- Nº 2726 (2026/02/26)O pacote laboral já foi derrotado pelos trabalhadores – em manifestações e acções de luta, na grande greve geral de 11 de Dezembro e nas mais de 192 mil assinaturas recolhidas com esse objectivo, entregues ao primeiro-ministro a 13 de Janeiro. No próximo sábado, na manifestação nacional que terá lugar no Porto e em Lisboa, será exigido que o Governo retire definitivamente este que seria mais um brutal ataque aos direitos dos trabalhadores e às possibilidades de desenvolvimento justo e equilibrado do País.
Apresentado no final de Julho, quando muitos trabalhadores já gozavam as merecidas férias e outros se preparavam para fazer o mesmo, o pacote laboral (pomposamente designado de “Trabalho XXI”) já deveria ter sido aprovado – pelo menos era esse o plano do Governo: a aprovação estava garantida, com o Chega e a IL a assinarem por baixo o seu conteúdo essencial e os média apostados em não se referir a ele ou, quanto muito, a fazê-lo de um modo tão superficial que não levantasse ondas.
Uma vez mais, foi a resistência e a luta dos trabalhadores – mobilizados sobretudo pelos sindicatos da CGTP-IN e pelo PCP – a estragar os planos ao Governo e aos patrões: à medida que se generalizava o esclarecimento dos trabalhadores e de outras camadas da população quanto ao conteúdo do pacote laboral aumentava a contestação: a 20 de Setembro, em Lisboa e no Porto, milhares de trabalhadores saíram à rua para o rejeitar, o mesmo que fizeram a 8 de Novembro, na grande marcha de Lisboa, de onde saiu a convocação da greve geral para 11 de Dezembro.
A marcação da greve geral mudou tudo: os trabalhadores e os seus direitos estiveram no centro de debate público, generalizando-se por vários sectores a compreensão da gravidade das propostas do Governo e do desequilíbrio que provocaria nas relações laborais, ainda mais a favor do patronato: a 11 de Dezembro, três milhões de trabalhadores construíram uma das maiores greves gerais de sempre em Portugal, cujos ecos percorreram o mundo. A 13 de Janeiro, numa grande manifestação, a CGTP-IN entregou ao Governo mais de 192 mil assinaturas contra o pacote laboral e exigindo a sua retirada total.
Confirmar a derrota e prosseguir a luta
O pacote laboral está definitivamente rejeitado pela generalidade da sociedade portuguesa, mas o Governo insiste na sua aplicação. Na segunda-feira, 23, numa tentativa de o salvar, realizou uma reunião com as confederações patronais e a UGT para simular uma “negociação”. A CGTP-IN, que não foi sequer convidada, reafirmou a sua determinação em derrotar a proposta do Governo e propôs um caminho alternativo, de valorização de salários e direitos (ver caixa).
Na posição enviada, a central sindical constata que os últimos anos têm sido marcados por recuos e fragilização dos direitos dos trabalhadores: em 4,5 milhões de trabalhadores existem já hoje cerca de dois milhões com horários de trabalho desregulados (aos sábados, domingos e feriados, por turnos e durante a noite); 1,3 milhões têm vínculos de trabalho precário, o que faz de Portugal dos países da UE onde o recurso a este tipo de vinculo mais se faz notar; a contratação colectiva está cada vez mais fragilizada e o número de trabalhadores com salários actualizados fruto da sua revisão é reduzido (menos de um em cada cinco), conduzindo à realidade dos baixos salários. Isto, acrescenta, num país onde o custo de vida não pára de aumentar.
Aconteça o que acontecer depois de sábado, o Governo não se livra de ter proposto o pacote laboral e o Chega e a IL de o terem defendido tão entusiasticamente. A luta é certo que continua – contra o pacote laboral, pela valorização dos salários, dos direitos e dos serviços públicos.
É para cair
Aquando da apresentação da proposta do Governo, em Julho, a CGTP-IN, resumiu os 10 objectivos das mais de 100 propostas incluídas no pacote laboral:
1. desregular ainda mais os horários de trabalho;
2. fomentar a precariedade;
3. Atacar gratuitamente os direitos dos trabalhadores;
4. limitar o direito à greve;
5. atacar a liberdade sindical;
6. agravar as normas que determinam a caducidade das convenções colectivas;
7. ampliar a negação da aplicação do tratamento mais favorável ao trabalhador;
8. perpetuar os baixos salários;
9. embaratecer os custos do trabalho;
10. facilitar os despedimentos.
