A culpa não é da bala

António Santos

Quando um soldadinho mata o seu semelhante e homólogo, a culpa não é da bala que, uma vez disparada, não pode senão dilacerar carnes e ossos e vísceras. Se uma bala não sabe nem quer, também não podemos culpar a arma que a espoleta, nem a pólvora, nem muito menos as leis da física, que já cá estavam. Até muito recentemente, podíamos discutir que proporção de culpa têm o soldadinho que aponta a arma que dispara a bala, o comandante que a manda apontar, o general que manda em quem manda e os grandes mandadadores que em tudo mandam e que, muito certamente, também saberiam descamar mais uma camada de culpa, para a culpa ser de todos ou não ser de ninguém.

Mas agora cruzamos definitivamente o umbral da derradeira alienação e ninguém manda apontar a arma, que dispara a bala que mata 170 meninas numa escola iraniana: foi um computador. Sim, um inteligentíssimo sistema neural, uma espécie de arma feita de algoritmos integrados e capazes de processar, em poucos segundos, milhões de bases de dados de infinitas naturezas, isto é, sobre tudo o que se pode saber do passado e do presente para calcular o futuro e cruzar toda esta informação com biliões de imagens que olhos humanos não teriam tempo de analisar nem em cem vidas.

Mas quando alguém mata 170 crianças, a culpa tem de ser de alguém. Mesmo que esse alguém se esconda atrás de um sistema de inteligência artificial, como terá acontecido na escola de Minab que os EUA atingiram com um míssil Tomahawk. Nas primeiras horas da agressão imperialista contra o Irão, sistemas de inteligência artificial permitiram tomar milhares de decisões automatizadas sobre o que, como e quando bombardear. Sistemas como o Maven Smart System, da Palantir, não se limitam a identificar alvos, têm a capacidade de agir sem intervenção humana que se torna, de resto, redundante: seriam precisos anos para compreender as decisões da máquina, que assume todas as culpas e produz justificações lógicas, legalmente válidas e suportadas por evidência empírica para as decisões que, sozinha, tomou.

Não é casual que Pete Hegseth, Secretário da Guerra de Trump, tenha desmantelado totalmente os organismos do seu Departamento que obrigavam olhos humanos a olhar e a pensar nas horrorosas consequências das bombas antes delas chegarem às notícias. Acabou com o Gabinete de Resposta e Mitigação de Danos Civis, destruiu o Centro de Excelência de Protecção Civil e despediu especialistas em antecipar baixas civis. Pode assim parecer que os EUA resolveram o enigma de Brecht, quando dizia que “O vosso tanque General, é um carro forte. Derruba uma floresta esmaga cem homens, mas tem um defeito: precisa de um motorista” ou que “o vosso bombardeiro, general, é poderoso. Voa mais depressa que a tempestade e transporta mais carga que um elefante, mas tem um defeito: precisa de um piloto”.

A guerra imperialista precisará de cada vez menos pilotos e motoristas, mas continua exigir quantidades prodigiosas de engenheiros, matemáticos, operários, jornalistas, gestores, cientistas e cozinheiros toda uma classe de gente que, contra os melhores esforços da inteligência artificial, mantém ainda o primordial defeito de Brecht: “o Homem, meu general, é muito útil: sabe voar, e sabe matar. Mas tem um defeito: sabe pensar.”

 



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