Minneapolis, montra de um império doente

António Santos

As mais recentes demonstrações de força dos EUA, na sua forma mais nitidamente imperial, prepotente e hegemónica, espelham também a sua fraqueza económica, diplomática e interna. Se, por um lado, a aceleração a que assistimos corresponde, no plano internacional, à necessidade de segurar pela força das armas e da chantagem o poder que o comércio “livre”, a diplomacia e o direito já não garantem para travar a veloz ascensão de novos países, por outro lado ela também articula explosivas tensões internas que, já em 2026, ameaçam desagregar a sociedade.

Minneapolis, no Minnesota, é, por estes dias, a montra dos EUA, vitrine sangrenta que exibiu, no passado dia 7, o assassinato em directo de Renée Good, às mãos da polícia migratória conhecida como ICE. A mulher de 37 anos tinha acabado de levar à escola o mais novo dos seus três filhos quando foi abordada violentamente por capangas de cara tapada do ICE que a mataram com dois tiros. Foi a gota de água: durante semanas, mais de 3000 agentes armados do ICE aterrorizaram a cidade, assediando, agredindo e prendendo centenas de trabalhadores em escolas, restaurantes, fábricas, estaleiros de construção civil, nas suas casas e ruas. Quem não consegue imediatamente provar residência legal é detido.

O governador do Estado, Tim Walz, descreveu a situação nestes termos: «partem janelas, arrastam mulheres grávidas pelas ruas, enfiam minnesotanos em carrinhas não identificadas, raptam pessoas inocentes sem aviso nem processo judicial (…) é uma campanha de brutalidade organizada pelo nosso próprio governo federal, mas o dia do acerto de contas vai chegar.» À medida que as manifestações populares se intensificaram e alargaram, Trump ameaçou invocar a Lei da Insurreição para suspender quaisquer garantias e mandar o exército para pôr fim aos protestos. Em resposta, Walz também prometeu recorrer à Guarda Nacional do Estado para fazer frente às tropas federais.

O que se passa no Minnesota não é a excepção, é a regra: de costa a costa, multiplicam-se os ataques contra trabalhadores, imigrantes, mulheres e minorias. Em dois anos, mais de 23 mil livros foram proibidos nas escolas públicas; milhares de contratos colectivos de trabalho foram destruídos; 5% das maternidades fecharam; 700 mil imigrantes foram detidos; o preço dos cuidados de saúde aumentou 8% e o das casas 5%, muito acima dos salários, que, considerando a inflação, subiram menos de 1%.

É neste quadro, com taxas de aprovação inferiores a 40%, que Trump se prepara para enfrentar eleições intercalares.

Três processos paralelos aceleram e volatilizam a política nos EUA: agudizam-se as contradições entre os sectores do capital alinhados com o Partido Democrata e com Trump, que está a minar as condições institucionais, legais e políticas para um eventual regresso ao poder do Partido Democrata e dos capitalistas que o financiam. A sagrada alternância entre capitalistas e respectivos representantes está comprometida e nem mesmo a cooperação democrata trava Trump. A sociedade ameaça desagregar-se numa espiral de violências acumuladas e novas. Finalmente, a actual posição global dos EUA já não sustenta, simultaneamente, elevados níveis de consumo interno e lucros elevados. A classe trabalhadora foi condenada a empobrecer ou a revoltar-se.

 



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