- Nº 2728 (2026/03/12)CPPC e MPPM promoveram, dia 5, um participado debate sobre a guerra no Médio Oriente e o necessário reforço da luta pela paz, em que participaram Isabel Camarinha e Carlos Almeida, pelas organizações promotoras, e ainda o major-general Agostinho Costa e o professor Viriato Soromenho-Marques.
O salão da histórica Casa do Alentejo estava de tal modo cheio que Viriato Soromenho-Marques iniciou a sua intervenção destacando precisamente este facto: «é para mim uma experiência relativamente nova ver tanta gente aqui, quando uma das características do que está a acontecer hoje na Europa e no mundo é justamente a passividade cívica.» De facto, as cadeiras dispostas no salão foram poucas para a quantidade de pessoas que compareceu, obrigando a que mais fossem colocadas. E mesmo assim foram muitos os que acompanharam o debate de pé.
Motivado pelo desencadear, dias antes, da agressão dos EUA e de Israel contra o Irão, que ainda perdura, o debate permitiu um esclarecimento mais aprofundado sobre a origem desta e de outras guerras e agressões que marcam o nosso tempo e que têm uma mesma causa: vendo a sua hegemonia ameaçada, o imperialismo norte-americano lançou uma violenta ofensiva contra os direitos dos povos à sua soberania, a disporem dos seus recursos e a decidirem livremente dos seus destinos. Daí terem sido referidas nas várias intervenções as difíceis situações que hoje enfrentam os povos palestiniano, cubano, venezuelano, sarauí, iraniano e tantos outros. E, naturalmente, valorizada a sua resistência.
Com a manifestação nacional pela “paz, soberania e solidariedade, fim às ameaças e agressões dos EUA” marcada para sábado, 14 (ver página 32), dali saiu um apelo à participação e mobilização nesta acção. Como salientou na sua intervenção a presidente da Direcção Nacional do CPPC, Isabel Camarinha, «é mesmo urgente a luta pela paz e, para isso, a nossa acção é fundamental para que a causa da paz saia mais enriquecida e o movimento da paz mais reforçado para enfrentarmos os desafios que temos pela frente com a confiança de que um mundo melhor é possível».
No mesmo sentido, Carlos Almeida, vice-presidente do MPPM, apelou a que, no dia 14, «ocupemos a rua» e «nos manifestemos e continuemos a construir este movimento que é tão necessário. Nunca, talvez, tenhamos conhecido (…) uma situação tão limite que nos obrigue tanto a colocar a paz e a defesa da soberania dos povos, o direito a decidirem dos seus destinos como prioridade fundamental».
Mentiras hegemónicas
Explicando como se chegou à perigosa situação actual, Viriato Soromenho-Marques acusou os EUA de, após o desaparecimento da URSS e do campo socialista europeu, terem pretendido «dançar a valsa sozinhos», ou seja, de exercerem uma hegemonia unipolar que se traduziu em expansionismo e intervencionismo». E lembrou um relatório do Congresso dos EUA, que contabilizou em 251 o número de intervenções militares norte-americanas fora das suas fronteiras entre 1991 e 2022. Para o filósofo e professor universitário, ver chefes de Estado e governantes a falarem com alegria do assassinato de líderes estrangeiros é um sinal de «apodrecimento» da hegemonia norte-americana.
Viriato Soromenho-Marques referiu-se ainda às mentiras com que o imperialismo procurou justificar guerras anteriores, criticando aqueles que, no meio académico (que é o seu), se venderam e difundiram evidentes falsidades: dos “bebés mortos em incubadoras” da primeira Guerra do Golfo (1990-91) às “armas de destruição massiva” do Iraque (2003), do “genocídio dos albaneses no Kosovo” (1999) à “guerra civil” na Líbia (2011), das “armas químicas” da Síria (2011) aos acontecimentos na Praça Maidan, em Kiev (2013-14) – mentiras com que se procurou justificar agressões militares, ameaças, bloqueios, golpes de Estado e ingerências de todo o tipo.
Guerra em duas dimensões
O major-general Agostinho Costa referiu-se às duas dimensões da guerra: a física – com o domínio terrestre, marítimo, aéreo, espacial e ciberespacial, travada sobretudo pelos militares – e a cognitiva. Esta última, garante, trava-se nos estúdios de televisão e de rádio, nas redacções dos jornais, e «o objectivo a conquistar são as nossas mentes, as percepções». E as percepções, notou, podem ter várias expressões, incluindo religiosas. Contudo, precisou, nada apaga a realidade, marcada pela prevalência dos interesses económicos e geo-estratégicos: de todos os poderes, «o único que marcha sozinho é o poder económico, todos os outros dependem do poder económico», sublinhou.
Recordando a doutrina da Destruição Mútua Assegurada, segundo a qual não é possível, com os actuais arsenais, vencer uma guerra nuclear, Agostinho Costa lamentou que haja hoje quem entenda ser essa uma possibilidade: assim se explica que os EUA tenham abandonado vários tratados de controlo armamentista, como o Acordo Anti-Mísseis Balísticos (ABM), o Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF) ou, há dias, o Novo START, relativo a Armas Nucleares Estratégicas. «O que quer dizer que entrámos numa roda livre nuclear», denunciou.
Para Agostinho Costa, com todas estas agressões e ameaças os EUA pretendem adaptar-se a uma realidade nova, «não querendo abdicar da sua hegemonia».
Encontro marcado!
Todos os oradores concordaram na necessidade – na urgência! – de alargar o movimento em defesa da paz, do desarmamento, da solidariedade: no caso, como afirmou Isabel Camarinha, de exigir o fim dos ataques ao Irão, ao Líbano e à Síria; de acabar com o genocídio na Palestina e garantir ao povo palestiniano os seus direitos nacionais; de pôr fim à agressão à Venezuela e a Cuba; de parar com a política de confrontação que levou à guerra na Ucrânia; de canalizar para os salários, as condições de vida e os serviços públicos o que se pretende gastar a engordar a indústria armamentista.
Já Carlos Almeida, mesmo a terminar a sua intervenção – e com ela a sessão –, lembrou que «vamos precisar de toda a nossa força, vamos precisar de toda a nossa energia» para alargar o movimento de opinião pública pela paz e contra a guerra «porque a gravidade do que estamos a viver assim o exige».
O encontro está marcado para sábado, 14, em Lisboa e no Porto!