- Nº 2720 (2026/01/15)A Revolução bolivariana, iniciada em 1999, pelo Presidente Hugo Chávez, é também marcada pela ingerência e a agressão dos EUA, que contou com o apoio de países da região e da oligarquia venezuelana. Nesta incompleta cronologia referimos apenas alguns dos momentos deste processo, incluindo da intervenção externa, que teve a 3 de Janeiro deste ano, com a agressão militar dos EUA à República Bolivariana da Venezuela e o sequestro do seu Presidente Nicolás Maduro, um gravíssimo desenvolvimento.
Lusa
2002
11-13 Abril: Tentativa de golpe de Estado promovido por toda a direita e grande parte da denominada social-democracia, o grande patronato, sectores das Forças Armadas e a estrutura da Igreja, e coordenado pelos EUA: o Presidente Hugo Chávez é detido, o parlamento é dissolvido e o dirigente patronal Pedro Carmona é empossado como “presidente”. Bush e Aznar apoiam. A forte reacção das massas populares e a sublevação da maior unidade militar derrotam o golpe e impõem a libertação do PresidenteHugo Chávez. A União Cívico-Militar no processo bolivariano reforça-se.
2002-2003
Fracasso da denominada “greve petrolífera” promovida pela direcção da PDVSA, o patronato e a principal central sindical afecta à oposição, que praticamente paralisa a produção e exportação de crude e o abastecimento de combustíveis. Derrotada no início de 2003, tem como consequência uma vasta reestruturação da PDVSA e a constituição de uma nova central sindical apoiante do processo bolivariano.
2004
15 Agosto: Chávez vence o referendo revogatório promovido pela oposição, com 59% do “Não” à revogação do seu mandato, numa eleição com uma elevada participação.
2005
4 Dezembro: Eleições legislativas marcadas pelo boicote das principais forças da oposição golpista. O Movimento V República e aliados do Pólo Patriótico conquistam quase todos os 167 lugares.
2010
26 Setembro: A coligação das forças bolivarianas vence as eleições legislativas, conquistando a maioria absoluta da Assembleia Nacional.
2013
14 Abril: Nicolás Maduro, apoiado pelo Grande Polo Patriótico Simón Bolívar, é eleito presidente com cerca de 51%, batendo Capriles, candidato da MUD. Capriles não reconhece os resultados e a oposição promove uma onda de violência (guarimbas) que, no decorrer de meses, é responsável por dezenas de mortos. Este momento marca o início de uma fase qualitativamente nova da acção de desestabilização promovida pelos EUA.
2015
9 Março: Por decreto, Obama declara a Venezuela uma “ameaça inusual e extraordinária para a segurança nacional e a política externa” dos EUA. Sob uma acção de desestabilização cada vez mais violenta, agrava-se a situação económica e social na Venezuela.
6 Dezembro: Vitória da MUD nas eleições legislativas, alcançando a maioria absoluta no parlamento, o que constituiu a segunda derrota das forças bolivarianas em 20 eleições.
Henry Ramos Allup é eleito presidente da Assembleia Nacional. É o início do período marcado por uma “dualidade de poderes” e o incremento da violência golpista nas ruas, que só é superado no plano político e institucional a partir da eleição da Assembleia Constituinte em 2017.
2017
Julho: A oposição tenta impedir as eleições para a Assembleia Constituinte e, paralelamente, através da Assembleia Nacional, avança com a criação de instituições paralelas do Estado, como o denominado Tribunal Supremo no exterior. Trump ameaça com fortes medidas coercivas económicas face à eleição constituinte.
30 Julho: Num quadro de uma autêntica guerra económica – com a imposição do bloqueio económico pelos EUA, a sabotagem económica, o açambarcamento e a especulação de preços –, de desinformação e manipulação mediática e de promoção de violência por parte da oposição golpista, realizam-se as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Face ao boicote da oposição golpista, as forças bolivarianas elegem a totalidade dos 545 lugares, com mais de oito milhões de votos. Os EUA, a UE e os governos de direita na América Latina não reconhecem a eleição. A eleição da Assembleia Nacional Constituinte significou, de imediato, o fim da violência nas ruas e a estabilização da situação política e institucional, num quadro de incremento das sanções impostas pelos EUA e UE.
