- Nº 2728 (2026/03/12)«Não há avanço na história destes 105 anos em que os comunistas portugueses não se tenham envolvido», afirmou Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, no comício de aniversário que se realizou, no dia 6, no Fórum Lisboa, onde o enorme auditório se encheu por completo de muitos militantes e amigos.
O dirigente falava já no final do comício, sobre os muitos e diversos contributos dados, em momentos diferentes, pelo Partido e os seus militantes, ao povo português e ao País: «foi assim na resistência heróica e no derrube do fascismo; na Revolução de Abril e cada uma das suas conquistas; é assim hoje, na resistência ao processo contra-revolucionário e na luta que se impõe em defesa dos direitos, liberdades, da soberania nacional e da Paz».
«São 105 anos de luta deste Partido que se confundem com a luta dos trabalhadores, do povo e da juventude. Este Partido, esta força popular, ao serviço do e só do povo, independentemente dos interesses e da ideologia do capital», acrescentou.
Ameaças
São muitas as ameaças que enfrentam os portugueses e todos os outros povos do mundo. Duas das principais, esclareceu Paulo Raimundo, são as do imperialismo e capitalismo, que tornam cada vez mais evidente a sua natureza e se expressam com mais violência. Ao nível nacional, ainda que intocados pela brutalidade da guerra, encontramos um País submisso às ordens de Bruxelas, à NATO e aos EUA, e completamente rendido às mãos dos grupos económicos e multinacionais. Acentua-se a exploração, a injustiça, desigualdade e a concentração da riqueza e crescem as concepções antidemocráticas, racistas e xenófobas.
A responsabilidade de tudo isto, esclareceu o Secretário-Geral, recai sobre os partidos da política de direita: PS, PSD, CDS, IL e Chega. Sobre os que trocaram o poder à vez e os que, mais recentemente, lhe deram respaldo. São as privatizações, as negociatas e chantagens do grande capital, mas também o desmantelamento dos serviços públicos, como o SNS, e as dificuldades no acesso à habitação.
Potencialidades
«As dificuldades são as que são, a maré não corre no nosso sentido, a correlação de forças é desfavorável, os meios do inimigo são fortes e são muitos, há gente desanimada e com medo, temos organizações com debilidades, é tudo isso e muito mais, mas a realidade demonstra que onde conseguimos dar passos, isso se traduz em novas forças», afirmou.
O reforço do Partido, após 105 anos, continua a ser uma tarefa central, salientou, referindo-se à resolução do Comité Central que aponta cinco prioridades para fortalecer o colectivo partidário. «Quantos somos, onde estamos e, acima de tudo, onde precisamos de estar e como lá chegar? Qual a intervenção, qual a iniciativa das organizações, o que fazer para ir mais longe?», inquiriu. «Responder hoje a olhar para os desafios do amanhã» é a questão que está colocada «a todo o Partido» e que precisamos de «responder em andamento», acrescentou.
Antes das intervenções, houve lugar a um momento de leitura de poesia. Edite Queirós e João Pedro Mamede leram versos de Ary dos Santos, Brecht, Neruda, Manuel Gusmão, Maria Velho da Costa e da palestiniana Fadwa Tuqan.
Foi Mafalda Guerreiro, da Direcção da Organização Regional de Lisboa (DORL), quem dirigiu o comício.
«Ousemos recrutar»
Sobre o Partido e recrutamento, entre outros elementos, falou André Arrojado, em nome da DORL. Do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores ou «apenas»do Partido, pois é assim, explicou, que o chamam todos os que se habituaram a «vê-lo nas empresas e locais de trabalho, nos terminais de transporte, nos bairros, escolas, de manhã, à tarde e à noite».
É «prioritário» reforçar a ligação do Partido aos locais de trabalho, com «particular atenção para as células de empresa», pois são estas a «organização de base mais importante do Partido e o elo fundamental na ligação aos trabalhadores».
«Eles que se cuidem. Nós somos o tempo»
Na JCP, aprende-se na prática e na intervenção do dia-a-dia. Assim garantiu Ana Beatriz Santos, da Comissão Regional de Lisboa da JCP, salientando que para muitos jovens, o Partido é a «primeira escola de consciência, de solidariedade e de coragem, acrescentou, sem deixar de mencionar as muitas lutas que se preparam no horizonte da juventude, como o 24 de Março, Dia Nacional do Estudante; as lutas dos estudantes do Ensino Básico, Secundário e Profissional nas suas escolas; e o 28 de Março, Dia Nacional da Juventude Trabalhadora.
Antes de terminar, citando o camarada Manuel Pedro – falecido há pouco tempo –, afirmou confiantemente: «Aos que dizem que parámos no tempo, respondemos que o tempo não pára. Eles que se cuidem. Nós somos o tempo».
Por todo o País
Para além das iniciativas centrais, como o comício de passada sexta-feira, em Lisboa, o comício de amanhã, no Porto, na Escola Secundária Carolina Michaëlis, e do almoço comemorativo do próximo domingo, no Seixal, no Pavilhão da Quinta da Marialva, o 105.º aniversário do Partido está a ser comemorado por todo o País (ver agenda nas páginas 30 e 31).