O PCP considerou desde logo o pacote laboral uma «declaração de guerra aos trabalhadores», que representaria, a ir por diante, uma «violenta agressão a direitos fundamentais», e cumpriu o seu papel na denúncia do seu conteúdo e na mobilização dos trabalhadores contra uma «proposta de retrocesso, com cheiro a troika», que não só mantém o que é profundamente negativo como «ainda pretende piorar a vida de quem trabalha», desequilibrando ainda mais a relação de forças a favor do capital.
Eliminar o que prejudica e avançar nos direitos
A CGTP-IN enviou, no dia 18, uma carta ao primeiro-ministro com propostas de alteração à actual legislação laboral num sentido favorável ao reforço dos direitos dos trabalhadores, visando a revogação de normas particularmente gravosas incluídas na actual lei e apontando a novos avanços:
Negociação e contratação colectivas livres de chantagem
revogação do regime da caducidade e sobrevigência da contratação colectiva
consagração em toda a sua plenitude do princípio do tratamento mais favorável ao trabalhador
Assegurar o pleno exercício da democracia, fazer repercutir os avanços da ciência na vida dos trabalhadores e aumentar as condições do direito ao descanso
garantir o direito de livre e pleno exercício de actividade sindical nas empresas e em todos os locais de trabalho
regular a introdução de algoritmos e outros sistemas de inteligência artificial nos processos de recrutamento, de avaliação e controlo da actividade profissional e na organização do trabalho
reduzir o período normal de trabalho para as 35 horas semanais sem perda de retribuição, para todos os trabalhadores
consagrar 25 dias úteis de férias remuneradas para todos os trabalhadores, sem qualquer condicionalismo
Acabar com a desregulação dos horários de trabalho e garantir a conciliação entre vida profissional e vida familiar e pessoal
revogar os regimes de adaptabilidade e de bancos de horas
alargar o regime de horário flexível de trabalhadores com responsabilidades familiares previsto no Código do Trabalho, abrangendo os que têm filhos até 16 anos de idade e os cuidadores informais
dispensar da prestação de trabalho suplementar os trabalhadores com filhos menores até 12 anos ou, independentemente da idade, com deficiência ou doença crónica, bem os trabalhadores cuidadores informais
limitar os regimes de trabalho nocturno, de trabalho por turnos e de laboração contínua a actividades caracterizadas pela real e efectiva necessidade de assegurar a continuidade do serviço ou produção
alterar os regimes da prestação de trabalho nocturno e trabalho por turnos
Combater a precariedade dos vínculos laborais
revogar o período experimental de 180 dias na contratação por tempo indeterminado de jovens à procura do primeiro emprego e desempregados de longa duração, prevendo um período experimental de 90 dias para a generalidade dos trabalhadores
limitar os motivos justificativos da celebração de contratos a termo às situações de substituição de trabalhadores temporariamente impedidos de prestar actividade e a situações de acréscimo de actividade
revogar os regimes dos contratos de trabalho de muito curta duração
limitar a possibilidades de celebração de contratos de utilização de trabalho temporário aos mesmos motivos que justificam a contratação a termo e sujeitá-los ao mesmo regime
aplicar aos trabalhadores independentes em situação de dependência económica todas as normas legais aplicáveis aos trabalhadores por conta de outrem
alterar as normas legais aplicáveis ao trabalho nas plataformas digitais
garantir o respeito integral dos direitos dos trabalhadores em teletrabalho
Enquadramento da prestação de trabalho suplementar
aumentar o valor do acréscimo remuneratório por prestação de trabalho suplementar,
Compensação pela cessação de contrato de trabalho
alterar o regime de compensação da cessação de contrato de trabalho por causas objectivas (despedimento colectivo, por extinção do posto de trabalho e por inadaptação), estabelecendo o valor da compensação em 30 dias de retribuição base e diuturnidades por cada ano de antiguidade.
Estas propostas têm sido reiteradamente apresentadas pela CGTP-IN, que as reafirma para a discussão «a que o Governo tem fugido». A CGTP-IN «entende que sim, que se deve proceder a alterações na legislação laboral, mas alterações essas que permitam a melhoria das condições de vida e de trabalho e não o seu contrário, que permitam o desenvolvimento do País e não o seu atrofiamento».