8 Agosto: Diversos países latino-americanos criam o chamado “Grupo de Lima”, um novo instrumento de ingerência promovido pelos EUA contra a Venezuela. Dias depois, Trump coloca a possibilidade de uma intervenção militar e intensifica as sanções e outras medidas coercivas, no âmbito da política de “máxima pressão”.
Novembro: Seguindo os EUA, a UE aprova sanções contra a República Bolivariana da Venezuela.
2018
Fevereiro: Por pressão dos EUA, a oposição golpista recusa à última hora assinar o acordo de “convivência política democrática” negociado com o Governo venezuelano no âmbito do processo de diálogo que teve lugar na República Dominicana.
Março: A Administração Trump anuncia novas sanções económicas, num cenário de crescente bloqueio petrolífero, financeiro e económico, abrangendo também o boicote a importações (compostos para indústria petroquímica, alimentos, medicamentos, etc.), para além de uma vasta campanha mediática contra o governo presidido por Nicolás Maduro.
20 Maio: As forças bolivarianas garantem a reeleição de Nicolás Maduro, candidato do movimento político “Todos Somos Venezuela”, com mais de seis milhões de votos. A oposição divide-se, com os diversos partidos a optar pelo boicote às eleições. Henry Falcon, foi o principal candidato opositor, com 1,9 milhões de votos. As forças da oposição golpista anunciaram, previamente, não reconhecer as eleições, tal como os EUA, a UE e o denominado “Grupo de Lima”.
4 Agosto: Tentativa de assassinato de Nicolás Maduro e da direcção político-militar venezuelana durante um acto público em Caracas.
Setembro: Secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Almagro, afirma na Colômbia que não se deve descartar uma intervenção militar na Venezuela.
2019
Janeiro: Juan Guaidó, do partido de extrema-direita Vontade Popular, toma posse a 5 de Janeiro como presidente da Assembleia Nacional. A 10 de Janeiro, Nicolás Maduro é empossado para o 2.º mandato presidencial (2019-2025). A OEA declara-o ilegítimo. No dia 23, Juan Guaidó “autoproclama-se” presidente. O Tribunal Superior de Justiça da Venezuela declara a “autoproclamação” inconstitucional e nula. Diversos países ocidentais e latino-americanos reconhecem o presidente fantoche Guaidó. Em Portugal, o governo PS reconhece Guaidó e apoia a campanha golpista.
24 de Fevereiro: Fracassa a provocação montada contra a Venezuela a partir da fronteira com a Colômbia e o Brasil, com o apoio dos governos de Duque e Bolsonaro.
Abril: Os EUA “proíbem” a compra de petróleo venezuelano, impondo o cerco às exportações de crude. No início de 2019, a empresa estatal venezuelana nos EUA, Citgo, é confiscada pelas autoridades norte-americanas. No espaço da UE são congelados mais de 10 mil milhões de dólares de activos do Estado venezuelano. Em Portugal são retidos mais de 1500 milhões de euros no Novo Banco. O Reino Unido rouba 14 toneladas de ouro do Estado venezuelano.
30 de Abril: Nova intentona golpista em Caracas é derrotada. Trata-se de mais um revés na agenda golpista de Guaidó, em resultado do qual a oposição aceita o início de processo negocial com Governo venezuelano, mediado pela Noruega.
Julho: Retomado processo de diálogo, com reunião nos Barbados entre o Governo venezuelano e a oposição.
2020
Janeiro: Em litígio com Guaidó, a Assembleia Nacional elege como presidente Luís Parra. Anteriormente, o PSUV tinha aceitado regressar à Assembleia Nacional e o Governo venezuelano inicia um novo processo negocial com sectores não golpistas da oposição.
Março: A UE apoia o plano-farsa dos EUA de um “quadro de transição democrática” para a Venezuela. Previamente, a Administração Trump acusou o Presidente Nicolás Maduro e outros altos funcionários venezuelanos de ditas “ligações ao narcotráfico”, colocando a sua “cabeça a prémio”. O bloqueio económico dos EUA à Venezuela intensifica-se no contexto da COVID19.