Na passada segunda-feira, dia 9, realizou-se um almoço na Sede Nacional, em Lisboa, que reuniu muitos militantes e amigos do Partido. No final do mesmo, Ângelo Alves, membro da Comissão Política do Comité Central, salientou que os militantes comunistas aqui continuam: «com coragem, determinação e confiança».
«É com essa determinação e essa ligação que estamos a enfrentar as curvas apertadas da história e as exigências imensas que nos estão colocadas», afirmou o dirigente, sem deixar de elencar as várias condições que problematizam a situação internacional e nacional em que actua o Partido.
O calendário que enfrenta o colectivo partidário é «exigente», admitiu, mas é mesmo «por aí que temos de ir: transformar cada injustiça, cada problema, cada aspiração numa jornada de luta». «Ir mais longe nas pequenas e grandes lutas e dar mais passos, fortalecendo os sindicatos, as organizações populares, o movimento da Paz e o nosso Partido», acrescentou.
Em Braga, no dia 7, foi celebrado o aniversário do Partido num participado jantar que contou com um momento musical por parte de elementos do grupo Cantares da Terra. No momento político intervieram Pedro Fernandes, da JCP, João Sousa, da Comissão Concelhia de Braga, e Margarida Botelho, dos organismos executivos.
No mesmo dia, mas em Vila Real, aos camaradas juntaram-se amigos e simpatizantes do Partido num jantar comemorativo. Neste participou Belmiro Magalhães, da Comissão Política.
Em Sobral de Monte Agraço, no dia 8, um almoço-convívio assinalou o aniversário com a presença de cerca de uma centena de militantes a que se juntaram muitos independentes que colaboram com a CDU. Esteve presente e usou da palavra João Ferreira, vereador na Câmara Municipal de Lisboa e membro da Comissão Política.
Também no estrangeiro, e não só por todo o País, se comemorou o aniversário. Em Boudry, cerca de 50 camaradas da Organização da Emigração na Suíça participaram, no dia 7, num animado jantar, marcado por momentos de alegria e fraternidade. Falaram São Belo, responsável pela organização, e João Oliveira, deputado no Parlamento Europeu e membro da Comissão Política.
As comemorações 105.º aniversário continuarão ao longo do mês de Março.
Um Partido confiável atento ao País e ao Mundo
«Estamos a intervir num momento particularmente exigente da nossa vida colectiva, com o capitalismo a tornar evidente a sua natureza, que se expressa na acção imperialista com toda a sua violência, confrontação, militarismo e guerra, como vemos na Palestina, na Ucrânia, na Venezuela, em Cuba, e também no Irão.
O imperialismo é a maior ameaça aos povos e é expressão da crise estrutural do capitalismo e das dificuldades das suas potências, desde logo dos EUA, em impor o seu domínio e o recurso a todos os meios para garantir a sua hegemonia num mundo onde grandes perigos coabitam com grandes potencialidades.»
«Perante um patronato obcecado em tentar aumentar ainda mais a precariedade e desregular mais os horários de trabalho, afrontar direitos, salários e acção sindical, tentar impor despedimentos sem justa causa, o Governo ao seu serviço quer à força fazer aprovar um pacote laboral que já foi rejeitado pelos trabalhadores e que ainda no dia 28 de Fevereiro, nas ruas de Lisboa, Porto e Funchal, deram mais uma enormíssima resposta nas manifestações convocadas pela CGTP-IN.
Face a um País há muito confrontado com défices estruturais, graves problemas de segurança de infra-estruturas críticas e de soberania, as opções políticas do Governo, apoiadas pelo Chega e IL e viabilizadas pelo PS, estão a atrasar ainda mais o País.
Um País, como ficou evidente nas consequências das recentes tempestades, que tem a rede eléctrica, comunicações e auto-estradas nas mãos de grupos económicos; tem a manutenção das infra-estruturas feita por prestadores de serviços; um País com serviços e estruturas do Estado destruídas ou depauperadas, foi tudo isto que ficou às claras quando o vento levou a máscara.
As populações, os trabalhadores, os pequenos e médios agricultores e empresários, não têm tempo a perder, não precisam de propaganda nem de mais instrumentos para uma política desastrosa (...).»
«Aqui está o vosso Partido, confiável e que não anda ao sabor do vento, que não cede ao medo, à chantagem, à ameaça, à mentira, e que em nenhum momento abandona os trabalhadores, o povo e juventude.
Um Partido ligado à vida, que está lá onde é preciso estar, e não há silenciamento mais ou menos organizado que apague esta realidade.
Podem decretar-nos todas as sentenças, mas um Partido assim dos trabalhadores e ao serviço de todos os trabalhadores, um Partido assim está destinado, isso sim, a crescer, a alargar e a reforçar-se.
Somos o Partido da liberdade, da democracia, da soberania e independências nacionais, o Partido dos valores de Abril.
Somos um Partido assente na história, na cultura e na luta heróica do nosso povo, um Partido patriótico e simultaneamente internacionalista.
Este Partido com projecto e ideal, com luta, experiência e construção próprias, assentes num colectivo partidário com uma dedicação militante que impressiona.
É este o nosso partido, o Partido Comunista Português, o Partido ao qual nos orgulhamos pertencer.»
- excertos da intervenção do Secretário-Geral do PCP no comício de Lisboa