A Chuva que Lança a Areia do Saara, de Ana Margarida de Carvalho
Romance admirável, quer no tema quer na utilização invulgar da língua
Ana Margarida de Carvalho tem a antecedê-la, fenómeno raro nas nossas letras, uma geração de grandes autoras: Agustina Bessa Luís e a sua “corte do norte”; Maria Velho da Costa e as “Maias Mendes, enredadas em seus labirintos de rebeldia”; Maria Judite de Carvalho a percorrer, com lírico acinte, as angústias da burguesia urbana; Lídia Jorge, nos prodígios de Abril e nos dramas da Guerra Colonial; Maria Teresa Horta e a afirmação do corpo e do erotismo como forma de libertação.
Tudo isto, que não é de somenos, em prosa irrepreensível e poderosa, quer na afirmação corajosa do género, quer percorrendo, com assertivo bisturi de palavras, as veias gastas de um País de sombras, de castrações, de atávica miséria, ombreando na denúncia, na originalidade, na abordagem literária de temas fracturantes, a realidade do país salazarento, com figuras tutelares como Sena, Saramago e Lobo Antunes.
Acontece que Ana Margarida de Carvalho é, hoje, com quatro romances e dois livros de contos na bagagem, para além dos prémios mais importantes que a crítica e os seus pares lhe atribuíram, um vulcão de criatividade, uma torrente de ideias novas, quer nas formas singulares que vai estabelecendo no discurso literário, quer no modo peculiar como olha a nossa realidade, o lado mais cáustico desse alçapão de fantasmas e de ignomínias e os seus lodosos subterrâneos, a gangrena, o pus que por dentro dilacera o que havíamos sonhado ser justo e limpo, investindo a torrente criativa nos espaços da vergonha, como o Tarrafal, quer na usura bárbara dos negreiros, quer, como neste romance que é um hino épico à coragem, à abnegação e ao desejo infra-humano de resistir e de sair vivo dos atoleiros, mesmo quando os limites do corpo e da razão conduzem as personagens – num recorte gótico, límpido e sagaz –, esculpidas por mãos hábeis e inspiradas, à desistência.
Mais nos diz e se afirma neste romance admirável, quer no tema – a acção passa-se nas Pedreiras de Cantanhede, nos primeiros anos do século XX e da 1ª. República, com a mobilização forçada de mancebos para as linhas da Flandres –, quer na utilização invulgar da língua (na inclusão de uma caterva de vocábulos há muito ausentes da narração ficcional coeva, que a autora utiliza com destreza, como se de léxico vulgar se tratasse, mesmo quando o sabemos saído de uma ampulheta de artesão atento aos virtuosismo da, decadente e velha, ornada de vestidos ridículos na tentativa vã de seduzir o jovem chofer, complexidade de uma arte superior de narrar. Arte não apenas fascinante, mas a convocar o leitor, a torná-lo cúmplice, sem o deixar resvalar para o sofá da comodidade diletante.
Este A Chuva Que Lança A Areia do Saara, título retirado de uma canção de Caetano Veloso, não nos deixa um segundo em sossego, é frenético, excessivo, inquietante o quanto baste para nos manter despertos, ora respirando no humor absurdo de algumas passagens (Celavie, um burlão de opereta, Clotilde , decadente e velha, ornada de vestidos ridículos na tentativa vã de seduzir o jovem chofer, as beatas vigilantes, as pérfidas gémeas siamesas - personagens de um roteiro pícaro exultante), ora indignados com a violenta descrição dos trabalhos desumanos na pedreira (as mortes, os homens dilacerados pela fome e pela sede, mesmo com a cascata a passar-lhes ao lado, qual Sísifo, os feridos, a vida miserável na aldeia), as areias indignadas do Saara, ou as descrições da vida de Ésfira, a mulher sem nariz, que cura as feridas e os desmembrados, os homens que tombam do alto da pedreira, ou dos alcoólatras como Firmino, mesmo que para tanto lhes tenha de cortar o tendão de Aquiles; Cassandra a que não sabia mentir, a que busca o sentido da vida, mesmo que tenha de resgatar os nascituros dos fundos das águas do rio revolto, entre dejectos e lama e cortar os cordões umbilicais com os próprios dentes e inventar pulmões de baleia para vir à superfície e resgatar os filhos; mesmo quando a cascata derruba os mitos absurdos de um anjo e do lobo (que nunca existiu), que um padre ávido de milagres, tentou erguer em pedra no alto do penhasco, sob batuta de um escultor cego; Firmino que entrou na aldeia com as quatro pernas no chão e regressou com uma e meia, tornando-se um herói épico, ele e Cassandra, a domadora de tempestades, vencendo a fúria do rio entre destroços da barcaça-refúgio (alegoria de uma improvável Arca de Noé, com dois humanos, dois nascituros-gémeos, um lírico apicultor e uma galinha rebelde), dado que a água sabe sempre o caminho para o mar, lugar seguro. Casa será, mesmo que erguida nas dunas.
Um romance que nos deixa sem fôlego, numa prosa intensa como um clarão, um ritmo de harpa inquieta, uma imaginação fulgurante, inteligente e invulgar, povoado de gente estranha num território em ruínas, pejado de desvarios, de sofismas, de ardis – de sol tapado pelas areias que sopram do Saara, ou pelo medo e o fogo que hão-de-vir.




