações bancárias nos valores de Fevereiro de 2026, bem como a definição de um limite que impeça que os encargos com o crédito à primeira habitação ultrapassem os 35% dos rendimentos das famílias. Os manifestantes defenderam ainda a regulação das rendas em linha com os salários e contratos de arrendamento com duração mínima de 10 anos.

A rejeição de novos despejos foi outra exigência central, sendo defendidas soluções que garantam o direito a uma habitação digna. No plano fiscal, a plataforma criticou os benefícios à especulação imobiliária e defendeu a sua reversão, bem como o reforço da habitação pública através da mobilização de imóveis do Estado e edifícios devolutos.

A jornada de protesto surge também na sequência da carta aberta entregue no dia 16 de Março ao Presidente da República, António José Seguro, onde a plataforma apela ao reconhecimento da crise da habitação como uma «emergência nacional» e ao cumprimento do direito constitucional à habitação.

O documento inclui propostas como a regulação das rendas, o congelamento das prestações do crédito à habitação, contratos de longa duração e o veto a alterações legislativas que facilitem despejos.

Os “ninhos” custam caro na capital

«O pássaro tem ninho. E eu»? A pergunta era colocada por uma manifestante em Lisboa, que a empunhava escrita à mão num cartaz. O tal “ninho” era uma reivindicação comum aos milhares de manifestantes que, naquela tarde de sábado, marcharam entre o Marquês de Pombal e os Restauradores.

A verdade é que, hoje, os arrendamentos nas áreas metropolitanas são «totalmente inacessíveis». Quem o diz é mesmo uma imobiliária, num recente estudo sobre acessibilidade na habitação. Na região de Lisboa, os valores das rendas aumentaram 40 por cento ou mais na maioria dos concelhos, face a um crescimento de apenas 15 por cento nos rendimentos dos habitantes.

Estes e outros valores dos “ninhos” da capital e concelhos próximos foram dos alvos principais das reivindicações dos manifestantes, que exigiam «menos renda e mais salário», sublinhavam que «a cidade é para morar, não é só para trabalhar» e asseguravam que «do bairro à cidade, queremos dignidade».

As muitas palavras-de-ordem acabavam por rimar com as faixas e cartazes – muitos pintados à mão. «Agir já! Casa para todos», «A juventude precisa de casas para todos», «Menos turismo, mais bairro», «Mais habitação pública», «Fim à especulação» e «Taxa de esforço até 30%»… Eram diversas as reivindicações levadas pelos manifestantes.

Quase tantas quantas as organizações presentes, de que se destacam, pelo número de pessoas nos seus “quadrados”, o Porta-a-Porta, o Vida Justa, e, entre os jovens, o Projecto Ruído e a JCP.

E como também de alegria vive a luta, ao longo do percurso, os participantes puderam ouvir os ritmados sons de grupos de percussão como os Porbatuka ou os Ritmos de Resistência. Já nos Restauradores, e após a leitura do apelo da manifestação – acompanhada de fortes palavras-de-ordem exclamadas ao microfone num palco montado no centro da praça –, quem por ali ficou pôde ouvir a música do colectivo Universal Housing, Johnny P. e Da Guida, Cadi MC e Humberto.

Presença solidária dos comunistas

Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, sintetizou o sentimento dos manifestantes: «Estas pessoas estão aqui a exigir uma coisa tão simples, que são casas para viver – e o Governo quer é casas para especular». O dirigente comunista acusou ainda o Executivo PSD/CDS de agravar a crise com medidas que fazem subir os preços e facilitam despejos, defendendo uma mudança de rumo nas políticas públicas. A delegação do Partido era ainda composta por João Dias Coelho, responsável pelas questões da habitação, Bruno Dias, do Comité Central, João Ferreira, também da Comissão Política e vereador na Câmara Municipal de Lisboa (CML), e Ana Jara, vereadora substituta na CML.

 

Porta a Porta acusa o Governo de «pura propaganda»

Dias antes, o Movimento Porta a Porta acusou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, de, no debate quinzenal do passado dia 18, na Assembleia da República (AR) só ter apresentado «pura propaganda» e «velhas políticas» para a habitação, estando «tudo errado, dos despejos à liberalização do mercado e desprotecção de quem precisa de casa para viver, a mais benefícios a quem lucra com isto, sendo este o seu único e verdadeiro objectivo».

O movimento sustenta a sua argumentação com os números do INE e de Bruxelas que «não deixam margem para dúvidas sobre o quanto as políticas deste Governo aceleraram e agravaram a situação que vivemos».

«É preciso travar já estas políticas, é importante reverter o caminho, é essencial que a reforma anunciada não veja a luz do dia» e, no seu lugar, «sejam aplicadas as políticas de habitação que fazem verdadeiramente falta ao País e a quem vive dos rendimentos do seu trabalho», defende o Porta a Porta.