- Nº 2721 (2026/01/22)

Sem batom

Opinião

Uma colorida expressão norte-americana garante que não adianta pôr batom num porco, pois nem por isso deixa de ser um porco. Vem isto a propósito da política do imperialismo. De forma cada vez mais brutal, deixam-se cair as falsas desculpas para aquilo que sempre foi, e será, a essência da política imperialista: a conquista, a rapina, a violência sem entraves. Basta ouvir Trump falar da Venezuela para perceber que o batom passou de moda. Trump diz abertamente o que outros tentam maquilhar. Assume o objectivo do controlo colonial, da pilhagem dos recursos naturais, do total desrespeito por qualquer réstia de direito internacional. Assim também na Palestina. O genocídio de Israel-EUA-Inglaterra-UE, que vem do tempo de Biden, saiu dos noticiários, mas prossegue no terreno. Trump quer agora nomear órgãos de cariz colonial para Gaza. E criar, sobre os cadáveres de dezenas de milhares de crianças, um resort de luxo para milionários. O jornal israelita Jerusalem Post relata a confissão sem batom da Mossad, serviços secretos de Israel, de como intervém no Irão: «Chegou a hora. Estamos convosco. Não apenas à distância e verbalmente. Estamos convosco no terreno» (jpost.com, 29.12.25). O sinistro ex-director da CIA e ex-MNE dos EUA, Michael Pompeo, confirma, num tweet onde cinicamente deseja «Bom Ano Novo a todos os iranianos que estão nas ruas. E também a todos os agentes da Mossad que caminham ao seu lado» (jpost.com, 3.1.26). As confissões explicam como se militarizaram os legítimos protestos iniciais, numa tentativa de abrir caminho a uma nova agressão militar dos EUA e Israel, à semelhança do que aconteceu em Junho.

Importa não subestimar a perigosíssima situação que vivemos. Mas a dispensa do batom é também um sinal de desespero. O declínio económico da superpotência imperialista é evidente, tal como o é a ascensão da China. Há muito que a classe dirigente dos EUA procura dar a volta à situação. Mas são difíceis de ultrapassar os estragos causados por décadas de desindustrialização, financeirização, militarização e endividamento. A dívida pública dos EUA está a ficar descontrolada. No início deste ano atingia 38,3 biliões de dólares (teradólares; jec.senate.gov, 9.1.26), com um aumento de 38,7% em apenas cinco anos. No ano fiscal de 2025 os EUA gastaram mais a pagar juros de dívida (1,2 biliões) do que no seu gigantesco orçamento militar (1 bilião). A insustentabilidade dessa situação, a imprevisibilidade de Trump, a sua errática política de taxas aduaneiras (ou melhor, sanções) arriscam-se a secar os fluxos de dinheiro que têm permitido manter o dólar como moeda de reserva mundial. Resta a fúria agressiva para, através da pilhagem, intimidação e violência, tentar abocanhar recursos e preservar a hegemonia dos EUA.

Também por isso a Gronelândia. Durante décadas a UE ajudou a destruir o direito internacional, da Jugoslávia a Gaza. Alimentou o monstro, pensando beneficiar com a sua conivência no ataque a outros. Mas agora está na mira. O silêncio ensurdecedor da UE face ao ataque terrorista de Biden que mandou pelos ares o gasoduto NordStream2, mostrou o grau de vassalagem da UE. A (não) reacção às tarifas de Trump confirmou-o. Pensavam que ser lacaios os punha ao abrigo da rapina. Mas o cheiro a sangue atiça as feras. E sempre é mais fácil roubar quem se põe a jeito.

Jorge Cadima