Tomar a iniciativa

O PCP não vai abdicar de intervir

O quadro político é marcado pelas eleições Presidenciais, mas na vida de quem trabalha, da juventude e dos reformados, acentuam-se as dificuldades. A maioria confronta-se com um acelerado aumento do custo de vida, desde logo no preço dos alimentos, ataques aos direitos dos trabalhadores, baixos salários, ofensiva contra os serviços públicos, onde se destaca o desmantelamento do SNS (mais um fim de semana que passou, mais uma vez seis urgências encerradas), prosseguem as dificuldades de acesso à habitação, com rendas incomportáveis e o preço das casas a aumentarem 169% nos últimos 10 anos.

Uma situação que contrasta com lucros nunca vistos dos grupos económicos; com os recordes de distribuição de dividendos; com o desvio de milhares de milhões de euros de receita fiscal para o capital monopolista, diminuindo os recursos públicos e comprometendo as funções sociais do Estado; com as negociatas e crimes económicos como os novos passos na criminosa privatização da TAP ou o anunciado negócio entre a GALP (em que o Estado detém uma participação de 8%) e a Moeve – que agrava os riscos para a última refinaria do País, em Sines, e compromete ainda mais a soberania e segurança energéticas.

De salientar ainda o acordo UE/Mercosul, aplaudido pela CIP e pela CAP, e que constitui uma séria ameaça aos sectores produtivos, com destaque para a agricultura familiar.

Foi esta realidade resultante da política levada a cabo pelo Governo PSD e CDS, a que se associam Chega e IL, e que conta com a cumplicidade do PS, que procuraram que passasse ao lado do debate das eleições para Presidente da República.

Essa realidade que as eleições não apagou e cujo resultado na primeira volta cria não só condições para o prosseguimento da desastrosa política em curso como abriu ainda mais espaço à afirmação de concepções reaccionárias e antidemocráticas.

O investimento levado a cabo por meios poderosos na manipulação, no silenciamento, na difusão do preconceito e do medo, designadamente a partir da grande operação das sondagens, não foi em vão, levando muita gente a fazer opções de voto condicionadas.

Na verdade, ao contrário do que durante longas semanas foi sendo construido de suposto empate técnico entre candidaturas, o que se verificou de facto é que o candidato mais votado se tivesse tido menos 14 pontos percentuais, teria passado à segunda volta.

Largos milhares de votos que foram desviados da candidatura de António Filipe, aquele que daria força à exigência de ruptura e da mudança de que os trabalhadores, a população, a juventude e o País precisam.

Merece sublinhado o resultado obtido por Marques Mendes, o rosto mais explicito do Governo nas eleições. O seu resultado é também de PSD e CDS, partidos que partilham com a IL a indiferença face a quem ganha na segunda volta.

O desfecho da segunda volta não está arrumado, está por decidir.

Sem alimentar nenhuma ilusão sobre António José Seguro – até porque o seu pensamento, posicionamentos, compromissos e prática falam por si –, o PCP não vai abdicar de intervir para impedir a eleição de André Ventura, cujo projecto e concepções reaccionárias e antidemocráticas, assentes na mentira, demagogia e hipocrisia, é imperativo derrotar.

Está colocado a todo o Partido a necessidade de no seguimento do Comité Central levar tão longe quanto possível, a discussão e análise do quadro em que estamos.

Ouvir e ganhar o Partido, dar-lhe confiança para que o Partido possa transmitir essa confiança a tantos e tantos que estão com medo, que acham que não vale a pena, que estão resignados e que consideram que não é possível travar o rolo compressor.

Este é o momento para tomar a iniciativa e de levar por diante nas próximas semanas uma ampla acção de contacto com os trabalhadores, as populações e a juventude “Outro rumo para o País. Rejeitar o Pacote Laboral, a exploração e as injustiças”.

Uma iniciativa em torno dos problemas que afectam a maioria dos que vivem e trabalham no País, afirmando a ruptura e a mudança que se impõe, a ruptura e a mudança que retire e derrote o pacote laboral; que reforce o SNS e crie condições para garantir acesso à saúde para todos; que defenda a Escola Pública; que trave os ataques em curso à Segurança Social; que concretize o direito à habitação; que enfrente o custo de vida que não pára de aumentar; que promova os caminhos da paz e o combate à loucura da guerra e da corrida aos armamentos; que exija a intensificação da luta de massas, a convergência dos democratas e patriotas e o reforço do PCP.

Na situação concreta do tempo em que vivemos, coloca-se a necessidade da concretização das orientações do XXII Congresso para reforçar o Partido, elemento decisivo para os trabalhadores, o povo e o País.

Tal como ficou patente na poderosa manifestação de unidade e força que foi a greve geral de 11 de Dezembro, os trabalhadores, as populações e a juventude têm no PCP o porto seguro e a força de combate ao medo e à resignação, a força da confiança no papel decisivo dos trabalhadores, a força da alternativa que Portugal precisa e que a vida impõe.