3 Maio: Tentativa frustrada de desembarque de mercenários na Venezuela, conhecida como “operação Gedeón”. Nos dias seguintes, mais de 50 mercenários são detidos, entre os quais dois ex-militares dos EUA. Segundo o Washington Post, a operação que visava realizar actos de terrorismo, incluindo o assassinato de altos dirigentes e a captura ou eliminação do Presidente Nicolás Maduro, resultou de um contrato assinado por Guaidó com a Silvercorp, empresa privada militar dos EUA.
6 de Dezembro: Eleições legislativas na Venezuela com triunfo das forças bolivarianas.
2021
Janeiro: Tomada de posse da nova Assembleia Nacional. A UE deixa de reconhecer o fantoche Guaidó como dito “presidente”, sem reconhecer o legítimo Presidente Nicolás Maduro.
2022
Dezembro: Três dos quatro principais partidos da oposição aprovam a dissolução do “governo interino” fantasma de Guaidó, reconhecido pelos EUA.
2023
Abril: Guaidó refugia-se nos EUA. Desde Obama a Biden, os EUA impuseram 930 medidas coercivas contra a República Bolivariana da Venezuela, afectando significativamente a economia do país e atingindo as condições de vida do povo venezuelano, incluindo da comunidade portuguesa que vive e trabalha na Venezuela.
17 Outubro: Assinatura dos acordos de Barbados entre Governo venezuelano e a oposição, que tem subjacente uma retirada parcial das sanções e medidas arbitrárias dos EUA. Os EUA permitiram a exportação para os EUA do petróleo da exploração da empresa Chevron na Venezuela. Foi também “autorizada” pelos EUA a exportação para os EUA e Europa de crude das operações da Repsol e Eni.
2024
Abril: Os EUA anunciam que vão reinstaurar sanções no sector petrolífero, invocando que as eleições presidenciais marcadas para 28 de Julho não são “transparentes” e “livres”. Será o 31.º acto eleitoral na Venezuela em 25 anos.
Maio-Julho: Os principais partidos da oposição, reunidos agora na Plataforma Unitária, avançam com a candidatura de Edmundo González, que faz campanha ao lado de Corina Machado. Nicolás Maduro recandidata-se pelas forças bolivarianas. González recusou-se a assinar o acordo promovido pelo Governo venezuelano de reconhecimento dos resultados da eleição.
Julho: Mais uma vez a oposição de extrema-direita recusa-se a reconhecer os resultados das eleições e numa manobra golpista promove acções de grande violência, da qual resultaram diversos mortos e significativa destruição de bens públicos. Após a recontagem dos votos, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela anuncia a vitória de Nicolás Maduro nas eleições para Presidente da República.
2025
Agosto: EUA iniciam a concentração no Mar das Caraíbas de um poderoso dispositivo militar – o maior desde a agressão ao Iraque, em 2003 – e ameaçam de agressão a República Bolivariana da Venezuela, assim como outros países da região.
Dezembro: Comissão Económica para a América Latina e o Caraíbas (Cepal) prevê crescimento de 6,5% na Venezuela, um dos mais elevados da região.
2026
Janeiro: No dia 3, tropas norte-americanas bombardeiam Caracas e outras cidades venezuelanas e sequestram o Presidente Nicolás Maduro e a sua esposa, Cília Flores. Em todo o país e pelo mundo fora, a agressão dos EUA é condenada e é exigida a libertação do Presidente venezuelano. Os EUA assaltam diversos navios petroleiros ao largo da Venezuela e impõem um bloqueio pretrolífero. Donald Trump proclama que serão os EUA a mandar na Venezuela e a explorar o seu petróleo. A vice-presidente Delcy Rodriguez é nomeada Presidente encarregada da República Bolivariana da Venezuela e garante: «Aqui há um governo que comanda a Venezuela, uma Presidente encarregada e um Presidente refém nos EUA», acrescentando que a governação se exerce com o povo organizado e a união cívico-militar.