Quando a nossa vida não é prioridade

Joel Moriano

Há percentagens que entram em casa sem pedir licença. As do aumento dos custos com a habitação, seja pelo aumento das prestações ao banco, seja pelos valores das rendas impagáveis, da factura do supermercado, da conta da luz... Os preços aumentam de forma substancial, os salários não acompanham. O custo de vida não pára de aumentar, e com ele a deterioração das condições de vida dos trabalhadores e das suas famílias, os níveis de pobreza, especialmente entre as crianças, teimam em manter-se de forma persistente. A gestão do orçamento familiar torna-se, para a maioria das famílias, um exercício de contenção permanente.

É neste contexto que, quando confrontados com as necessidades dos trabalhadores e das suas famílias, com as dificuldades no acesso à habitação, com o níveis de pobreza e exclusão social a atingirem quase um quarto da população, ouvimos a narrativa de “não se pode dar tudo a todos”, de que “o Estado não é um saco sem fundo”, que é necessária uma gestão prudente das contas públicas e o tão propalado excedente orçamental... Exemplo disso são os argumentos do Governo português e da maioria que o apoia relativamente ao pagamento de 100% dos salários aos trabalhadores em lay-off em consequência das tempestades. Narrativa que pouco difere da que é comummente utilizada em Bruxelas.

Estranho, ou talvez nem tanto, é que essa mesma narrativa não se aplique noutros contextos e opções.

Quando é para transferir recursos públicos para os grandes grupos económicos, seja na saúde, seja para a promoção da chamada “competitividade” já há fundo(s) suficiente no saco do Estado.

Quando é para assumir um compromisso com a NATO e os EUA de investir 5% do PIB na chamada “defesa”, já não há gestão prudente das contas públicas que o impeça.

Quando se decide investir 193 mil milhões de euros para prolongar a guerra que se trava na Ucrânia, ou contrair um empréstimo de 90 mil milhões de euros para promover a sua escalada, que mais tarde ou mais cedo terão de ser pagos, não há excedente orçamental que se ponha por diante.

Ou quando se pretende destinar milhares de milhões de euros para a militarização e multiplicar por 10 os montantes destinados à chamada mobilidade militar no próximo quadro plurianual, à custa da coesão, da agricultura e das pescas.

O que está em discussão, como se vê, não é a falta de dinheiro, porque ele existe, e quando é para o transferir para os grandes grupos económicos ou para o complexo industrial militar, facilmente se reorganiza, em detrimento dos povos, das suas vidas, da coesão económica e social.

O que está em discussão são as prioridades e opções políticas. E, como é bom de ver, os problemas com que os trabalhadores se confrontam, as suas vidas, não são prioridade nem para a União Europeia nem para o Governo português.

Mas cá estaremos para os confrontar com essas opções e apresentar a alternativa.

 



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