- Nº 2719 (2026/01/8)

A FDIM e a luta das mulheres na segunda metade do século XX

Argumentos

A correlação mundial de forças resultante do pós-Segunda Guerra Mundial, com a formação de um sistema articulado de países socialistas, a derrocada do sistema colonial e a luta dos povos contra o imperialismo, foi favorável às forças revolucionárias e progressistas. É neste contexto que teve lugar em Paris (1945) o congresso fundador da Federação Democrática Internacional de Mulheres – FDIM.

Foi a resistência e a mobilização das mulheres na luta contra a guerra e o fascismoi que uniu estas mulheres, de 41 países, num sólido espaço de unidade e convergência que, a partir das diferentes realidades dos países socialistas, capitalistas e dos países que conquistaram a independência, ambicionaram consolidar um rumo de paz e de conquista dos direitos das mulheres.

A FDIM e o Ano Internacional da Mulher (1975)
Os principais contributos da FDIM nas Nações Unidasii foram decisivos: o Dia Internacional da Criança (1949) e o Ano Internacional da Criança (1979); a proposta do Ano Internacional da Mulher (1972), ponto de partida das acções em grande escala para melhorar o estatuto das mulheres em todo o mundo; a criação na ONU de programas e fundos especializados; a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (1979), o mais importante “tratado das mulheres” até à data.

Em todos os continentes, as organizações de mulheres filiadas na FDIM mantiveram uma intensa actividade na luta pela paz e coexistência pacífica, e pelo desarmamento nuclear, e uma intervenção firme para combater a opressão das mulheres contra o imperialismo e o colonialismo, e de luta pelos direitos políticos, económicos, sociais e culturais. A FDIM assinala este ano o 80.º aniversário com uma actividade ininterrupta.

Silenciada e deturpada pela dominante historiografia feminista neoliberal ocidental, o contributo da FDIM para a causa emancipadora das mulheres a nível mundial foi extraordinário, mas a “Guerra Fria” ainda persiste.

Contudo, este silêncio esmagador não apaga o verdadeiro legado histórico da FDIMiii, a mais influente das organizações internacionais de mulheres do período pós-1945, a força motriz das mais importantes iniciativas mundiais adoptadas por e para as mulheres, na segunda metade do século XX.

Mulheres portuguesas e o seu contributo na FDIM
Apesar do grande risco durante o fascismo, as mulheres portuguesas participaram nos Congressos e reuniões da FDIM, desde o seu Congresso fundador com a presença de Maria Lamas na qualidade de presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, e nos congressos da FDIM até ao 7.º – o Congresso Mundial do Ano Internacional da Mulher (Berlim, RDA, 1975), integrada na delegação portuguesaiv como convidada de honra.

Várias notícias no Avante! relatam as iniciativas e apelos da FDIM em defesa da Paz mundialv, contra a bomba atómica e a criação da NATO, além da maior participação das mulheres portuguesas nas comissões em defesa da Paz, apesar desta ser “palavra proibida” pelo fascismovi.

A FDIM realizou campanhas contra as prisões políticas do fascismo e, no seu 6.º Congresso (Helsínquia, 1969), Sofia Ferreira, membro do Comité Central do PCP, foi convidada a integrar a Mesa do Congresso, calorosamente acolhida pelas congressistas de todo mundo, a quem agradeceu a constante solidariedadevii (7). Além de Maria Lamas, participaram Maria Luísa da Costa Dias, Maria José Ribeiro, Cecília Areosa Feio, Dulce Rebelo e Maria da Piedade Morgadinho, da Rádio Portugal Livreviii.

Após a sua fundação em 1968, o Movimento Democrático de Mulheres – MDM passou a estar filiado na FDIM, e a contribuir com a sua acção para os objectivos comuns.

 

iMulheres envolvidas no Comité Mundial de Mulheres contra a Guerra e o Fascismo fundado em 1934

iiA FDIM integrou o Conselho Económico e Social da ONU em 1947

iiiApós o trabalho pioneiro sobre a FDIM de Francisca de Haan (2010), têm sido publicados outros, ex: Celia Donert, 2013; Vera Mackie, 2016; Kim Taewoo, 2020; e de Haan, 2022

ivAvante! n.º 81, 16/10/75, p.4

vAvante! n.º 161, Setembro 1951, p.4; Avante! n.º 170, Agosto 1952, p.3; Avante! n.º 177, Maio 1953, p.6; Avante! n.º 178, Julho 1953, p.1; Avante! n.º 273, 1.ª quinz. Abril 1959, p.5

viGustavo Carneiro. Paz, Palavra Proibida, 2013

viiAvante!, n.º 405, Agosto 1969, p. 4

viiiAvante!, n.º 2194, 17 Dezembro 2015

 

 

Isabel Cruz